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O nascimento da Alice – nosso relato de parto

37 semanas. Arte e foto: Marília Mercer

37 semanas. Arte e foto: Marília Mercer

“Não há força da natureza comparável à da maternidade“. Assim o Ulisses descreveu a primeira foto minha e da Alice após o parto que ele acompanhou, doulou, defendeu e participou.
A Alice nasceu. Foi no dia 19 de abril de 2014, sábado de Aleluia e dia do Índio. Ela veio ao mundo após 39 semanas e 4 dias de gestação, 44h45min de bolsa-rota e cerca de 4 horas de trabalho de parto ativo. Sim, ela nasceu de parto vaginal, de cócoras, no Hospital Evangélico de Londrina, acompanhado pelo pai, doulado pela Marília e pela Lorena e assistido pela médica obstetra Aline . A pediatra neonatologista que estava presente foi a plantonista Ana Paula.
Antes de mais nada, quero pontuar que decidi publicar sobre o nascimento da Alice por duas razões:
– parir minha filha foi a experiência mais intensa e feliz dos últimos anos… uma alegria que desejo compartilhar com o mundo porque, além de tudo, teve um efeito curativo sobre duas feridas anteriores, conforme compreenderão pelo relato. Parir assistida pela mesma médica foi como uma redenção pelo não-parto do Miguel, algo que só tive clareza após elaborar os dois nascimentos. Essa certeza de completude e liberdade sobre o corpo é algo que desejo a todas as mulheres, quase sempre crentes de que não são capazes e de que receber os filhos é perigoso e sofrido. Maldito sistema. Maldita cultura que nos castra e cala. Parir foi redentor. Desejo-nos respeito aos partos que sonhamos a cada uma.
– não foi um trabalho de parto comum (nenhum é, eu sei.. somos únicos neste mundo) e espero que relatar traga segurança a outras mulheres que se encontrarem em situações semelhantes, para que se sintam seguras, para que possam se valer e se apropriar dessa experiência como argumento, como exemplo, como “case” a conversar ou comparar com os profissionais que a estejam assistindo.. enfim… do mesmo modo que me vali da experiência partilhada em tantos relatos, mas especialmente nos que cito aqui, para buscar inspiração, força e argumentos em busca do meu próprio. Conforme leram na introdução, foi demorado e sabemos que muitas mulheres teriam sido conduzidas a um não-parto sob várias justificativas erradas ou questionáveis com base nos mesmos eventos, a começar pela bolsa-rota.
Com esse sentimento de gratidão e desejando ajudar, de alguma forma, a mudar a forma de nascer, segue o relato do nosso parto.
Do começo:
O Miguel nasceu por cesariana, em 26 de março de 2012. Foi uma gestação de altos e baixos, com descolamento de placenta, repouso, diabetes, bebê córmico (atravessado) que encaixou pélvico, dilatação desde 34 semanas e mais repouso. Meu contato com o mundo da maternagem se restringiu a alguns manuais e confiança acentuada na autoridade dos profissionais de saúde. Li muita coisa sobre parto normal… passei da certeza de que uma cesárea era o melhor pra uma mulher a desejar o parto normal ainda no começo, muito incentivada pela naturalidade com que uma amiga – que nunca soube o quanto me influenciava – a Liliam, falava sobre o parto normal. Foi por uma fala dela, também, que perdi o medo de amamentar. Enfim. Veio o desejo, mas não confiava muito que fosse tão natural e fisiológico nascer pela vagina. Foi assim que, apesar de saber que era possível um parto pélvico, que havia a versão externa, optei pela cesárea na véspera da 38a semana. No dia que a gestação chegou a termo, o Miguel foi nascido. Não curti em nenhum momento. Chorei a escolha antes, durante e depois. Esperei que ele virasse milagrosamente até o último minuto. Mas sim, hoje sei que elegi a cirurgia e me resignei com ela. Entrei no centro cirúrgico com medo, sentia pavor da situação em que estava, pedi carinho à anestesista, queria a mão do meu marido, senti angústia quando fiquei sozinha após o nascimento, senti saudades do meu filho, não consegui amamentar imediatamente. Apesar de tudo muito respeitoso – e foi – vivenciei por dois anos o luto pelo parto não tido. A Melina que havia concebido e gestado no dia da cirurgia não era a mesma. Não me arrependo das escolhas que fizemos baseados nas informações e experiências que tínhamos, mas certamente esperaria entrar em trabalho de parto – algo que aconteceu apenas por coincidência. Lembrem-se, eu fui ao hospital para um nascimento eletivo. Pra ajudar, vivenciamos várias das estatísticas relativas aos riscos da cesárea: infecção hospitalar e dificuldade de amamentação.
Fiquei imersa na maternidade do Miguel e cresci com ele, passando de uma mãe via acessórios e manuais a uma mãe que tenta usar os próprios recursos e estabelecer uma conexão com o filho diariamente.
Ao mesmo tempo, comecei uma busca pessoal para compreender nossa experiência. O parto da Alice se iniciou antes de sua concepção, portanto.
Após dois anos da notícia da gravidez do Miguel, veio a confirmação da gravidez da Alice.
Veio a euforia e em seguida o medo. Tinha muito medo de viver outra cesárea. Não podia suportar o sentimento de incapacidade que invadia. A gestação foi tranquila e saudável. Amamentei o Miguel até por volta do 7º mês. Em vários momentos, a gravidez seguiu no automático, já que um filho quase criança demanda muita energia. Em outros, precisei parar e cuidar de nós duas.
O parto acontecia nos meus desejos, nas minhas leituras mas o medo de não acontecer beirava o medo de falhar e, bem, bloqueei imaginar como seria. Apesar de saber que não podemos negar a existência – e os casos de necessidade – da cirurgia, eu não suportava imaginá-la. Então, acreditava que o processo natural era o que ocorreria e tentava não criar expectativas de como seria – não fantasiava o parto, não imaginava como seria, como queria, que luz, que cor, que cheiro, que sons.. imaginar o parto,  como parte da preparação, demandaria também imaginar outras formas e eu não estava aberta a elas.
Durante a gestação, nos informamos, conversei muito com o Ulisses, fomos nos afinando e crescendo juntos, sempre trabalhávamos todas as questões com a médica. Ela se mostrou aberta ao parto vaginal após cesárea – VBAC –  desde antes da gravidez e me incentivou a ele, tratando-o, inclusive, como a melhor indicação médica após uma cesárea.
Ela conduziu todo o pré-natal da melhor forma que poderíamos imaginar passar, mas ainda faltava uma presença que me deixaria segura – a de uma doula.
Além de médica e futuras-doulas, minhas amigas Marcela, Bruna (uma das pessoas que mais me inspiraram desde que o Miguel nascer a buscar formas afetuosas de parir e criar) e Anamaria aguentavam minhas divagações e medos e me sustentavam em diversos momentos  (elas são as amigas Mamadonas, um dia eu explico – ou não).
Perto do último trimestre, senti que estava me preparando para um parto e não para um filho, e acho que parte da gravidez foi isso mesmo que aconteceu. Então a Alice começou a se fazer presente. Com 30 semanas ficou cefálica e senti contrações e dores que me assustaram; a partir daí foi uma sequência de pródromos infinitos. Foram 9 semanas de contrações de treinamento, algumas intensas e ritmadas, início de dilatação, medo de parto prematuro, correria para terminar de ajeitar o ninho, preparar o irmão para as novidades, culminando com perda de tampão eterno (mais de uma semana perdendo muco), oligodramnia leve (diminuição do líquido amniótico), pico de pressão alta, Whatsapp apitando dia e noite e um trabalho de parto e parto empoderadores.
Nesse finzinho corrido, comecei a me sentir mais mãe da Alice, a sentir a separação com o Miguel, a ansiedade pelo parto e, finalmente, Ulisses e eu entramos em consenso em relação às doulas.
Dois nós que faltavam se desfizeram: com 37 semanas, as doulas entraram definitivamente na nossa vida (apesar de a Marília já vir me ouvindo há muito tempo) e eu tive uma conversa franca sobre o parto da Alice com minha mãe.
Selfie da ocitocina! Equipe de Doulas em Londrina: Rosana, Lua, Marília e Lorena

