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Caso Torres-RS: luto por todas as mulheres

Eu tentei não ler a respeito do caso de Adelir – a parturiente de Torres-RS que foi submetida compulsoriamente a uma cesariana por ordem judicial, levada ao hospital sob escolta policial em meio ao trabalho de parto, sob alegações médicas de risco iminente de morte materna e fetal, acatadas judicialmente em um contexto e com base em provas que desconheço (salvo pelos relatos de notícias, cuja fidelidade e fontes não me atrevo a julgar) – considerando o envolvimento emocional que ocorreria, inevitavelmente, a essa altura da gravidez.

Estou à espera da Alice, literalmente, aguardando seu tempo, sua vinda, confiando na nossa natureza, no comprometimento de toda uma equipe escolhida à dedo, tamanho o medo de sermos violentadas no nosso mais elementar direito de parir/nascer – o que não é exagero, considerando que 1/4 das parturientes brasileiras relatam ter sofrido violência obstétrica, uma violação aos seus direitos humanos, à sua autonomia, uma agressão institucionalizada, relativizada, amenizada porque se veste de branco e atende por títulos de dr. em portas de consultório e hospitais. Violência. Ponto.

Enfim… nesse contexto tentei me poupar. Mas não deu. Não dá. Cada mulher gestante ou futura gestante nesse país foi violentada junto com a Adelir. Todos os nossos corpos femininos foram mutilados com essa decisão. A nossa autonomia foi roubada. Nossa liberdade foi subtraída. Todas fomos ignoradas em nosso direito de escolha.

Se os medos da médica eram fundados, não me importa. Se a juíza teve tempo e maturidade para decidir sem ouvir a parte contrária, não me importa. O resultado é o mesmo: todas nós, mulheres, fomos violentadas pelo Estado, representado neste caso, ironicamente, por mulheres.

O e-mail que colo abaixo foi em resposta a uma amiga que me mandou a notícia. Só consigo sintetizar o que sinto dessa forma.

“to tão perplexa com tudo isso que nem consigo comentar direito. eu li ontem a noite e ainda hoje fico martelando.

já fiz todas as viagens teóricas e emocionais possíveis, buscando alguma justificativa para que o Estado tenha se apoderado do corpo dessa mulher e lhe roubado a autonomia e liberdade de forma tão arbitrária.
não acho nenhuma. arbitrariedade, somente. sexismo puro, tratar a mulher como porta-bebês. tratar o nascituro como sujeito de direitos quando convém.
só lamento pela violência que essa família sofreu, irreparável.
se uma mulher resolve, por qualquer razão, fazer uma cesariana sem indicação, fato que, comprovadamente, a põe em maiores riscos de morte e morbidade, bem como a seu filho, ninguém, ninguém cogita obrigá-la judicialmente a aguardar ou passar por um trabalho de parto/parto vaginal, afinal, seu corpo, sua vontade, apesar de todos os pesares. e ela está no seu direito! para vivenciar o contrário, meu Deus, que luta… é muita maluquice para essa altura da gravidez, entende.
continuo à espera da alice 🙂 terça completamos 38 semanas e ela estará a termo, finalmente 🙂
vem alice, no seu tempo, mesmo que a gente tenha que brigar ;)”
Mudo, agora, o final, após refletir um pouco mais.
Vem, Alice, que uma porção de mulheres e homens que não aceita tamanho desrespeito já está brigando por você e pelo seu irmão, para que cresçam num mundo igual.
Que a seu tempo, sendo a maternidade biológica da sua vontade, todo esse absurdo seja aquele tipo de história que envergonhou e ensinou e não mais a maciça realidade.
P.S.: para ler e refletir ==> http://vilamamifera.com/orelhasdevidro/cesarianas-episiotomias-clitoridectomias/

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Arquivado em Bebê, Carmela, Gestação, Opinião

Violência Obstétrica: A Voz das Brasileiras

Dia 25 de novembro foi dia internacional de enfrentamento à violência contra a mulher. Ouvimos falar de agressões físicas, verbais, emocionais, mas pouco nos atentamos a uma forma de violência mais sutil, porém devastadora e permanente, a violência obstétrica. Ela é cruel porque é legitimada, porque parte de uma estrutura aceita por todo mundo, porque tem o conhecimento e o poder a seu favor.

