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Sobre partos e pratos: um papo com a minha vó

Ando relapsa com o blog. Essas últimas semanas tem sido intensas por aqui. Mas há tempos estou com alguns relatos da minha avó paterna na memória e um sentimento de que eles não devem ficar só comigo.

Desde a gravidez comecei a me interessar muito pelas experiências das mães da família: mãe, vó e sogra. Afinal, aprende-se muito e a gente se reconhece e forma nossa história junto.

Essa avó em questão é a Dona Tereza, que aos seus 83 anos me surpreende cada dia mais com sua força e lucidez.

Ensina tudo pra ele, bisa!

 

Conta minha avó, que veio do meio rural e viveu e criou seus filhos lá, quase sem instrução formal, que no seu tempo de mãe de primeira viagem, no interior de Minas Gerais, década de 50, os partos eram normais, feitos por parteiras. Até aí nenhuma novidade.

Ela contou que era costume a mulher se cercar do cuidado de outras mulheres nessa hora. Assim que nasciam, os bebês eram colocados para mamar. As mulheres da família ou da comunidade se revezavam cuidando de tudo para que a nova mãe pudesse repousar por 40 dias, durante os quais deveria se cuidar e cuidar do bebê.

Logo após o parto, davam óleo mineral aos bebês para ajudá-los a expelir o “cocô preto” que “grudava que nem graxa e dava dor de barriga neles”.  Ao menos os bebê na sua família não dormiam longe da mãe. Meu avô, inclusive, fazia um prolongamento na cama para que eles dormissem lá e pudessem mamar a noite de forma mais conveniente para ambos.

“Não tinha essa coisa de horário não, Melina. Acordou, mamava, chorou, mamava, ia dormir, mamava. A gente ia aprendendo quando tinha fome e aí dava o peito.”

O Miguel era bem novinho quando ela me contou isso. Estava refletindo sobre a Marcha pelo Parto Domiciliar que iria acontecer e sobre vários argumentos usados na luta pelo parto humanizado.

Cheguei a fazer um texto enorme com minhas considerações na época, mas não publiquei porque queria refletir mais.

Há pouco mais de uma semana minha avó esteve aqui novamente. Dessa vez, nos visitou em plena introdução da alimentação complementar. Estávamos levando um baile com as papinhas, ao passo que o alimento in natura vinha sendo bem aceito.

Durante esse tempo, vinha estudando as diretrizes de segurança do baby-led weaning (um método de introdução de alimentos que não usa papinhas nem colheres, os bebês comem comida em pedaços, com as mãos) e no dia da visita era o segundo dia em que aplicava. O Miguel não só comia como demonstrava interesse em explorar os alimentos. Mas eu estava frustrada, frustrada com comentários, com medo de fracassar, com medo do Miguel se tornar um “niño que no me come”, com medo de ser a causadora de futuros problemas por não insistir nas colheradas ou por me opor a substituir mamada por comida.

Sentei com minha avó e com a minha tia, conversamos, usei todos os argumentos científicos de que tinha conhecimento, esperei a crítica. E obtive um sorriso e outro relato.

Dona Tereza me contou que, no seu tempo, nunca deu comida na boca dos seus filhos. Contou que quando eles conseguiam ficar sentados sozinhos, o meu avô fazia um caixote de madeira (que depois ia sendo adaptado conforme cresciam os filhos) no qual os bebês eram colocados. Lá no cantinho deles, ela deixava o prato com a comida, amassadinha ou em pedaço, e eles comiam: sozinhos, com as mãos, brincando e, eventualmente, comendo.

“Lá eles ficavam, às vezes comiam, às vezes não. Tinha vez que um ficava com o prato na cabeça, outro dormia. Eles mamavam, então não tinha problema. Fia, no final, tudo aprenderam a comer”.

Pedi detalhes. Ela fazia assim porque lhe parecia natural, e assim aprendeu com sua mãe, que aprendeu com a dela… Divagamos sobre o começo do mundo, sobre como devia ser quando não tinha papinha e colher. Dedos? Sim, as mães deviam amassar e dar com os dedos. “Ou deixavam eles comendo sozinho do jeito que dava. É assim que aprende”.

O mais importante, me tranquilizou minha avó (o Dr. González e o manual da OMS sobre alimentação complementar) “é que você dá o leite do peito, isso que sustenta ele”.

E nessas duas visitas e algumas horas de conversa entre gerações eu  desconstruí uma porrada de preconceito, de comportamento que eu praticava no automático.

Parto humanizado, criação com apego, livre demanda, alimento COMPLEMENTAR… percebam.. há isso tudo que muitos chamam de moda/modismo em cada história que ela me contou, práticas em um mundo no interior do Brasil da década de 50, simples e sem acesso ao De Lamare (o manual da época) ou às instruções pormenorizadas dos pediatras.

Eu vejo o parto humanizado no relato dela, um parto em que o bem estar da mãe e da criança, em que trazer esse bebê de forma saudável e acolhedora eram o foco. Muito mais que a forma (porque sim, elas conheciam a cesárea e fariam se fosse necessário), o importante era garantir uma vinda saudável ao binômio mãe-bebê com os melhores recursos de que dispunham.

Eu aplico isso hoje. Mais que valorizar o meio como fim, mais que colocar o sonho como meta, receber os bebês de forma segura e acolhedora é o que entendo como humanizado. Então, nesse sentido, é muito válido questionar práticas feita no automático, ou partos programados por conveniência. Mas também devemos questionar partos normais feitos para garantir bonificações ou selos do bem, ou mesmo para realização única e exclusiva do sonho da mãe. Parto humanizado não é sinônimo de parto natural/normal/domiciliar/na água. Há que se cuidar para evitar essa comparação simplista.

No mesmo sentido, vejo cama compartilhada e criação com apego no que ela me contou – outras duas “modas”.

Minha cabeça ferveu ouvindo isso. Minha curiosidade científica me leva a pesquisar tudo que posso referente à criação, a me informar, a me munir de argumentos. Muitos medos caíram e várias mudanças aconteceram, mas nada, nada me marcou mais que observar que a ciência vem sempre depois – ao menos no que diz respeito à maternagem. O conselho mais simples e despretensioso da minha avó é a frase que mais martela na minha cabeça nos últimos 3 meses. “Fia, minha mãe já me dizia: o lugar da mãe é junto dos fios”. É neste lugar que eu quero estar.

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