Selfie da ocitocina! Equipe de Doulas em Londrina: Rosana, Lua, Marília e Lorena

Com 38 semanas fui presenteada pela Andrea, super mãe, educadora e artista, com um Gestando, uma vivência ímpar em que pude me conectar por meio de movimentos, toques e sons com minha filha. Foi nosso primeiro encontro a sós. A voz da Dea me instigando a dançar e a me conectar com a terra ecoou por todo o meu trabalho de parto (TP) e sempre serei grata a ela por esse presente. Sentia-me quase pronta. Finalmente, Alice podia vir!
Na terça-feira em que entrei na 39ª semana o dia foi tenso. Nas últimas semanas de gravidez o Miguel estava mais agressivo e não estávamos conectados. A noite, tive consulta e ainda na sala de espera tive um pico de pressão alta. Naquele dia, pensei que sairia do consultório com uma guia de internamento. Já vínhamos monitorando a Alice de perto em função da diminuição do líquido, mesmo sabendo que isso é normal no fim da gestação. Achei que essa junção de fatores nos levaria ao centro cirúrgico. Mas não. Definitivamente, a Aline nos respeitava. A Alice e eu estávamos bem e não havia razões para interromper a gravidez a essa altura.
Por precaução, fui orientada a monitorar a pressão por um dia e fazer um exame específico de urina que me levaria a fazer xixi num potão por 24 horas. Deveria me consultar novamente na quinta. Saí do consultório pensando que bom seria se isso tudo indicasse que a Alice havia resolvido chegar e torci para que antes de terminar os exames ela viesse. No dia seguinte fui ao laboratório, iniciei os exames. Confissão tardia: neste dia à noite, resolvi pesquisar sobre bolsa-rota, indicações reais e riscos para indução de parto por hormônios, métodos naturais de indução  nos sites da ACOG, Febrasgo e em artigos científicos pela internet, além de ler relatos de parto. Fiquei algumas horas estudando e fui dormir no início da madrugada me sentindo satisfeita. Santa intuição!
O primeiro dia:
Na madrugada de quinta-feira, dia 17 de abril, acordei para fazer xixi. Fiquei brava, estava morrendo de preguiça de ir até a geladeira e mijar no litrão, mas já estava bem apurada e sentia que ia fazer na roupa. Sentei na beira da cama e me senti molhada. Xinguei muito mentalmente. Era uó da depressão gestacional ter incontinência urinária. Então me ocorreu que poderia ser a bolsa. Olhei no relógio e eram 5h11m. Fiquei semi-eufórica e fui pro banheiro direto. Calcinha molhada, mas sem aquele aguaceiro de novela. Cheirei. Sem cheiro e sem cor. Decidi sabotar o exame, xixizar no vaso e voltar a deitar. Lembrei do relato da minha prima Mariana, que havia parido há algumas semanas: melhor descansar, caso fosse a hora.
Cerca de meia hora depois vieram as primeiras contrações leves… quase ritmadas… espaçaaaadas mas não me deixavam dormir. Ainda tinha dúvidas então decidi não avisar ninguém até que me sentisse mais segura – ou aflita. Na hora do vamos ver, sempre me sinto exagerada.
Lá pelas 7h achei melhor avisar o Ulisses no quarto ao lado com o Miguel, mas ele fez sinal para eu esperar na porta porque o Miguel estava acordando. Não falei nada.
Com uma contração a cada 10 ou 20 minutos, decidi ligar para a médica para confirmar se poderia ser perda de líquido. Resposta positiva! Trabalho de parto espontâneo, viva! Ela estava a caminho do hospital e pediu para que eu fosse até lá para me examinar e fazermos um cardiotoco e começar o trabalho de parto sabendo como tudo estava. Eu não gostei de ter que ir ao hospital logo de cara. Queria ficar em casa até perto dos finalmentes. Já não era como queria e isso me incomodou. Liguei para a Marília e a avisei. Então, fui avisar o Ulisses: “Li, então, to em trabalho de parto”. Nem terminei de falar e ele já tinha pulado da cama e estava no outro quarto começando a se arrumar para irmos ao hospital. Deixou a parturiente com o filho recém-acordado na cama e saiu apressado. Fiz o Miguel dormir, a Cida, empregada em nossa casa, chegou mais cedo, por coincidência, e fomos nos arrumar, já que o Miguel teria com quem ficar.
Já na recepção do hospital, a matrix. Fomos apenas para uma consulta de avaliação e determinados a não ficar por lá se tudo estivesse ok – e era para estar. Ainda na recepção queriam que o Ulisses ficasse assinando papelada e que eu subisse sozinha. Ele se negou a me deixar ir sozinha e eu não quis esperar sentada nem ser conduzida de cadeira de rodas. Inacreditável o quanto pedir para ficar em pé e andar – algo que me fazia muito bem – pôde contrariar tanto o pessoal do hospital. Vieram os primeiros comentários sobre protocolos e sobre o tremendo risco a que expunha a Alice por ficar em pé.
Exame de toque – 1,5 dedo de dilatação. Cardiotoco excelente. Aline nos liberou – voltar pra casa, dia normal, dali a 12 horas voltar para novo monitoramento caso não progredisse.
Ficamos lá na sala esperando tirarem os sensores e nada. Ulisses os tirou. Ficamos esperando a boa vontade da equipe de enfermagem para nos acompanhar e liberar as papeladas. Nada. Então, o Ulisses foi até a sala onde eu estava, me chamou para sair. No elevador, me pediu para tirar o crachá de paciente. Sim, estávamos “fugindo” do hospital pela primeira vez. Assim, voltamos para casa para esperar as contrações. No caminho, passamos na padaria para abastecer a casa de … quindins … e no CLAC, onde avisei a Dea ;).
Eu me sentia eufórica, muito feliz. Avisei as amigas Mamadonas, as amigas do Maternagem UEL (mamães amigas desde a faculdade, Priscila, Liliam e Lorena), avisei a família, já que era véspera de feriado prolongado e alguns poderiam viajar e precisavam se organizar.
O dia transcorreu sem maiores acontecimentos. As contrações era tão tranquilas que ainda não daria para pedir um remédio para dor caso fossem menstruais. Elas não ritmavam nem aumentavam de intensidade. Levei o dia normal. Comi (muito), brinquei com o Miguel – que ficou muuuuuito apegado e sensível nesse dia – usei a bola de pilates, tomei um trilhão de banhos quentes. A tarde, decidimos passear… quem sabe uma caminhada não ajudaria? Fomos ao shopping em família levar o Miguel para tomar smoothie e andar de escada rolante. Lá, teria espaço e banheiro à vontade. Aproveitei, comi um lanche apimentado. As contrações esboçaram um ritmo. Já passava das 17h, horário combinado de voltar ao hospital. Decidimos ligar para a médica quando chegássemos em casa e ir apenas se ela julgasse necessário após conversarmos. O líquido saia gotejando, era claro, a Alice se movimentava muito e eu me sentia muito bem. Não tinha razão para alarde e, embora eu soubesse que bolsa-rota não era indicação de nada por si só o tic tac do tempo correndo me deixava aflita. O Ulisses segurou a minha ansiedade (aliás, ele fez isso todo o tempo, preciso confessar). Eu não queria voltar ao hospital por “protocolo” mas tinha um senso de “dever” exagerado àquela altura.
Lá por 20h a Aline nos ligou para saber como eu estava – passamos o relatório e combinamos de permanecer em casa e avisá-la de tempos em tempos sobre o andamento. Nesse tempo, as doulas nos sugeriram tentar acupuntura para induzir as contrações. Às 21h minha cunhada, a Uiara, que esteve presente e ativa durante todo o nosso dia, me levou a me encontrar com a Lorena, uma das doulas, que foi quem conduziu a sessão. Uia, muito obrigada por toda presença e apoio, sempre.
Fizemos acupuntura e o ambiente e a presença da Lorena me reconfortaram muito. Lembro das cores, da calma e da acerola direto do pé. Lembro muito que as agulhas que ativariam o fígado bloquearam e que ela explicou sobre a necessária dose de agressividade para se ter um parto. Essa informação me martelou o resto do TP e foi valiosa no dia seguinte. Saí de lá motivada e voltei para esperar o TP.
Cheguei em casa, fiz o Miguel dormir, fiz uns exercícios na bola, um escalda-pés (de pijama, com toalha na cabeça, em cima da bola e com direito a uma foto ridícula) e fui tentar descansar. Estava acordada e embalada desde às 5h, após uma noite em que já havia ido dormir no início da madrugada. E ainda teria muito pela frente. Não consegui. Por volta das 2h levantei e fui para a bola de novo. A essa altura, já estava angustiada com a possibilidade de uma indução (ou de uma cesariana). Não sabia como sustentar mais de 24h de bolsa-rota em casa, se tivesse que o fazer. Comecei a me valer dos relatos inspiradores da Amanda, no site do Maternati, que havia tipo um TP com 31h de bolsa rota, e também da Lorena, 27h. Com 22h de bolsa-rota, às 3h, a Aline ligou em casa. Pediu para me ver às 5h.
Dessa vez voltei ao hospital muito desanimada (de shorts, meia de lã listrada colorida e sandália – moda-parto). Liguei para a Marília e a avisei. Eu já sabia que não era indicação de cesárea em função de bolsa-rota, mas sabia que após 24h há um aumento do risco de infecção e que alguma intervenção poderia ser sugerida em função disso. No caminho, o Ulisses foi me mantendo segura de que só ficaríamos se fosse necessário, justificado pelos exames. Não ficaríamos lá apenas por protocolo e a Alice viria no tempo dela. Ele estava muito seguro e fez toda a diferença em todo o TP.
Saí de casa com contrações a cada 20 min. Chegando no hospital, os mesmos protocolos logo na entrada – sentar, marido ficar na recepção para preencher papelada, parturiente subir sozinha de cadeira de rodas – e as mesmas negativas da nossa parte. Dessa vez, as “ameaças” de risco de morte ao feto em função de estar de pé e andando foram mais grosseiras e foi preciso esperar ligarem para a maternidade para avisarem que eu havia dispensado a cadeira de rodas antes de subir. Não, ninguém estava de fato preocupado com nosso bem-estar ou com a vitalidade da Alice. Eram apenas regras internas, aplicadas indistintamente e sem reflexão – como bem frisou a recepcionista, eles  poderiam levar bronca da enfermagem diante da minha recusa.
Subimos. Cardiotoco ok. Toque – 1,5cm ainda. A Aline nos explicou sobre o risco aumentado de infecção a partir de então, mas ressaltou que não havia justificativas para internação. Se fosse da nossa vontade, eu poderia voltar e esperar o TP progredir em casa. Contudo, ela queria repetir os exames dali a 12h caso o TP não “engrenasse”. Dessa vez, foi falada sobre a possibilidade de uma indução com ocitocina (condução, no caso) se tudo estivesse igual ao fim do dia. Com 48h de bolsa rota, a indicação médica dela seria intervir necessariamente, por indução. Esse seria seu limite.
O segundo dia:
No caminho de volta senti que deveria fazer minha primeira escolha em benefício da Alice. Senti no meu coração que, estando com o Miguel ao lado, tão sensível como estávamos, eu não conseguiria me focar. Senti que isso havia, de certa forma, bloqueado as contrações no primeiro dia. Senti que não fui inteira da Alice nem uma vez durante a gravidez, nem mesmo na iminência da sua chegada. Senti que ela precisava que meu chamado fosse mais forte, mais presente, mais seu. Senti, senti, senti e com um aperto pedi ao Ulisses que levasse o Miguel para a avó quando ele acordasse porque eu gostaria de estar em TP apenas nós três – eu, Alice e o pai.
Assim que “fiz a escolha” (não sei se é esse o termo, mas foi assim que me pareceu naquele momento), senti uma forte segurança, um alívio por ter tomado, finalmente, uma decisão ativa. Era como se eu tivesse finalmente compreendido que o TP era meu e que só eu poderia agir para que ele progredisse.. não teria doula, rotina, marido, médica, relógio, nada que pudesse sentir o que era necessário para ele deslanchar e fazer o que fosse preciso. Focar e ficar sozinha para me concentrar era apenas o primeiro passo, eu sabia. Mas havia começado.
