Arquivo da tag: respeito

Modelo de quê?

Respeito é tudo. É bom, todo mundo gosta. Mas me pergunto se realmente algumas pessoas acreditam nele, se, de verdade, praticam, porque algumas situações de fato mostram que respeito é um sentimento e uma ação que parece andar bem em falta no mercado. Falando em mercado, o Brasil se orgulha de ter um código em prol do consumidor totalmente pautado no respeito. Alguém esqueceu de desenhar pra alguns comerciantes o que isso quer dizer.

Estou em Campo Mourão, uma cidade lindinha no centro-oeste do Paraná, carinhosamente apelidada de ‘lindo torrão’ no seu hino (que, aliás, eu sei de cor). Você reconhece um mourãoense facilmente em uma mesa de bar: é aquele que conta com orgulho que sua cidade sedia a maior cooperativa agroindustrial da América Latina e tem uns 5 parentes-amigos trabalhando lá na COAMO (hoje, os elogios dividem-se com a Tyson Foods, uma indústria de embalagens e a patenteadora das auto-claves. Que seja. Mas é uma cidade boa de se viver). Atualmente, está entre as 300 mais dinâmicas do mundo segundo algum órgão internacional que me esqueci – e é merecido.

Apesar do tamanho e da proximidade com Maringá, que serve de sede para McDonald´s e cinema bom, tem uma educação fundamental e média de ótima qualidade, uma linha na política de cultura que não muda com a alteração (?) de prefeitos e uma política na área de esportes, incluindo estrutura, de dar inveja a muita cidade-modelo. Aqui, criança e adolescente não tem formação cultural e esportiva se não quiser. Há diversas opções de cursos baratos e bons, um SESC ativo, Casa de Cultura com ótimas opções, Teatro Municipal excelente, sedia a CIA Verve, maravilhosa, tem escolinhas de base em várias modalidades, é modelo no Futsal, Atletismo e Basquetebol e tem até uma revista local tão bem editorada que tem muito a ensinar a várias publicações de cidades maiores, sem falar da única cidade que conheço que respeita o pedestre de verdade. Ou seja, um bom lugar para viver.

Carneiro simpatiquinho servindo carneiro no buraco

Como em todo lugar, há algumas coisas ininteligíveis, alguns problemas que não dão pra engolir e algumas pessoas que parecem viver em outro planeta. Com tudo o que o município oferece, o que é que o visitante vê quando entra na cidade e desemboca logo de cara na avenida principal?  Melhor, o que que ouve?  De pronto, se depara com uma avenidinha simpática, estacionamentos no canteiro central, árvores e flores, ruas largas e uma briga patética de lojas que se desenrola tendo como lema o total desrespeito ao ouvido alheio.

Protagonistas desse freak show urbano – as lojas de móveis – colocam imensas caixas de som nas calçadas, enfeitam as vitrines com bexigas coloridas, gravam um CD com cerca de 20 músicas ruins e contratam um locutor para atrair clientes na base do barulho e brincadeiras com transeuntes que dão vergonha alheia em qualquer pegadinha do malandro. Uma ao lado da outra seguem barulhando mais alto que a loja vizinha na briga por consumidores. O locutor e o palhaço do lado direito ditam as ofertas ao mesmo tempo em que o âncora das promoções vizinhas tenta alardear as suas num vai e vém diário e infernizante.  Coitados dos funcionários, lojistas vizinhos, consumidores e moradores das redondezas.

A noite, a rua que concentra todas as pizzarias do universo e alguns bares é palco dos pimp my riders nervosos, com seus sons potentes tocando as mesmas coisas e ao mesmo tempo, e de estudantes mal educados que continuam achando que diversão é quebrar garrafa na calçada, dar chute no portão alheio e gritar, gritar muito – os mesmos que se acham mal compreendidos e desrespeitados quando a mãe e o pai levantam cedo pra trabalhar e fazem barulho, atrapalhando o repouso pós-noitada.

Campo Mourão, particularmente, parece concentrar esses, infelizmente não tão raros, espécimes da fauna dos mal educados, todos na mesma região central.

Juro que não entendo. Não entendo o lojista que acha que está sendo super marketeiro, um gênio do comércio, um feirante moderno. Não entendo o consumidor que continua dando dinheiro a quem não respeita o ouvido alheio. Não entendo os moradores da cidade que reclamam, reclamam, reclamam e não se movem. Não entendo a omissão das autoridades em relação a essa verdadeira poluição sonora, crime ambiental, que pode e deve ser verificado inclusive de ofício. Me pergunto se nunca nenhum promotor, policial, juiz, pra dizer alguns que podem e devem fazer alguma coisa, passa pela principal avenida da cidade, se não sai a noite ou se são surdos. Não entendo porque as pessoas preferem engolir sapos caladas a se indisporem com quem as faz engolí-los. Não entendo a acomodação. Vai ver eu que to gastando energia à toa, vai ver a acomodação seja o caminho natural das coisas. Que a maturidade chegue logo e tome conta desse corpinho, então. Até lá vou me emputecer muito com esses babacas que não respeitam o próximo.

Apesar de tanta gente de boa vontade, tantas ações que ainda me fazem pensar que crescer aqui foi o melhor que poderia ter me acontecido, apesar de ter conhecido pessoas tão esclarecidas e competentes que fazem a diferença por aqui, não consigo entender a parte que há mais de 10 anos elege os mesmos vereadores que não representam ninguém além dos próprios interesses e, ainda por cima, tem a pachorra de aprovar o aumento no número de cadeiras na câmara (pessoalzinho indignado baixou em peso vestido de palhaço na sessão seguinte e ainda teve que ouvir que não eram ‘pessoas normais’ por parte do presidente da câmara, que chamou a polícia).