O termo não se refere ao autor da conduta, mas ao momento da vida da mulher em que ela acontece: pré-natal, parto e puerpério. Ela atinge mulheres, seus filhos, sua família. Ela deixa marcas, físicas e/ou emocionais. É triste demais, porque se confunde com o momento sublime do nascimento, então é como se fosse proibido sentir-se violentada nesse momento.

Ela ocorre quando a mulher sofre, de fato, agressões verbais e físicas. Além disso, e de forma menos explícita, ocorre quando uma mulher tem seu parto roubado, quando sofre intervenções desnecessárias, padronizadas, que não levam sua individualidade em consideração; ela acontece com humilhações, com gracejos, com desrespeito à sua dor; ela ocorre quando impõem que a mãe fique sozinha, quando a afastam desnecessariamente do seu filho, quando lhe incutem medo e culpa; ocorre quando não há equipe adequada para atendimento, quando ignoram os sentimentos que já existem da mãe pelo seu filho ainda no ventre; quando tratam um aborto como rotina; quando se omitem informações, quando se manipulam informações, quando as informações são usadas para coagir. A violência obstétrica usa roupa branca, é cliente do SUS, dos planos e particular; ela se esconde nos corredores, habita nas macas, nas rotinas, no discurso.

Tive um parto respeitoso; fui acompanhada por uma médica de confiança, presente e muito franca. Tive uma cesárea bem indicada. Mas apenas depois de conhecer a violência obstétrica na teoria pude dar nome pra alguns sentimentos que carrego sobre alguns momentos da minha gestação e puerpério.

Já falei sem falar do meu parto. Nunca quis detalhar alguns assuntos. Hoje somo minha voz à voz de outras mulheres que relatam sua experiência como um alerta, como um pedido para que sejam ouvidas.

Com 8 semanas de gestação tive meu primeiro sangramento. Fui ao plantão do pronto socorro do Hospital Evangélico de Londrina. Esse Hospital tem selo de Amigo da Criança e divulga ser humanizado. Em tese, especialmente ali, deveria haver um plantonista obstetra. Não tinha. O médico da noite foi muito atencioso e solícito. Tive o melhor atendimento que a situação permitia. Diagnóstico: descolamento de placenta/ ameaça de aborto. Orientação: repouso absoluto por 30 dias e uso de hormônios. Vamos lá então.

Na última semana do tratamento tive novo sangramento. O pânico foi ainda maior. Corremos para o hospital novamente. Dessa vez foi terrível. Já tendo uma ideia sobre o que era e do risco de abortamento, estávamos muito nervosos. Ainda na recepção, ao ser questionada sobre o que estava sentindo, disse que estava com um sangramento, uma possível ameaça de aborto, em tal semana de gestação. Escuto a primeira pérola: então você veio fazer curetagem?

Na hora foi impossível conter o choro. Claro que não! Eu vim justamente para evitar isso. Calei. Abraçava meu marido. Devo ter sido mal interpretada. Era a recepcionista, esquece. Entrei para a consulta.  Não havia obstetra de plantão novamente, o médico só sabia falar que ele não poderia atender, que o hospital deveria ter obstetra mas não tinha, que não era especialidade dele. “Mas então, doutor, o que que a gente faz? Onde tem obstetra de plantão?”. “Em nenhum hospital”. Nesse meio tempo tentávamos falar com a minha médica, mas não podíamos esperar. Precisávamos saber como estava nosso filho!

“Então o que o senhor quer que a gente faça? Que a gente vá embora? Então ninguém vai me atender?”. Ele conseguiu falar com alguém e enfim me atendeu. Grosso. Bravo. Fim de plantão. Fui fazer ultrassom. A médica responsável, com toda delicadeza, me pergunta: vamos ver se o embrião tá vivo?

Cadê a sensibilidade desse povo? A empatia? O saber perguntar? Uma mãe chora na sua frente com medo de ter perdido o filho. Você trata o filho dela como um amontoado de células que tanto fez tanto faz continuar ali? Você foca primeiro na morte e depois na vida? “Olha, é bem comum abortamentos espontâneos na primeira gestação, no primeiro trimestre, tá”.