O Ulisses recebeu muito bem meu pedido e foi além – sensível ao Miguel, propôs que ele permanecesse em casa, com seu dia rodeado das pessoas que ama e das atividades que gosta (Ulisses, eu te amo muito mais por não ter deixado de pensar um minuto no bem-estar do Miguel, além de tudo o que preparou para meu bem-estar e o da Alice, além de receber meus parentes e cuidar deles). Portanto, quem sairia seríamos nós. Fomos do hospital direto a um hotel.
Chegamos em boa hora, no café da manhã. Subimos, nos instalamos, descemos e comemos.
De volta ao quarto, achei que seria bom tentar dormir um pouco e fizemos uma soneca. As contrações, quando vinham, ainda eram espaçadas.
Acordamos e eu queria caminhar. Estava intencionada a parar de descansar e começar a me mover mais. Tomei banho quente, tomei outro café da manhã e fomos a uma farmácia. Era feriado de sexta-feira santa e a rua estava deserta. Quis ir a pé, mas o Ulisses preferiu ir de carro e me levar para caminhar no parque. Da farmácia, fomos ao Aterro do Lago Igapó e fiz uma caminhada leve (sempre com o aplicativo de contar contrações na mão). Nessa hora, já do meio pro fim da manhã e ainda com contrações moderadas a cada 20 minutos ou mais, a ansiedade começou a voltar e comecei a ter vontade de ver uma das doulas. Até então o contato se fazia por telefone ou Whatsapp. Mas sabia que não era hora ainda e não pedi que me visitassem no hotel.
Voltamos e comecei a ter vontade de fazer coisas esquisitas, tipo dançar. Mas eu ficava relativamente inibida com o Ulisses junto. Tomei mais banho quente, usei a bola de pilates, atualizei as coisas para as doulas e para as amigas Mamadonas, e era quase almoço. O Ulisses voltou para casa para ver o Miguel, fazê-lo dormir e recepcionar minha mãe e meu irmão. Eu teria pelo menos uma hora para ficar sozinha, portanto. No fim, o Ulisses voltou quase quatro horas depois com meu irmão, que voltaria embora e queria me ver, e com meu almoço pedido.
Esse tempo sozinha foi o tempo mais intenso do meu TP e eu não sabia o que era travar uma luta interna até então. Assim que ele saiu e levou consigo minha inibição, comecei a fazer tu-do o que meu corpo pedia. Mas antes, foi preciso compreender uma frase da minha prima, a Mariana: “o parto começa entre as orelhas“. Na minha cabeça e no meu coração, havia muito o que ser trabalhado. E então comecei. Comecei buscando uma música, dançar levemente, me envolver com o ritmo.
Essas horas não são lineares.. oscilei entre muita tranquilidade a muita ansiedade, entre estar muito segura do desfecho de tudo e temer não conseguir.
Ouvi Eddie Vedder, Guaranteed, até dizer chega. Ouvi Palavra Cantada, Meu Neném, para sussurrar pela Alice. Ouvi Eddie Vedder e Roger Waters, Comfortably Numb, para chorar. Ouvi Pearl Jam, Black, para embalar minhas dores pessoais. Ouvi Blind Guardian, The Bard’s Song, para dar ritmo ao TP. Ouvi Enya e muita música celta, para liberar meu corpo do pudor e de toda amarra  e foram as celtas que desbloquearam o feminino, o lado sexual do TP que estava trancado, que trouxeram a dose de agressividade necessária. Ao som delas, chamei Alice, falei com ela, briguei com ela, pedi perdão, visualizei sua saída, a puxei com minhas mãos… com as mulheres celtas, busquei a terra, como a Andrea, mãe de uma Alice, havia me ensinado, e nasceu a mãe desta Alice.
Dancei, rebolei, fechei os olhos, bati os pés no chão, pulei na cama, ajoelhei e orei, briguei com e clamei a Deus. Tão perto e tão longe!
Eu não sei expressar o turbilhão de sentimentos que vivi. Há alguns dias li um relato de parto feito por um pai, o parto da Tarsila. Tarsila fez nascer os irmãos mais velhos. Eu consegui compreender um pouco disso. Eu precisava elaborar o meu nascimento e com a Alice renasceria também o seu irmão – me dei conta de que tinha dois partos pela frente. Aí foi ficando cada vez mais perto.
Ainda havia escadas à minha disposição. Estava no 7º andar. Desci até abaixo do térreo. Andei na rua. Voltei e subi as rampas e escadas da recepção. Voltei de elevador até o 5º andar e subi um pouco mais de escadas. Quando parei, as pernas tremiam mas não sentia cansaço. Pulei na cama, literalmente. A camareira veio ver se eu precisava de algo, se estava tudo bem, logo após o barulho do colchão pulando. Ela deve ter se assustado quando uma grávida abriu uma fresta da porta, sozinha, tudo escuro, música estranha ao fundo..
Essas horas foram de verdadeiro arranjo interior e talvez seja por isso que sejam as horas de que mais me recordo absorvida em sentimentos e não de forma racional.
Vez ou outra eu falava pelo Whats com a Lorena e a Marília, que estavam acompanhando tudo e em prontidão. Seria a Marília quem me acompanharia. As duas me mandavam força, compartilhavam experiências (espelhada na Lorena, troquei o descanso pelo movimento) e dicas. Desliguei do relógio, segui todas.
As contrações começaram a se firmar a cada 20 min, a cada 15 min. Eu comemorava cada uma, amava aquela dor, queria outra, chamava cada uma delas. Só tinha ouvidos para a música e para o meu corpo. Torcia para o Ulisses demorar um pouco mais. Não queria parar e, de fato, só parei depois que Alice nasceu. Me envolvi num movimento que não poderei reproduzir nunca mais. Era circular e batia os pés no chão. Não havia cansaço, não havia pausa.
Umas três da tarde o Ulisses veio com meu irmão. Tive medo de o TP parar quando os recebesse, mas aproveitei para descansar. Já tinha perdido a vergonha de me soltar e mesmo com meu irmão lá continuei usando a bola de pilates, me movendo e ouvindo as músicas que queria. Nada parou, nada bloqueou. Sim, meu TP havia engrenado e não poderia parar mais. Como eu estava feliz!!! Era outra Melina que estava ali. Eu me sentia diferente. Sentia que havia feito algo pela minha filha e que ela sentia isso, ela finalmente se sentia recebida e viria.
Conversamos, rimos, comi e pus até meu irmão, o Mário, para cronometrar as contrações. Ele ficou pouco mas foi muito legal. Minha mãe estava em casa com o Miguel. Assim que ele se foi, decidi recomeçar. A essa altura só esperávamos diminuir o intervalo das contrações para avisar a médica. O Ulisses ajudou ativamente.
Perto das 17h, as contrações começaram a ser mais intensas e em intervalos menores. Ligamos para a Marília e para a médica. Aproveitei para soltar um “aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai” bem longo e audível, que era para ela não ter dúvidas de que o TP havia começado!
Eu me sentia tão segura no hotel, escondida, protegida, que quis que Alice nascesse lá, aconchegada. Quis muito mesmo. Pena ter confiado no processo fisiológico do parto tão tarde. Pena ter vencido esse preconceito só ali. Pensei: se eu engravidasse novamente, teria uma DR séria com o mundo para um parto domiciliar.
A caminho do hospital, meu único medo era de as contrações espaçarem novamente em função do ambiente, mas o Ulisses me incentivava muito e o medo foi passando.  O trajeto foi empolgado, mas como doía cada saculejada no carro.
Chegamos no hospital determinados a sair de lá apenas com nossa filha parida nos braços, o que significava que, salvo real indicação de intervenção, ela nasceria de parto vaginal natural.
No hospital:
Fim da tarde de sexta. Mais de 36h de bolsa-rota.
Vencemos os velhos protocolos na entrada. Exame de toque: 2 cm de dilatação, colo fino feito papel e Alice alta. Contrações a cada 7 ou 10 minutos, longas e intensas. Nessa hora, eu pediria um remédio para aliviar cólicas mentruais. A Aline me liberou para fazer o que quisesse: movimentar e comer e tomar líquidos.. meu corpo determinria os limites.
Aproveitei e acompanhei o Ulisses no processo de internação. Queríamos curtir tudo juntos (e assim foi até o final).
Fechei os olhos para os olhares curiosos e me deixava sentir as contrações em público sem medo. Vinham fortes mas bem suportáveis e durante elas eu me agachava. Tinha necessidade de estar em pé nos intervalos. Ficar sentada ou deitada não era muito confortável. No decorrer das horas, estar deitada era muito ruim. Se vinha uma contração, a dor beirava o insuportável. Eu já previa isso do meu comportamento em relação à dor em geral, por isso insistia em ficar de pé/agachada.
Ao final da burocracia, a Marília chegou com sua energia, suas mãos habilidosas e seus apetrechos doulindos! Como fiquei feliz quando a vi. Má, nessa hora parecia um conto de fadas, só que de parto. Eba, vou ter um parto que nem sonhei!
Já no quarto e com a Má, o Ulisses pôde ir para casa cuidar do Miguel e fazê-lo dormir. Jantamos, conversams, rimos. Novo cardiotoco, Alice tão ativa que tirou os sensores do lugar, ou seja, estava ótima. A cada meia hora vinha uma técnica ouvir os batimentos e ela se manteve sempre bem – desacelerava um pouco durante as contrações e acelerava em seguida.
Começamos alguns exercícios para ajudar a Alice a descer. As contrações seguiam numa intensidade suportável. Sim, eu ficava felizona com a dor – era minha menina chegando.
Não sei que hora era quando a Aline veio. Estava com uns 5 dedos de dilatação. Achei que me examinaria e iria embora, mas ela puxou o banquinho e assumiu a ausculta intermitente e lá ficou. Éramos três mulheres esperando pela Alice. Foi muito legal.
As conversas mudaram… rolou o maior papo “evidências x prática” entre a doula e a médica, além de maternagem, amamentação prolongada, desmame e relatos de parto de todas. Eu ficava à vontade. Recebia massagem, fazia exercícios com a Marília, comia um chocolate, um cookie, continuava tomando muita água e curtindo.
Acho que passava das 22h quando o Ulisses chegou com Lanchebom para nós. Eu já estava com saudades dele. Ele entrou empolgado,cheio de energia, exibindo os pacotes com o lanche que meu sogro fez com tanto carinho para a gente. Chegou colocando música, conversando, trazendo alegria e força. As contrações já estavam incômodas mas consegui comer.
Um tempo depois, a vontade de conversar diminuiu e eu queria ficar sozinha. Não sei com quanto estava de dilatação. Acho que foi quando entrei em TP ativo. A Marília me sugeriu um banho e aceitei. No meio dele, quis ficar a sós com o Ulisses e em silêncio. Não sei quanto tempo fiquei lá, mas as dores haviam aumentado (ou os intervalos diminuído). A água quente e corrente ajudava, mas eu precisava me agachar e vocalizar também.
É. Dói. Mas não é uma dor de sofrimento. Ela tem começo, meio e fim e dá para saber quando ela vai chegar e se concentrar/entregar. Entre cada contração eu não sentia nada, então descansava, relaxava… não temia a próxima (não durante o trabalho ativo). Acho que isso ajudou.
De lá, me pus de quatro na cama e não mudei de posição, salvo para toque. Passei por uma contração deitada e quase nauseei de dor. De quatro, eu podia movimentar a pelve quando meu corpo pedia e as contrações ficavam suportáveis. A Marília me deu a bola para apoiar o corpo e foi muito bom. Não sei quanto tempo fiquei ali. Não viajei. Ouvia e reconhecia tudo ao meu redor, mas não tinha vontade de interagir. Queria descansar entre uma e outra e quando a próxima chegava, focava em relaxar os ombros e vocalizar. Santas orientações da doula! Tenho a impressão de que cochilei uma ou algumas vezes nos intervalos. Uma certamente, porque sonhei com um quadro dos Ursinhos Carinhosos na recepção do hospital.
Nesse período, lembro de ouvir a Marília e a Aline cronometrando as contrações e comentando sobre o progressos do TP. Mas não prestava atenção. Vez ou outra via o Ulisses sentado. Já não tinha música no quarto, eu havia pedido para desligar não sei quando. O quarto tinha som de cochichos e de espera e era azul, minha cor favorita. Ninguém do hospital entrava. Absoluta intimidade e um silêncio gostoso.
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Durante o TP ativo.

