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Sobre Meninas e Sapatos

Quanto mais feios, melhor. Juro. Eu sou a rainha do sapato esquisito. Tudo que não tenho coragem de usar como roupa (virei uma pessoa básica), eu enfio no sapato.

Bola da vez: um par de alpargatas rosa – aquele sapato de pano com sola de corda. [E tento me convencer que tive uma motivação meramente afetiva para dar gritinhos interiores histéricos na frente da vitrine e da palavra ‘promoção’ antes de entrar pra provar].

Arco-íris de Alpargatas do blog Tres Jolies

Agora eu não sei o que fazer com eles. São desconfortáveis e estranhos .. mas ninguém usa! [Síndrome do ‘meu é melhor’, sabe? Se todo mundo usa, eu não quero}.

Em geral eu me trapaceio nesse troço de inovar.. falta a coragem de dar início aos trabalhos que os estilistas/fashionistas/modistas esperam que alguém dê e aí espero meses até assimilar.. normalmente, assimilo o modelo mais esquisito quando ninguém tá mais aí pra paçoca. Mas às vezes acontece uns surtos modistas e não ligo muito pra essa tal assimilação.

Não lembro quando isso começou… acho que em 1994. Modinha era menininha ler Carícia, usar saia xadrez com pregas e uma botinha tipo coturno. Carícia na minha casa era proibida [assim como Atrevida e Capricho, mas Nova podia né.. então minhas referências de moda estavam um pouco distorcidas]. Meu pai é o mais mão fechada de todos os pais do universo. Alguém acha que ele cederia aos apelos da filha de 11 anos? Nunca. Sobrou pra coitada da minha mãe improvisar (como sempre).

O gosto dela sempre pendeu pra um lado mais frescura que o meu e ela tem uma queda por coisas ‘diferentes’ que às vezes pode pôr tudo a perder (tenho horror ao elogio ‘diferente’ para roupas e sapatos.. corre, Bino, é uma armadilha). Hoje eu entendo que não era falta de entender o que eu gostava: ela tinha muita referência no lance. Não à toa, tinha sido dona de uma confecção, trabalhado em loja. Mas,em geral, ela não costurava as coisas exatamente como as da revista, entende, então as dela deviam estar erradas (era assim que eu pensava e pronto).

E assim foi com minha saia de pregas. Era de flores, não era xadrez. Era diferente das de todo mundo. E minha bota não era a linda da marca tal, era a que ela podia arranjar. Genérica. Tinha que usar e fazer de conta que não tinha percebido a diferença diante das amiguinhas (pré-adolescenta é uma pré-pessoa complicada).

Bom, hoje acho que isso tudo foi mais legal do que se eu sempre tivesse vencido nos meus argumentos sobre roupas e calçados e bolsas. Vivia improvisando, então quando não errava (que acontecia em 90% dos casos)  usava coisas únicas. O bonito ficava por conta dos improvisos que davam certo. Foi assim com a mochila de couro que desgastei e lotei de botons pra fingir que eu gostava de coisas meio 70’s em plena década de 90 (já que meu pai insistia que a mochila roxa da Company-  ou da Colcci – era muito cara e não duraria nada). Foi assim com os saiões herdados da mãe, personalizados com cordões de crochê, que eu usava quando todo mundo partia pras roupas justas de menina-mulher, ou quando misturava outra saia de florzinhas com um tênis vermelho (que meu pai aceitou comprar porque estava barato). Só me arrependo por não ter aproveitado um All-Star de cano longo, cor cru, que ganhei do meu pai quando eu tinha uns 13.. hoje acho que ele devia ser o Ó, mas na época fiz questão de rejeitar…

Em resumo, as meninas torciam o nariz, os meninos achavam que eu era estilosa e eu me convencia de que não gostava de coisas da moda quando, na verdade, eu não tinha opção.

Bom, isso veio se estendendo: a queda pelo estranho, barato ou personalizado. E agora que eu fiz essa auto-terapia da moda, fico feliz de novo pelas minhas alpargatas rosa, que já penso em usar com uma calça sequinha, uma blusa branca (como se meu guarda-roupa tivesse muitas outras opções de cor, rs) e uma bolsa.. wait.. vou ter que improvisar a bolsa. Dessa vez, sem bottons.

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