Lembrei que uma das primeiras pessoas que soube da minha gravidez me deu os parabéns com uma frase parecida, para eu não me assustar, caso acontecesse. Digo para você, por duas vezes senti um medo terrível, medonho, vivo, permanente de perder meu filho. Em nada me confortou saber desse fato.

Depois de tudo, bebê bem, novo repouso absoluto por mais 30 dias, mais hormônios, as coisas se acalmando, o médico parece que fez uma auto-crítica e pegou mais leve, foi empático e fim.

O restante da gestação correu bem, apesar de algumas intercorrências. Tive diabetes gestacional, o bebê ficou pélvico, fiz dieta hiper restritiva passada pela nutricionista que colaborou para uma parada de ganho de peso do bebê na reta final, quando era para ele engordar. Passei quatro semanas com dilatação, perda do tampão, observação e acompanhamento. Bebê virou pra córmico, voltou para pélvico. Era véspera das 38 semanas.Vamos de cesárea. Na madrugada do parto senti cólicas leves (às 5h30 eu deveria estar no hospital mesmo). Cheguei com quase 4 dedos de dilatação. O Miguel nasceu quando devia nascer.

Como já escrevi por aqui, sempre tive muito medo da cesárea porque é uma cirurgia. Apesar de ser a cirurgia mais justificada desse mundo, porque traz uma criança ao mundo, meu medo persistiu inclusive durante o procedimento. Estava tensa e nervosa, tive a atenção carinhosa da equipe, especialmente da anestesista, que me fez carinho e segurou minha mão enquanto o Ulisses não entrou. Nesse sentido, tudo correu de modo muito respeitoso, gentil, lindo.

Minha única coisa mal resolvida sobre os dias de maternidade foi o porquê de não terem me trazido o Miguel para mamar na primeira hora. Tivemos muita dificuldade com a amamentação, jamais vou saber se isso teve influência ou não. Ele não sugava.

Já havíamos sido avisados sobra a prática do HEL de dar complemento sem consultar as mães ou à revelia do pediatra, apesar do selo. Também já sabíamos que os bebês podem ficar sem mamar nos primeiros dias sem problema, desde que não fiquem hipoglicêmicos e tal. Foi o caso do Miguel. Tive colostro desde a primeira hora, mas ele não sugava. Antes de me avaliarem, de orientarem a ordenha ou algo do tipo, uma das enfermeiras veio afirmando que levaria meu filho para dar complemento porque o xixi dele estava grosso. Não autorizamos antes que o pediatra fosse consultado. Ele vetou e mandou fazerem teste para ver a glicemia dele. Estava tudo ok. Já era o segundo dia. Durante a noite, novamente vieram dizendo que deixasse o pediatra ou não, iriam dar complemento porque ele não podia ficar sem mamar. A glicemia estava normal. Então, perguntei se não era possível que a gente ordenhasse o meu leite e desse no copinho. A primeira enfermeira que tentou me ajudar disse que meu bebê não ia mamar mesmo porque o bico do meu seio era muito curto para ele. Massageou e nada do bebê sugar. Então, a enfermeira chefe veio e me ajudou com a ordenha. Saiu uma colher de leite, o suficiente para alimentá-lo. Dali em diante, tentava amamentar e, se não dava, ordenhava. Foi assim por uma semana. Já em casa, contei com a ajuda de uma profissional em aleitamento. Desde que vi que tinha leite, não duvidei que poderia alimentá-lo, se tivesse ouvido algumas pessoas da equipe de enfermagem, teria desistido.

No dia da alta, já em casa, senti uma dor muito forte que achei que era normal sentir. No dia seguinte, apareceu inchaço e hiperemia (aquele vermelhão). Iniciamos medicação para infecção. Ela retrocedeu três dias depois mas logo voltou com força total. A obstetra estava viajando. Fomos novamente para o plantão. As quase três horas que me separaram do Miguel foram angustiantes. Diagnóstico: infecção no campo cirúrgico, possivelmente, hospitalar. Daqui em diante considero que passei os dias mais difíceis da minha vida, misturada à alegria da maternidade.