Nada de dor nos intervalos, mas uma dor bem forte durante as contrações. O “aaaaaaa” já ficava mais longo e forte. Eu sabia que elas começariam alguns segundos antes, que elas não chegariam de uma vez e que teriam começo, meio e fim.. pareceriam que não acabariam mas seriam apenas alguns segundos para quem estava de fora. Lembrava disso toda hora para não desesperar no meio delas. “Vai passar”.
Entre uma e outra, quando comecei a cansar, aproveitei para tentar expressar o limiar da dor em palavras e dizia algo do tipo “agora pode ser que eu peça para tirarem a dor, mas eu não quero”; “pode ser que eu diga que não quero mais, mas eu quero” (não era bem isso, mas era próximo – ou era o que eu planejava dizer). Achava que deveria, caso eu pirasse (pelo menos todos saberiam que era só desespero durante a onda de dor e que passaria em segundos). E assim foi por um tempo que eu não soube medir. A mim pareceu coisa de uma hora ou um pouco mais. Quem sabe?
Escutei e vi de relance a Marília e a Aline conversando sobre os intervalos. “Um minuto”. Ou seriam dois? A Aline veio fazer toque, comigo ali, de quatro mesmo. Nessa hora, olhei pra baixo e vi um pouco de sangue. Não cheguei a me assustar, se fosse algo sério alguém já teria notado e feito algo. Mas fiquei confusa. As duas me acalmaram.“Melina, dilatou”. Eu achei que tivesse chegado a 7 dedos naquele momento. “7?”. “Não, total. 10. Vamos pra sala de parto”.
Eu não pude acreditar. Num instante as energias se renovaram.Eu estava preparada para mais algumas horas ali e já havia chegado à dilatação total, Para mim estava muito rápido!
Do jeito que estávamos, saímos andando mesmo em direção à sala de parto. (Durante o pré-natal, eu havia pedido para parir no quarto, mas acabamos entrando em consenso sobre ir para a sala. Além da cesárea, recente, tinha a cirurgia posterior relativa à infecção hospitalar. Na época, achei que iria ao centro cirúrgico, foi só no parto que soube que não, que era na sala de parto mesmo, similar ao próprio quarto, mas ela ficava a alguns metros do centro. Eu me senti segura com a decisão e não fiz questão do quarto. Hoje tenho clareza de que a Aline sugeriu o local em que ela se sentia mais segura também, não a julgo por isso, mas hoje eu insistiria, porque a intimidade dos quartos me ajudou muito no TP e imagino que também teria colaborado para um expulsivo mais relaxado).
No caminho, quis fazer xixi (eu ia no banheiro o tempo todo, nunca segurei nada, ainda mais com o tanto de água que bebi. Amigas que pretendem ter parto vaginal  – bebam água e vão ao banheiro. Ajuda demais). A Aline me interrogava se era xixi ou cocô, rs. Ainda era força de xixi. Os puxos não tinham começado.
Na entrada da sala de parto, havia uma técnica que barrou o Ulisses e a Marília para que eles se trocassem. A gente estava meio acelerado, rs, entrando sem avisar. Lá dentro, nada arrumado (estava internada desde o ínício da noite, o hospital sabia que havia uma parturiente lá. Ainda assim, a enfermeira cobrou a Aline por não ter avisado que estávamos indo para lá). Há poucos dias havia chegado a cama PPP, uma cama para parto que promete ajudar até em partos espaciais, mas que precisa ser preparada, ligada, sei lá o que mais. Eu nem sabia que a usaria, mas enfim, não havia nada preparado. Enquanto a médica se trocava e o Ulisses e a Marília chegavam, fiquei agachada na frente da cama, que era imensa e alta. Uma enfermeia apareceu e ficou ao meu lado, me acompanhando e acho que estava morta de medo de que eu parisse ali. Colocou uns panos embaixo. Nem precisaria. Se fosse para a Alice nascer no improviso, eu ainda estava de shorts ;).
Alguém foi procurar um banquinho para eu subir na cama. Quando chegaram com ele, eu já estava sobre ela. Aproveitei um intervalo de contração e escalei. Não sei como. Não importa. Lá em cima, fiquei de quatro. Eu não conseguia deitar e não queria. Chegaram Marília e Ulisses e mais algumas pessoas, eu não reconhecia ninguém porque estava sem óculos, rs.
Quem começou a preparar a cama e o local foram os três: médica, marido e doula. As enfermeiras pareciam só olhar. Mas eu devo estar com a memória viciada. O que eu tenho certeza é que a cama, pelo menos, quem aprendeu a montar e desmontar foram meu esposo e a minha doula. Eles que arrumaram tudo pra mim, trocaram até mesmo o bastão de lugar para eu ficar de cócoras e me apoiar.
Em algum momento chegou a pediatra plantonista – a Ana Paula. A pediatra que nos acompanharia estava doente no dia. Ela entrou reclamando de sono e manteve uma cara de poucos amigos durante todo o processo, além de ter falado coisas nada respeitosas relativas ao meu parto para a enfermeira que estava ao lado dela e para minha doula. O Ulisses tratou logo de se apresentar e avisar sobre nossas preferências e sobre o quanto a amamentação imediata era importante para nós. Ela foi pouco receptiva mas respondeu que eram todos protocolos do hospital mesmo e confiamos que ela os respeitaria. Mas não foi bem assim. Tem gente que não sabe mesmo respeitar a decisão dos outros, o momento dos outros. Me questiono porque escolheram determinadas profissões. As coisas só não foram 100% perfeitas e sem memórias ruins por causa dela.
Nesse tempo, eu sentia contrações muito doloridas. Só “aaaaaaaaaaaaa” não dava mais conta. Eu comecei a falar “AAAAAAAAAAAAAAAAA”. Em algum momento a Aline fez toque e doeu pra caramba. Minha tolerância para dor estava focada única e exclusivamente em expulsar e qualquer interferência extra era horrorosa. Não sei se foi nessa hora ou depois que ela manteve o exame durante uma contração e eu gritei para parar. O Ulisses me conhece muito bem, sabe que eu não faria isso se fosse suportável. Interveio e pediu para ela parar também. Ela parou.
A Alice estava quase coroando. Nessa hora ela comentou sobre um rebordo no colo do útero – era por isso que havia sangue no quarto.
Os puxos vinham – uma vontade louca e incontrolável de fazer força, empurrar… Num instante me pus de cócoras. Segurava numa barra e o Ulisses me apoiava nas costas e era nosso defensor. A Marília estava ao meu lado, incentivando enquanto a Aline assistia o parto e também me incentivava. A vontade de fazer força vinha mas eu sentia uma resistência contrária no períneo, era como se houvessse uma barreira. Eu fazia a força, mal conseguia respirar. O “AAA” já tinha virado grito mesmo e era outra coisa que fluía sem freios ou sem intenção.
Elas me avisavam que viam a Alice.
Em algum momento a Aline pediu autorização para romper as membranas ou algo do tipo. Eu só queria saber se doeria mais do que o que eu sentia, pela primeira vez tinha medo de dor – não da dor do parto, mas do plus. Olhei para a Marília e ela disse que não, que ajudaria. Foi feito. Não senti nada mesmo.
A vontade de fazer força era quase contínua, com intervalos ridículos, sem descanso mas davam tempo para decisões, para entender o que se passava e respirar.
Mais força e a Aline começou a sugerir como respirar e empurrar. Por uma ou duas vezes eu acho que tentei, depois busquei a Marília por olhar e me desliguei. Se foi como ela sugeriu foi coincidência. Era humanamente impossível atender a qualquer orientação diferente do que meu corpo fazia quase que de forma instintiva.
A Aline avisou que o períneo estava bem edemaciado e pediu autorização para passar um anestésico local, que poderia me ajudar a não temer a dor e relaxar. Autorizei, achei que ficaria mais relaxada sem a sensação de que minha vagina estava se rompendo. Feito. Outro puxo e nada.
Avisaram que dava para ver os cabelos da Alice. Eu só queria que ela saísse! Fazia a força mais forte que podia e parecia que nada. Então a Aline pediu para fazer uma mini episio. Não autorizei. Outra contração e nada. Ela pediu de novo, seria algo pequeno porque estava tudo já muito tensionado. Olhei para a Marília. Lembro muito de ter buscado seu olhar e sua aprovação várias vezes. Eu sabia que ela não aprovava mas ela notou que eu estava no meu limite. Pensei: se vai lacerar mesmo e tem algo que pode ser indiferente ou ajudar, que se faça. Autorizei. A anestesia local doeu. Era tudo muito rápido. Segundos mesmo. Por alguns segundos senti que tinha boicotado meu parto natural e falhado. Quis pedir desculpas à Má e às Mamadonas (era quase que um parto coletivo). Mas lembrei: minha história, meu parto, sem certo ou errado quando é livre. Naquele momento, naquelas circunstâncias, eu senti que devia fazer aquilo e fiz. Segundos… passou… elaborei isso.
Outra contração. Muita força. “Saiu a cabeça!”. “Os ombros”. E então ela deslizou e chorou. A Alice nasceu e como num passe de mágica a dor acabou.
Ela nasceu ali, na minha frente, à 1h46 do dia 19 de abril de 2014, de parto vaginal, de cócoras, com o apoio, presença,amor,  torcida e ação do seu pai, com o amparo de uma doula amiga e de muitas amigas e parentes, assistida por uma médica amiga. 
A primeira coisa que vi nela foram seus olhos abertos e ativos. “Ela é linda! Ela é grande” (e ela não era grande rs). Foi o que pensei. Meu coração se invadiu de amor instantaneamente.
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“Descoberta e encantamento”, disse o Ulisses. ❤  Já no quarto, logo apó o parto.