Você entende essas coisas? Suporta tanta incoerência e contradição? Então me ensina.

Que fique claro, minha família mora aqui; apesar de não ser mourãoense, fui criada aqui; minha formação educacional e esportiva é mourãoense e me orgulho dela. Saí há 10 anos, mas algo dentro de mim ainda teima em se preocupar com essa cidade que já me deu tanta alegria quanto decepção. Sinto pena pela imagem que um visitante leva – cidade de gente mal educada, brega, passiva – tanto quanto dos que aqui ficam e precisam suportar esse contínuo desrespeito (sob pena de ser chamado de anormal pela otoridade).

A cidade que se orgulha mais do seu prato típico do que do respeito que devota ao seu povo, está, junto com o famoso carneiro, indo pro buraco.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Opinião

Velhas Novas Resoluções de 2011 – Respeito à Vida

Início de 2011… lista de resoluções. Meio de 2011.. primeira oportunidade de fazer um balanço.

Voltei aos meus antigos arquivos e encontrei uma ideia que propus publicamente – adotar um bichinho. Eu já havia realizado isso algumas vezes durante a vida (coitada da minha mãe, que vivia com a casa cheia de gatos, cachorros, até tartaruga e um sapo), e resolvi fazer um post sobre adoção e posse responsável. Fiz, publiquei e  não me lembrei mais dele. Hoje, qual a surpresa? O resultado. Até onde sei, tal ideia foi posta em prática três vezes, por quatro pessoas diferentes.

Mia, Nina e Leo - nossos três resgatos.

Ontem fui carinhosamente cumprimentada como “mocinha dos gatos” por uma pessoa de quem gosto muito (embora não nos conheçamos fora do microblog). Amei e adotei a expressão! Então nada mais natural que meu post de hoje seja exatamente aquela (sempre atual) resolução: adote um amigo!

Acredito que cada um tem algo pelo qual se movimenta. Alguns são pelas crianças, outros pelos idosos, alguns militam pelo meio ambiente, outros por transparência na política e por aí vai. De fato, não acredito que exista uma causa melhor ou mais importante que a outra. Acredito que recortar o mundo em vários segmentos tem a única finalidade de organizar o trabalho. Repudio que seja só isso, só aquilo. Nossa vida é uma rede de relações e conexões com outras pessoas, com o ambiente, com a cultura.. somos multidimensionais. Por isso tenho tentado ligar o ‘foda-se’ quando vejo aquelas caras de paisagem e repúdio para a causa animal. Ela é a que me move e fico feliz que haja tanta gente movida por causas tão diferentes, porque somando todos esses recortes metodológicos do agir presume-se que nada ficará esquecido.

Segue a cópia do post!

— =^.^= —

Pois é. Ano vai e ano vem, ganha força a moda do politicamente correto, mas em geral a tolerância por maus tratos a animais continua, afinal, “animal não é gente” (nunca escutou isso quando você levou seu animal no veterinário? Ou quando telou seu apartamento?). Eu torço pelo dia em que isso mude. 

Já pensaram que além de plantar árvores, escrever um livro e ter um filho, seria muito interessante e viável (pra muitos) que mais pessoas colaborassem adotando um animal? Ou mais simples, deixando de ser cego a eles? 

Que tal em 2011 colocarmos entre nossas resoluções (ainda dá tempo, todo dia é tempo de tentar ser melhor), o respeito à vida – o qual independe da espécie?

É muito doloroso todo dia, todo dia, todo dia, ter conhecimento das barbáries (são barbáries sim, nem de longe alguém suportaria cada coisa que vemos nesses casos) e se deparar com um ordenamento omisso, com autoridades omissas e, pior, tentar ser convencido de que é perda de tempo e de energia agir para que esse quadro mude. 

Pequenos atos podem fazer a diferença e ninguém precisa correr para uma ONG de protetores e virar voluntário. Se tá difícil enxergar, vou listar algumas coisas:

1 – adotar ao invés de comprar e se comprar, buscar saber a procedência – pra quem não sabe, alguns canis/gatis/criadouros são verdadeiros infernos;

2 – se informar sobre como se preparar para receber um animal, aliás, se informar sobre o animal – tempo de vida, alimentação adequada, segurança (ele e sua), posse responsável etc – essa não é uma decisão que deve ser tomada por um impulso cute-cute;

3 – levar o animal ao veterinário regularmente, vacinar, cuidar, proteger – veterinário não é item de luxo ou um profissional habilitado em pedigree; 

4 – não importa se gosta ou não, não maltratar – incluo aqui agressões físicas, brincadeiras de mal gosto (como provocar o animal), mantê-lo preso em corrente, deixar de alimentar, deixar de prestar socorro ou buscar quem possa fazê-lo;

5 – Rever alguns hábitos – ir a circo com animais, touradas, usar peles, rever a alimentação… (ops, tema controverso né.. mas veja, proteção e vegetarianismo não estão numa relação implicacional – nem todo protetor é vegetariano e nem todo vegetariano é protetor, embora concorde que o vegetarianismo, por si só, colabore com uma proteção mais completa; logo, proteção implica uma boa escolha sobre como se alimentar: baby beef, novilho precoce, fois gras etc, muita coisa nada mais é do que capricho, luxo, excesso de opção – você pode não querer/poder viver sem carne, mas certamente não vai morrer se escolher melhor o seu prato).

Todo dia podemos adotar novos hábitos – dos pequenos aos maiores – que mudem o mundo pra melhor. Meu desejo é que neles possamos incluir o respeito: ao outro, a outra vida, ao planeta, a nós.

Deixe um comentário

Arquivado em Opinião