“Eu não fui o médico que te operei, não ponho a mão aí”. “Mas o que que a gente faz, doutor?”. Medo, só lembro de sentir muito medo. Medo de morrer e não ver o Miguel crescer. A cara dele era terrível. “Volto pra casa assim?”. Mal podia me mantar de pé. Muita choradeira depois, um infecto e um cirurgião me consultaram. Nesse meio tempo, conseguimos falar com a médica, que chegaria naquela madrugada. Exames feitos, consultas feitas, deveria ser feita nova cirurgia para assepsia. Graças a Deus a infecção era subcutânea, não havia se espalhado mais para dentro. Poderia esperar o dia seguinte, mas deveria ficar internada e iniciar medicação.

“Doutor, estou amamentando”. “Isso não é o mais importante agora”. Oi? Meu filho tinha 7 dias; havia aprendido a mamar naquele dia. Com muita luta, o mantive com leite materno ordenhado por toda aquela primeira semana, sem desistir de ensiná-lo a mamar.

A internação foi uma nova novela. Queria manter o Miguel comigo. Queria ficar com meu bebê, amamentá-lo, não privar-nos disso. A infecção não tinha risco de contágio pra ele. Foi preciso apelar para a diretoria do Hospital. Ficamos na pediatria e ele como meu acompanhante. Era o mínimo a se esperar de um Hospital Amigo da Criança. Contudo, ninguém poderia ficar conosco no quarto para me ajudar com ele, porque meu plano não cobria apartamento.  E como iria cuidar dele, se não podia nem me levantar? Iria ser operada, como iria cuidar de um bebê? Naquela primeira noite, a enfermeira chefe autorizou que minha mãe me ajudasse, mas ela não poderia ocupar o outro leito, deveria dormir na poltrona e no dia seguinte ficar só durante o horário de visitas.

Minha médica voltou e apelou novamente à diretoria. Fez o comunicado de infecção hospitalar. Minha mãe foi autorizada a ficar. Por 8 dias, lutamos para que ela pudesse comer e dormir deitada! O plano não cobria, mas o outro leito ficava vazio. Ninguém poderia ser internado ali sem que estivesse na mesma situação que eu. Durante a noite, dobravam o colchão ao meio para ela não deitar e avisavam que ia subir um paciente. Mentira! Eu estava naquela situação por negligência do hospital com selinho do bem e minha ajudante, minha MÃE, era tratada como intrusa.

Nesses dias, o pediatra famosinho por ser humanizado e blá esqueceu por 3 dias de consultar meu filho. Ele estava lá todos os dias, recebendo crianças no mesmo corredor, mas esqueceu do Miguel. “Passo de tarde”. Esperávamos. “Passo amanhã cedo”. Esperávamos. O Miguel ficou ictérico, teve conjuntivite e parou de mamar de novo. O hospital não o via, porque ele não era o paciente. Ele apareceu no domingo. Esperávamos desde quinta.

“Esse bebê está desnutrido. Mãe, por que você não deu complemento pra ele?”. Voz brava, alta. Mal pude explicar que seguia as orientações dele sobre ordenha e leite materno, sobre amamentação e não dar complemento. Foi grosso comigo, foi grosso com a minha mãe. Colocou a culpa no hospital por não terem observado as coisas que aconteciam com o Miguel. Depois de tudo, pesou. Ele não estava desnutrido.

A icterícia minha mãe tratou colocando-o no sol. Jamais saberemos se ele precisou de banho de luz, porque fugia ao nosso conhecimento. A conjuntivite tratei com leite materno até ele prescrever remédio.

Superamos essa fase difícil, complicada, sofrida. Mas sempre recordo com uma dorzinha e um nó na garganta sobre esses fatos. Sim, considero uma violência institucionalizada. Uma violência velada, sutil, porque se manifestou pelo descaso, pelo desrespeito, pelo despreparo, e como no final deu tudo certo é como se me tirassem o direito de reclamar, de me sentir agredida, de me sentir desamparada.

Outras mulheres tiveram suas dores. Elas também querem e necessitam ser ouvidas. Por isso, compartilho o vídeo abaixo, para dar voz a essas mulheres.

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