Em seguida, vimos que a Aline estava clampeando o cordão pulsando. Pedi para parar, ela estava desconectada da gente e seguiu. O Ulisses também pediu e, não lembro bem como, mas soube por ele e pela Marília, ele se interpôs entre a médica e a bebê e impediu que ela cortasse antes de parar de pulsar. Mais tarde entendemos que ela estava ansiosa em função da pediatra, que queria pegar a bebê logo.
E então a quis comigo como nunca desejei nada nos meus braços antes. A pediatra também a quis. Brigamos por ela. Eu e Ulisses. Mesmo contra a vontade da pediatra, a Aline nos entregou a Alice e ela veio para o meu colo, que era o seu lugar, e mamou e ali ficou por um tempo delicioso. Pude sentir seu cheiro, sua pele, falar com ela e até cantar. Mas ela não curtiu minha voz e chorou. Depois, foi ao colo do pai, que também era seu lugar. Só depois ela foi para o colo da pediatra, que não gostou de ser preterida. Ela teve apgar 10/10, nasceu ótima e saudável, pesando 2,980kg e medindo 47cm. Não havia indicação de sair direto para as manobras de rotina, feitas indistintamente. Ela foi aspirada, não aplicaram credê e as demais manobras não se realizaram naquela hora (o hospital nos fez entender o quanto os seus protocolos, mesmo aqueles contrários ao direito do bebê e da mãe de estarem juntos imediatamente, são mais importantes, o que nos fez pedir alta antecipada, coisa para outro relato).
Ainda ficamos até perto das 3h ou 4h para suturas. Tive laceração no colo do útero e no períneo, em dois lugares, apesar da episio (que teve meio centímetro e acabou direcionando o sentido da laceração).
Assim que Alice nasceu, minha tolerância para dor foi embora. Chorei feito criança em cada agulhada de anestesia. Era uma dor medonha. Eu só queria minha filha e dormir. Quase não podia falar de cansaço. O Ulisses me sustentou nessa hora e me deu um beijo curativo e me olhou nos olhos. Nunca vou esquecer. Te amo!
Da sala de parto, a Alice foi direto ao quarto, sobre meu peito, mamando, deitada no meu colo, com vernix e coberta por cueiros mesmo. Do meu colo só saiu muito tempo depois, com o pai, para ser pesada e etc. Depois voltou, mamou e dormiu ao meu lado, algo que repetimos há mais de 30 dias e que não tem prazo para acabar. Foi maravilhoso dormir com ela, olhar seus olhinhos curiosos, ensiná-la a mamar, assim, tão de cara. Foi redentor e curou as feridas por não ter conseguido amamentar o Miguel no início.

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Primeira mamada após irmos para o quarto. “Não há força da natureza comparável à da maternidade” – palavras do Ulisses para descrever por essa foto o que ele sentiu.

Assim nasceu Alice, assim nasceu uma nova mãe e uma nova mulher, assim nasceu um novo pai, assim cresceu nossa família.
Sou grata a muitas mulheres que me apoiaram, empoderaram e incentivaram, cada uma de uma forma específica mas todas com muito carinho e confiança. Na figura das amigas Mamadonas e da Andrea, das doulas e da Aline, minha gratidão.
Sou grata e ainda mais apaixonada pelo Ulisses… seu amor e seu apoio foram e são inexplicáveis. Nossa família é linda e completa. Não teria sido possível se não estivéssemos juntos, porque o que mais precisava era ter sua mão e seu olhar ao meu alcance em todo o tempo.
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Assim que chegamos em casa – primeiro contato dos irmãos fora do hospital. Não é pra morrer de amor?

O parto trouxe minha filha, mas também me ensinou qual o Segredo, como diz a Andrea. Sim, nos sentimos poderosas, fortes, ternas, capazes quando vencemos nossos medos e uma noção incutida desde criança de que somos incapazes e imperfeitas. O segredo do feminino está em gerar, parir e nutrir.
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Selfie mamíferas, no dia da alta a pedido. Temo ter perdido a foto original.

Estou feliz com meu corpo, feliz com meus ciclos, é sobre esse renascimento pessoal a que me refiro.
Gerar, parir e nutrir é participar da criação. É natural. É divino. É o que desejo a todas que o desejarem e puderem.
 ❤ ❤ ❤
P.S.1: vou indicar três sites para quem deseja estudar sobre gestação, parto humanizado e maternidade com apego. A partir deles, outros poderão ser puxados, além dos que já linkei ao longo do relato. Se tiver condições, participe também de um grupo sobre esses temas. No Paraná há os grupos Gesta em várias cidades.
 P.S.2: Por razões pessoais optei por não indicar o nome completo dos profissionais que nos assistiram, em especial dos que nunca fizeram parte do nosso parto, daqueles para os quais parto bom é parto feito, guiado pela conveniência, pela autoridade médica e pela passividade feminina. É necessária perfeita afinação da equipe, todos movidos pelo mesmo querer, pelo mesmo poder e pelo mesmo respeito ao nascimento para que um parto humanizado seja possível e possa receber esse título. Dizeres bonitos como “Hospital Amigo da Criança” são como placas de igreja e não garantem a salvação. Não se iludam, mas não desistam. É preciso mudar a forma de nascer para mudar o mundo, como disse Michel Odent. Estou à disposição para informar o nome completo dos profissionais que nos assistiram privativamente, a quem desejar. Meu e-mail é melinacaldani2@gmail.com.

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Caso Torres-RS: luto por todas as mulheres

Eu tentei não ler a respeito do caso de Adelir – a parturiente de Torres-RS que foi submetida compulsoriamente a uma cesariana por ordem judicial, levada ao hospital sob escolta policial em meio ao trabalho de parto, sob alegações médicas de risco iminente de morte materna e fetal, acatadas judicialmente em um contexto e com base em provas que desconheço (salvo pelos relatos de notícias, cuja fidelidade e fontes não me atrevo a julgar) – considerando o envolvimento emocional que ocorreria, inevitavelmente, a essa altura da gravidez.

