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O Puxa-Saco

Síndrome do puxa-saco ou puxasaquice (com double s?) aguda. Tem gente mais difícil de aturar do que quem sofre desse mal?

Não me refiro aos amigos/parentes gentis, que realmente acreditam no que estão dizendo, que sabem como uma palavra pode fazer bem para alguém, que gostam de você mas que também sabem a hora de fazer aquela crítica necessária. Definitivamente não me refiro a essas pessoas.

Também não me refiro a quem, por timidez, falta de noção ou de vontade, não consegue expressar um elogio. A maturidade pode mudar esse quadro. Falo por mim. Infelizmente tenho essa dificuldade.

Falo exatamente daqueles que guardam uma cartela de sorrisos oportunistas dentro da mala. É isso mesmo. Acordam cedo, colocam uma seleção deles na bolsa e vão para o trabalho, para a escola, para a rua, jantares, almoços e ficam ali, esperando qual usar e para quem mostrar segundo as conveniências.

Puxa-saco que se preza usa várias roupas: de amigo, de colega, de admirador. O que o caracteriza de verdade é a incapacidade de contrariar o objeto de sua falsa admiração (não por respeito, não por amizade, chuto que é porque tem medo da não-aceitação do seu objeto de desejo). Cada vez mais acredito que o puxa-saco é um tipo de invejoso, aparentemente menos ofensivo, mas que suga as energias do mesmo jeito. Sob aquele monte de elogios artificiais, escondem-se insegurança, medo de rejeição, vontade de ocupar um lugar que não lhe pertence.

Há outros modelos de puxa-saco. Tem o que sorri e elogia na entrada, bate no meio da conversa e beija na hora de ir embora, usando o mesmo sorriso de amigo admirador. Tem o que defende o ‘admirado’ pela frente (salvo quando a palmada vier dele mesmo) e critica pelas costas, sempre com aquela cara de paisagem apaixonada. Tem o que diz palavras amáveis pela manhã, fala bem do seu cabelo, da sua roupa, dos seus modos ao meio-dia e a noite, durante uma dificuldade, você não poderá contar com ele.

Nesse texto de Eliene Percília há a lista dos 10 mandamentos do puxa-saco do chefe. Como sei que nem todo mundo vai até lá pra ler, posto aqui:

1. Quando o chefe chegar seja o primeiro a dar bom-dia, com um grande sorriso nos lábios. 
2. Toda vez que seu chefe espirrar diga “saúde”, não importa a quantidade de espirro. 
3. Morra de rir das piadas que seu chefe conta, mesmo que seja a mais sem graça do mundo. 
4. Cole um adesivo no carro com a seguinte frase: “Eu Amo Meu Chefe”. 
5. Tente se parecer ao máximo com seu chefe. 
6. Nunca saia do escritório antes dele. 
7. Demonstre sempre muita eficiência. 
8. Quando te passar uma tarefa, faça-a o mais rápido possível. 
9. Se o chefe por acaso soltar um pum finja que não ouviu e nem sentiu nada. 
10. Seja sempre muito atencioso com seu chefe, demonstrando sempre muito carinho por sua pessoa.”

Já viu isso?

Puxa-saco também critica, do contrário, como deixaria vazar tanta energia ruim acumulada? Mas as críticas, bem, ele as guarda sob os risos.. se revelam justamente nas entrelinhas que tanto tenta esconder. É cansativo ficar ao lado de um. É muita incoerência para tentar entender, sabe.

Alguns escolhem tolerar, outros acreditam que estão exagerando ao pensar isso daquele amigo tão gentil, que é só sorrisos e amenidades; há quem os prefira longe e acaba por podar todo aquele que lhe dirige uma palavra doce; e tem quem morre de medo de ser confundido com um, então torna-se quase incapaz de elogiar.

Elogio e bajulação são muito diferentes. Gostamos de receber e de elogiar o que admiramos e devemos fazê-lo. Um dos grandes males do nosso tempo é que temos nos tornado insensíveis ao reconhecimento do outro (embora esperamos constantemente ser reconhecidos). Mas de bajulação, elogio vazio e oportunista (pra não dizer utilitarista, instrumental, interesseiro, vazio de verdade e cheio de segundas intenções) não precisamos. E digo, se alguém sente necessidade de ouvir gentilezas pela quantidade e não pela qualidade está com alguma coisa fora do lugar.

Xô, puxa-sacos. Já convivemos com futilidades demais. Não precisamos do seu veneno.

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