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É legal, é meu direito, mas é moral?

Aguardamos muito por uma boa notícia essa semana. Um garoto incrível esperou por uma aprovação  no vestibular de medicina de uma faculdade pública conceituada. Foi seu primeiro vestibular. Ficou bem classificado, mas não será chamado no número de vagas em razão da reserva. O primeiro colocado pelas cotas está a quase 200 posições abaixo da sua.

Não dá para não ficar consternado e triste. Qualquer sentimento em relação a esse caso específico passará por conhecer sua trajetória pessoal. No que diz respeito aos sentimentos, pouco importa saber a origem do sistema ou seu escopo. Sentimentos não se classificam por certo ou errado, apenas são.
Posso culpar as cotas? Não. Quem foi chamado numa posição tão mais abaixo é culpado? Não. Novamente, essa disparidade tende a evidenciar como é a qualidade de formação nas diferentes classes. Portanto, a correção deve ser feita mais embaixo.

Percebam, eu afirmei que “tendem” a evidenciar, não que comprovam, porque na prática, fora dos discursos e das intenções, alguns beneficiados já desvirtuaram o sistema inclusivo das cotas. Especialmente nos vestibulares mais concorridos, muitos examinandos que sempre estudaram em boas escolas e tiveram boas oportunidades, se valem do direito garantido por lei em função da raça para disputar sua vaga pelas cotas; do mesmo modo, há aqueles que mudam de escola no último tempo, quando os critérios são esses, e paralelamente, bancam estudos particulares para garantir a qualidade da formação. Aí eu pergunto: não estão passando por cima dos próprios semelhantes? Que justiça estão fazendo?

Novamente, não é culpa das cotas, nem da lei. O direito está aí para todos. Mas o que concluo é que individualmente deveria haver o questionamento: eu posso isso em virtude da lei, é meu direito, mas é moral, eu preciso?
E o questionamento vai além. 
Não queremos um Estado paternalista, queremos um Estado que dê oportunidades, mas quando vejo que posso me beneficiar do ‘paternalismo’ por direito, devo me perguntar: posso, mas preciso?

Posso fazer tudo pelo SUS e também tenho condições de pagar. Em muitos casos, preciso mesmo usar meu direito, sob o risco de deixar sem aquele que não pode pagar?

Tenho condições de me servir da fila comum embora tenha direito à vaga preferencial, portanto, haverá prejuízo não usufruir?

Sabe, pensando nas injustiças que são causadas pelo mau uso dos direitos, concluo que não são mais leis de inclusão ou de restrição que devem existir. O brasileiro tem fome de lei, de papel, de burocracia, de conflito. É de mais moral, de mais bom uso do que se tem de que precisamos.

Admiro quem alcançou seus objetivos a despeito das oportunidades ruins ou da falta delas. Para essas pessoas que não foram beneficiadas pelo sistema é que as políticas de inclusão são feitas. Mas não admiro quem, beneficiado por ele e podendo fazer diferente, senta sobre o “é meu direito, é legal” e fecha os olhos para seu semelhante. Sabe o resultado disso? Não apenas pessoas que foram melhores serão prejudicadas, mas também e sobretudo aqueles que deveriam efetivamente se beneficiar disso, no caso das seleções.

Esse é  efeito de uma igualdade meramente formal aliada a uma cultura individualista.

Olha, não sou grande estudiosa do sistema de cotas. Corro o risco de ter escrito muita merda. Esse é mais um desabafo a partir de uma reflexão.

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