Estou à espera da Alice, literalmente, aguardando seu tempo, sua vinda, confiando na nossa natureza, no comprometimento de toda uma equipe escolhida à dedo, tamanho o medo de sermos violentadas no nosso mais elementar direito de parir/nascer – o que não é exagero, considerando que 1/4 das parturientes brasileiras relatam ter sofrido violência obstétrica, uma violação aos seus direitos humanos, à sua autonomia, uma agressão institucionalizada, relativizada, amenizada porque se veste de branco e atende por títulos de dr. em portas de consultório e hospitais. Violência. Ponto.

Enfim… nesse contexto tentei me poupar. Mas não deu. Não dá. Cada mulher gestante ou futura gestante nesse país foi violentada junto com a Adelir. Todos os nossos corpos femininos foram mutilados com essa decisão. A nossa autonomia foi roubada. Nossa liberdade foi subtraída. Todas fomos ignoradas em nosso direito de escolha.

Se os medos da médica eram fundados, não me importa. Se a juíza teve tempo e maturidade para decidir sem ouvir a parte contrária, não me importa. O resultado é o mesmo: todas nós, mulheres, fomos violentadas pelo Estado, representado neste caso, ironicamente, por mulheres.

O e-mail que colo abaixo foi em resposta a uma amiga que me mandou a notícia. Só consigo sintetizar o que sinto dessa forma.

“to tão perplexa com tudo isso que nem consigo comentar direito. eu li ontem a noite e ainda hoje fico martelando.

já fiz todas as viagens teóricas e emocionais possíveis, buscando alguma justificativa para que o Estado tenha se apoderado do corpo dessa mulher e lhe roubado a autonomia e liberdade de forma tão arbitrária.
não acho nenhuma. arbitrariedade, somente. sexismo puro, tratar a mulher como porta-bebês. tratar o nascituro como sujeito de direitos quando convém.
só lamento pela violência que essa família sofreu, irreparável.
se uma mulher resolve, por qualquer razão, fazer uma cesariana sem indicação, fato que, comprovadamente, a põe em maiores riscos de morte e morbidade, bem como a seu filho, ninguém, ninguém cogita obrigá-la judicialmente a aguardar ou passar por um trabalho de parto/parto vaginal, afinal, seu corpo, sua vontade, apesar de todos os pesares. e ela está no seu direito! para vivenciar o contrário, meu Deus, que luta… é muita maluquice para essa altura da gravidez, entende.
continuo à espera da alice 🙂 terça completamos 38 semanas e ela estará a termo, finalmente 🙂
vem alice, no seu tempo, mesmo que a gente tenha que brigar ;)”
Mudo, agora, o final, após refletir um pouco mais.
Vem, Alice, que uma porção de mulheres e homens que não aceita tamanho desrespeito já está brigando por você e pelo seu irmão, para que cresçam num mundo igual.
Que a seu tempo, sendo a maternidade biológica da sua vontade, todo esse absurdo seja aquele tipo de história que envergonhou e ensinou e não mais a maciça realidade.
P.S.: para ler e refletir ==> http://vilamamifera.com/orelhasdevidro/cesarianas-episiotomias-clitoridectomias/

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Vem, Alice! 34 semanas.

Ela está chegando.

Não, eu não estou sendo apenas levada pelo calendário, já que são 34 semanas e um dia (ou 2, há controvérsias, rs). Meu corpo sente, ela avisa, o irmão avisa, os gatos avisam.

Tem sido uma gestação saudável e tranquila, embora a Alice seja bem agitada. Pudera. Eu não paro. Tem o filho mais velho no auge dos seus quase dois anos, curioso e explorador, que demanda cuidado e atenção integral. Desmamou há menos de um mês, após um longo processo gradual, “semi-natural”. Tenho tomado café. Parei. Hoje. A tarde. Mas nada de alarmes, sustos, riscos ou glamour.

Listas imensas de enxoval com itens salvadores da maternidade não existiram. O essencial – roupas confortáveis, lugar para dormir (ou colo, como diz a GO), itens de higiene – já foi garantido. Algumas coisas faltam chegar. Outras estão à espera do pincel e da tinta, e do tempo, mas não são prioridade.

Foi uma gravidez de prioridades. Temos buscado nos informar, discutimos com a equipe médica/técnica as preferências para o parto, considerando o bem-estar dela e uma experiência familiar o mais plena possível no contexto das nossas crenças.

Dizem que o segundo filho vem meio largado. Eu não diria largado, mas gestá-lo é mais tranquilo e automático, no sentido de que muitas inseguranças e fragilidades podem ter sido trabalhadas após a primeira gestação. A quem se permitiu se renovar, se despir, renascer com o nascimento do primeiro filho, uma outra história pode ser vivida, mais intensa talvez.

O parto da Alice começou em julho de 2011, quando soube da gestação do Miguel. Tem sido uma busca lenta e nem sempre agradável. Mas a experiência de autoconhecimento que esse processo proporcionou é indescritível.

E ela está chegando.

Ela dá sinais.

Ela fala.

Nesse momento, começo a ansiar por vê-la, pegá-la, sentí-la, por ajudá-la ativamente a vir para o mundo, aninhá-la, cheirá-la, amamentá-la, agarrar a cria que nem bicho. Me sinto preparada para ela, finalmente.

Vem do fundo do meu coração um “vem Alice, vem que estou pronta!”. Quase chamo as contrações. Mentalizo sua chegada. Ao mesmo tempo, me resigno e peço: “espere um pouco mais. Fique mais fortinha. Mais um mês, vamos negociar?”.

Quero cada vez mais me aninhar e olhar pra dentro, tentando compreender os sinais que minha menina me manda.

——-

Ah, essa maternidade sempre tão misteriosa, tortuosa, indecifrável. Que diferença do relato da primeira gestação!

Sei também que seus primeiros meses já serão de outra forma. Não me arrependo das escolhas daquela época, embora não repita muita delas. Foram importantes no processo que me trouxe até aqui e também tiveram a marca sublime do amor. Valorizo tudo o que esteve envolvido na chegada do Miguel, até mesmo o estoque de mamadeiras que jamais foram usadas.

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Estou aqui, filha, inteira, à tua espera, fazendo o melhor que posso para que possa também renascer contigo, para que seu tempo e seu ritmo sejam respeitados. Desejo que consigamos.

Vem Alice! No seu tempo.

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Violência Obstétrica: A Voz das Brasileiras

Dia 25 de novembro foi dia internacional de enfrentamento à violência contra a mulher. Ouvimos falar de agressões físicas, verbais, emocionais, mas pouco nos atentamos a uma forma de violência mais sutil, porém devastadora e permanente, a violência obstétrica. Ela é cruel porque é legitimada, porque parte de uma estrutura aceita por todo mundo, porque tem o conhecimento e o poder a seu favor.

O termo não se refere ao autor da conduta, mas ao momento da vida da mulher em que ela acontece: pré-natal, parto e puerpério. Ela atinge mulheres, seus filhos, sua família. Ela deixa marcas, físicas e/ou emocionais. É triste demais, porque se confunde com o momento sublime do nascimento, então é como se fosse proibido sentir-se violentada nesse momento.

Ela ocorre quando a mulher sofre, de fato, agressões verbais e físicas. Além disso, e de forma menos explícita, ocorre quando uma mulher tem seu parto roubado, quando sofre intervenções desnecessárias, padronizadas, que não levam sua individualidade em consideração; ela acontece com humilhações, com gracejos, com desrespeito à sua dor; ela ocorre quando impõem que a mãe fique sozinha, quando a afastam desnecessariamente do seu filho, quando lhe incutem medo e culpa; ocorre quando não há equipe adequada para atendimento, quando ignoram os sentimentos que já existem da mãe pelo seu filho ainda no ventre; quando tratam um aborto como rotina; quando se omitem informações, quando se manipulam informações, quando as informações são usadas para coagir. A violência obstétrica usa roupa branca, é cliente do SUS, dos planos e particular; ela se esconde nos corredores, habita nas macas, nas rotinas, no discurso.

Tive um parto respeitoso; fui acompanhada por uma médica de confiança, presente e muito franca. Tive uma cesárea bem indicada. Mas apenas depois de conhecer a violência obstétrica na teoria pude dar nome pra alguns sentimentos que carrego sobre alguns momentos da minha gestação e puerpério.

Já falei sem falar do meu parto. Nunca quis detalhar alguns assuntos. Hoje somo minha voz à voz de outras mulheres que relatam sua experiência como um alerta, como um pedido para que sejam ouvidas.

Com 8 semanas de gestação tive meu primeiro sangramento. Fui ao plantão do pronto socorro do Hospital Evangélico de Londrina. Esse Hospital tem selo de Amigo da Criança e divulga ser humanizado. Em tese, especialmente ali, deveria haver um plantonista obstetra. Não tinha. O médico da noite foi muito atencioso e solícito. Tive o melhor atendimento que a situação permitia. Diagnóstico: descolamento de placenta/ ameaça de aborto. Orientação: repouso absoluto por 30 dias e uso de hormônios. Vamos lá então.

Na última semana do tratamento tive novo sangramento. O pânico foi ainda maior. Corremos para o hospital novamente. Dessa vez foi terrível. Já tendo uma ideia sobre o que era e do risco de abortamento, estávamos muito nervosos. Ainda na recepção, ao ser questionada sobre o que estava sentindo, disse que estava com um sangramento, uma possível ameaça de aborto, em tal semana de gestação. Escuto a primeira pérola: então você veio fazer curetagem?

Na hora foi impossível conter o choro. Claro que não! Eu vim justamente para evitar isso. Calei. Abraçava meu marido. Devo ter sido mal interpretada. Era a recepcionista, esquece. Entrei para a consulta.  Não havia obstetra de plantão novamente, o médico só sabia falar que ele não poderia atender, que o hospital deveria ter obstetra mas não tinha, que não era especialidade dele. “Mas então, doutor, o que que a gente faz? Onde tem obstetra de plantão?”. “Em nenhum hospital”. Nesse meio tempo tentávamos falar com a minha médica, mas não podíamos esperar. Precisávamos saber como estava nosso filho!

“Então o que o senhor quer que a gente faça? Que a gente vá embora? Então ninguém vai me atender?”. Ele conseguiu falar com alguém e enfim me atendeu. Grosso. Bravo. Fim de plantão. Fui fazer ultrassom. A médica responsável, com toda delicadeza, me pergunta: vamos ver se o embrião tá vivo?

Cadê a sensibilidade desse povo? A empatia? O saber perguntar? Uma mãe chora na sua frente com medo de ter perdido o filho. Você trata o filho dela como um amontoado de células que tanto fez tanto faz continuar ali? Você foca primeiro na morte e depois na vida? “Olha, é bem comum abortamentos espontâneos na primeira gestação, no primeiro trimestre, tá”.

Lembrei que uma das primeiras pessoas que soube da minha gravidez me deu os parabéns com uma frase parecida, para eu não me assustar, caso acontecesse. Digo para você, por duas vezes senti um medo terrível, medonho, vivo, permanente de perder meu filho. Em nada me confortou saber desse fato.

Depois de tudo, bebê bem, novo repouso absoluto por mais 30 dias, mais hormônios, as coisas se acalmando, o médico parece que fez uma auto-crítica e pegou mais leve, foi empático e fim.

O restante da gestação correu bem, apesar de algumas intercorrências. Tive diabetes gestacional, o bebê ficou pélvico, fiz dieta hiper restritiva passada pela nutricionista que colaborou para uma parada de ganho de peso do bebê na reta final, quando era para ele engordar. Passei quatro semanas com dilatação, perda do tampão, observação e acompanhamento. Bebê virou pra córmico, voltou para pélvico. Era véspera das 38 semanas.Vamos de cesárea. Na madrugada do parto senti cólicas leves (às 5h30 eu deveria estar no hospital mesmo). Cheguei com quase 4 dedos de dilatação. O Miguel nasceu quando devia nascer.

Como já escrevi por aqui, sempre tive muito medo da cesárea porque é uma cirurgia. Apesar de ser a cirurgia mais justificada desse mundo, porque traz uma criança ao mundo, meu medo persistiu inclusive durante o procedimento. Estava tensa e nervosa, tive a atenção carinhosa da equipe, especialmente da anestesista, que me fez carinho e segurou minha mão enquanto o Ulisses não entrou. Nesse sentido, tudo correu de modo muito respeitoso, gentil, lindo.

Minha única coisa mal resolvida sobre os dias de maternidade foi o porquê de não terem me trazido o Miguel para mamar na primeira hora. Tivemos muita dificuldade com a amamentação, jamais vou saber se isso teve influência ou não. Ele não sugava.

Já havíamos sido avisados sobra a prática do HEL de dar complemento sem consultar as mães ou à revelia do pediatra, apesar do selo. Também já sabíamos que os bebês podem ficar sem mamar nos primeiros dias sem problema, desde que não fiquem hipoglicêmicos e tal. Foi o caso do Miguel. Tive colostro desde a primeira hora, mas ele não sugava. Antes de me avaliarem, de orientarem a ordenha ou algo do tipo, uma das enfermeiras veio afirmando que levaria meu filho para dar complemento porque o xixi dele estava grosso. Não autorizamos antes que o pediatra fosse consultado. Ele vetou e mandou fazerem teste para ver a glicemia dele. Estava tudo ok. Já era o segundo dia. Durante a noite, novamente vieram dizendo que deixasse o pediatra ou não, iriam dar complemento porque ele não podia ficar sem mamar. A glicemia estava normal. Então, perguntei se não era possível que a gente ordenhasse o meu leite e desse no copinho. A primeira enfermeira que tentou me ajudar disse que meu bebê não ia mamar mesmo porque o bico do meu seio era muito curto para ele. Massageou e nada do bebê sugar. Então, a enfermeira chefe veio e me ajudou com a ordenha. Saiu uma colher de leite, o suficiente para alimentá-lo. Dali em diante, tentava amamentar e, se não dava, ordenhava. Foi assim por uma semana. Já em casa, contei com a ajuda de uma profissional em aleitamento. Desde que vi que tinha leite, não duvidei que poderia alimentá-lo, se tivesse ouvido algumas pessoas da equipe de enfermagem, teria desistido.

No dia da alta, já em casa, senti uma dor muito forte que achei que era normal sentir. No dia seguinte, apareceu inchaço e hiperemia (aquele vermelhão). Iniciamos medicação para infecção. Ela retrocedeu três dias depois mas logo voltou com força total. A obstetra estava viajando. Fomos novamente para o plantão. As quase três horas que me separaram do Miguel foram angustiantes. Diagnóstico: infecção no campo cirúrgico, possivelmente, hospitalar. Daqui em diante considero que passei os dias mais difíceis da minha vida, misturada à alegria da maternidade.

“Eu não fui o médico que te operei, não ponho a mão aí”. “Mas o que que a gente faz, doutor?”. Medo, só lembro de sentir muito medo. Medo de morrer e não ver o Miguel crescer. A cara dele era terrível. “Volto pra casa assim?”. Mal podia me mantar de pé. Muita choradeira depois, um infecto e um cirurgião me consultaram. Nesse meio tempo, conseguimos falar com a médica, que chegaria naquela madrugada. Exames feitos, consultas feitas, deveria ser feita nova cirurgia para assepsia. Graças a Deus a infecção era subcutânea, não havia se espalhado mais para dentro. Poderia esperar o dia seguinte, mas deveria ficar internada e iniciar medicação.

“Doutor, estou amamentando”. “Isso não é o mais importante agora”. Oi? Meu filho tinha 7 dias; havia aprendido a mamar naquele dia. Com muita luta, o mantive com leite materno ordenhado por toda aquela primeira semana, sem desistir de ensiná-lo a mamar.

A internação foi uma nova novela. Queria manter o Miguel comigo. Queria ficar com meu bebê, amamentá-lo, não privar-nos disso. A infecção não tinha risco de contágio pra ele. Foi preciso apelar para a diretoria do Hospital. Ficamos na pediatria e ele como meu acompanhante. Era o mínimo a se esperar de um Hospital Amigo da Criança. Contudo, ninguém poderia ficar conosco no quarto para me ajudar com ele, porque meu plano não cobria apartamento.  E como iria cuidar dele, se não podia nem me levantar? Iria ser operada, como iria cuidar de um bebê? Naquela primeira noite, a enfermeira chefe autorizou que minha mãe me ajudasse, mas ela não poderia ocupar o outro leito, deveria dormir na poltrona e no dia seguinte ficar só durante o horário de visitas.

Minha médica voltou e apelou novamente à diretoria. Fez o comunicado de infecção hospitalar. Minha mãe foi autorizada a ficar. Por 8 dias, lutamos para que ela pudesse comer e dormir deitada! O plano não cobria, mas o outro leito ficava vazio. Ninguém poderia ser internado ali sem que estivesse na mesma situação que eu. Durante a noite, dobravam o colchão ao meio para ela não deitar e avisavam que ia subir um paciente. Mentira! Eu estava naquela situação por negligência do hospital com selinho do bem e minha ajudante, minha MÃE, era tratada como intrusa.

Nesses dias, o pediatra famosinho por ser humanizado e blá esqueceu por 3 dias de consultar meu filho. Ele estava lá todos os dias, recebendo crianças no mesmo corredor, mas esqueceu do Miguel. “Passo de tarde”. Esperávamos. “Passo amanhã cedo”. Esperávamos. O Miguel ficou ictérico, teve conjuntivite e parou de mamar de novo. O hospital não o via, porque ele não era o paciente. Ele apareceu no domingo. Esperávamos desde quinta.

“Esse bebê está desnutrido. Mãe, por que você não deu complemento pra ele?”. Voz brava, alta. Mal pude explicar que seguia as orientações dele sobre ordenha e leite materno, sobre amamentação e não dar complemento. Foi grosso comigo, foi grosso com a minha mãe. Colocou a culpa no hospital por não terem observado as coisas que aconteciam com o Miguel. Depois de tudo, pesou. Ele não estava desnutrido.

A icterícia minha mãe tratou colocando-o no sol. Jamais saberemos se ele precisou de banho de luz, porque fugia ao nosso conhecimento. A conjuntivite tratei com leite materno até ele prescrever remédio.

Superamos essa fase difícil, complicada, sofrida. Mas sempre recordo com uma dorzinha e um nó na garganta sobre esses fatos. Sim, considero uma violência institucionalizada. Uma violência velada, sutil, porque se manifestou pelo descaso, pelo desrespeito, pelo despreparo, e como no final deu tudo certo é como se me tirassem o direito de reclamar, de me sentir agredida, de me sentir desamparada.

Outras mulheres tiveram suas dores. Elas também querem e necessitam ser ouvidas. Por isso, compartilho o vídeo abaixo, para dar voz a essas mulheres.

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Sobre partos e pratos: um papo com a minha vó

Ando relapsa com o blog. Essas últimas semanas tem sido intensas por aqui. Mas há tempos estou com alguns relatos da minha avó paterna na memória e um sentimento de que eles não devem ficar só comigo.

Desde a gravidez comecei a me interessar muito pelas experiências das mães da família: mãe, vó e sogra. Afinal, aprende-se muito e a gente se reconhece e forma nossa história junto.

Essa avó em questão é a Dona Tereza, que aos seus 83 anos me surpreende cada dia mais com sua força e lucidez.

Ensina tudo pra ele, bisa!

 

Conta minha avó, que veio do meio rural e viveu e criou seus filhos lá, quase sem instrução formal, que no seu tempo de mãe de primeira viagem, no interior de Minas Gerais, década de 50, os partos eram normais, feitos por parteiras. Até aí nenhuma novidade.

Ela contou que era costume a mulher se cercar do cuidado de outras mulheres nessa hora. Assim que nasciam, os bebês eram colocados para mamar. As mulheres da família ou da comunidade se revezavam cuidando de tudo para que a nova mãe pudesse repousar por 40 dias, durante os quais deveria se cuidar e cuidar do bebê.

Logo após o parto, davam óleo mineral aos bebês para ajudá-los a expelir o “cocô preto” que “grudava que nem graxa e dava dor de barriga neles”.  Ao menos os bebê na sua família não dormiam longe da mãe. Meu avô, inclusive, fazia um prolongamento na cama para que eles dormissem lá e pudessem mamar a noite de forma mais conveniente para ambos.

“Não tinha essa coisa de horário não, Melina. Acordou, mamava, chorou, mamava, ia dormir, mamava. A gente ia aprendendo quando tinha fome e aí dava o peito.”

O Miguel era bem novinho quando ela me contou isso. Estava refletindo sobre a Marcha pelo Parto Domiciliar que iria acontecer e sobre vários argumentos usados na luta pelo parto humanizado.

Cheguei a fazer um texto enorme com minhas considerações na época, mas não publiquei porque queria refletir mais.

Há pouco mais de uma semana minha avó esteve aqui novamente. Dessa vez, nos visitou em plena introdução da alimentação complementar. Estávamos levando um baile com as papinhas, ao passo que o alimento in natura vinha sendo bem aceito.

Durante esse tempo, vinha estudando as diretrizes de segurança do baby-led weaning (um método de introdução de alimentos que não usa papinhas nem colheres, os bebês comem comida em pedaços, com as mãos) e no dia da visita era o segundo dia em que aplicava. O Miguel não só comia como demonstrava interesse em explorar os alimentos. Mas eu estava frustrada, frustrada com comentários, com medo de fracassar, com medo do Miguel se tornar um “niño que no me come”, com medo de ser a causadora de futuros problemas por não insistir nas colheradas ou por me opor a substituir mamada por comida.

Sentei com minha avó e com a minha tia, conversamos, usei todos os argumentos científicos de que tinha conhecimento, esperei a crítica. E obtive um sorriso e outro relato.

Dona Tereza me contou que, no seu tempo, nunca deu comida na boca dos seus filhos. Contou que quando eles conseguiam ficar sentados sozinhos, o meu avô fazia um caixote de madeira (que depois ia sendo adaptado conforme cresciam os filhos) no qual os bebês eram colocados. Lá no cantinho deles, ela deixava o prato com a comida, amassadinha ou em pedaço, e eles comiam: sozinhos, com as mãos, brincando e, eventualmente, comendo.

“Lá eles ficavam, às vezes comiam, às vezes não. Tinha vez que um ficava com o prato na cabeça, outro dormia. Eles mamavam, então não tinha problema. Fia, no final, tudo aprenderam a comer”.

Pedi detalhes. Ela fazia assim porque lhe parecia natural, e assim aprendeu com sua mãe, que aprendeu com a dela… Divagamos sobre o começo do mundo, sobre como devia ser quando não tinha papinha e colher. Dedos? Sim, as mães deviam amassar e dar com os dedos. “Ou deixavam eles comendo sozinho do jeito que dava. É assim que aprende”.

O mais importante, me tranquilizou minha avó (o Dr. González e o manual da OMS sobre alimentação complementar) “é que você dá o leite do peito, isso que sustenta ele”.

E nessas duas visitas e algumas horas de conversa entre gerações eu  desconstruí uma porrada de preconceito, de comportamento que eu praticava no automático.

Parto humanizado, criação com apego, livre demanda, alimento COMPLEMENTAR… percebam.. há isso tudo que muitos chamam de moda/modismo em cada história que ela me contou, práticas em um mundo no interior do Brasil da década de 50, simples e sem acesso ao De Lamare (o manual da época) ou às instruções pormenorizadas dos pediatras.

Eu vejo o parto humanizado no relato dela, um parto em que o bem estar da mãe e da criança, em que trazer esse bebê de forma saudável e acolhedora eram o foco. Muito mais que a forma (porque sim, elas conheciam a cesárea e fariam se fosse necessário), o importante era garantir uma vinda saudável ao binômio mãe-bebê com os melhores recursos de que dispunham.

Eu aplico isso hoje. Mais que valorizar o meio como fim, mais que colocar o sonho como meta, receber os bebês de forma segura e acolhedora é o que entendo como humanizado. Então, nesse sentido, é muito válido questionar práticas feita no automático, ou partos programados por conveniência. Mas também devemos questionar partos normais feitos para garantir bonificações ou selos do bem, ou mesmo para realização única e exclusiva do sonho da mãe. Parto humanizado não é sinônimo de parto natural/normal/domiciliar/na água. Há que se cuidar para evitar essa comparação simplista.

No mesmo sentido, vejo cama compartilhada e criação com apego no que ela me contou – outras duas “modas”.

Minha cabeça ferveu ouvindo isso. Minha curiosidade científica me leva a pesquisar tudo que posso referente à criação, a me informar, a me munir de argumentos. Muitos medos caíram e várias mudanças aconteceram, mas nada, nada me marcou mais que observar que a ciência vem sempre depois – ao menos no que diz respeito à maternagem. O conselho mais simples e despretensioso da minha avó é a frase que mais martela na minha cabeça nos últimos 3 meses. “Fia, minha mãe já me dizia: o lugar da mãe é junto dos fios”. É neste lugar que eu quero estar.

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Miguel: resumo dos 20 dias

AVISO: ESSE POST VAI SER LONGO.

Cá estamos. O Miguel já completou 20 dias.

20 dias 😉

Com 38 semanas de gestação, em 26 de março de 2012, pesando 2795g e com 48cm, nasceu nosso filhote. Veio de cesárea, mamãe ansiosa, papai empolgado… chegou de bundinha pra cima e fazendo xixi em todo mundo. Antes do choro, ouvi o papai “Eeeeee que mijada!” e risadaria geral. Chegou em clima de festa! Chorou, chorei, pedi que Deus o abençoasse.

Senti alegria em meio ao medo da cirurgia.. senti dor na altura do diafragma, mas não me lembro da explicação… olhei meu magrelo sendo deitado do meu lado e calando assim que ouviu a minha voz… senti ansiedade pela demora para sair de lá… senti saudade do meu filho enquanto o esperava na sala de recuperação… senti falta do meu marido segurando a minha mão no começo de tudo e senti alívio e segurança quando ele chegou. Senti, senti e senti. Passei os dias na maternidade só sentindo.

O Miguel é calmo desde o nascimento. Na primeira semana tivemos que abandonar a livre demanda e o acordávamos de tempo em tempo para mamar, porque senão ele embalava horas dormindo. Jamais se assustou com colos diferentes, ambientes distintos ou sons.  Viemos pra casa e o anjinho continuou, mesmo nas noites em que pai e mãe resolveram assumir tudo por conta e risco sem ajuda da vó Dida, durante as quais ele sabiamente reclamou mais (afinal, cadê as mãos experientes de quem estava cuidado de mim?).

Nesses poucos dias de vida já vivemos todos os momentos possíveis. Rolou aquele blues puerperal – o desespero-tristeza-medo-choradeira – típico das mães novas; rolou orgulho e força danados. A vontade de ser mãe em tempo integral pra sempre bate desesperada no meu peito. Olho pro Miguel e não sei como pude não desejá-lo mais cedo!

A recuperação da cesárea, tipicamente, não é um bicho de sete cabeças. É normal alguma dorzinha e os dias mais chatos são os do hospital, nos quais você está plenamente amparada.

Nossa dificuldade veio logo depois, ainda no dia que voltamos.. comecei a sentir a região da incisão mais quente que o normal e apareceu um vermelhão. A dor diminuía com repouso. Deixei passar um dia. No dia seguinte voltou – início de infecção – e já comecei a tomar antibiótico. Nesse tempo, o Miguel mamava pouco. Tivemos ajuda de uma enfermeira obstetriz, a Daniela, para que ele mamasse. Com 5 dias de vida, ele perdeu a “preguiça” e começou a mamar. Ao mesmo tempo a infecção dava sinais de regressão.

No 6º dia pós parto a dor voltou e um inchaço diferente apareceu. Sentar era dolorido, deitar também. Com repouso parecia que  melhorava, mas era só impressão. Não havia hiperemia. No dia em que tudo completou uma semana toda a situação piorou em questão de horas. Hiperemia, dor, inchaço… só conseguia ficar de pé. Em resumo, o dia foi assim: obstetra viajando, visita providencial de uma amiga, a Paty, que conversou com o marido médico e correria pro PS.

Ali entrei, ali fiquei. Plantonista, cirurgião e infectologista atenderam. Medo, pânico, choro, saudade do meu bebê, choro, saudade do meu filho, choro, medo… e assim sucessivamente. Tive uma infecção hospitalar (o antibiótico que tomei em casa deu conta até certo ponto, depois não, por isso a melhora temporária). Não cabem explicações maiores aqui, mas o fato é que fiquei internada por 8 dias. Ainda naquela segunda-feira, iniciei medicação para, no dia seguinte, reabrirem o local e fazer a limpeza, drenagem e troca dos fios da sutura (tipo uma nova cesárea em uma semana).

Graças a Deus o Miguel pode ficar comigo e, apesar das dificuldades inerentes à situação, mantive a produção de leite e o aleitamento materno exclusivo.

Desde a última terça estamos em casa. Contei, durante todo o período, com a graça de Deus e o apoio da nossa Mãezinha. Nossa família foi especial, se revezando nos cuidados no hospital. Minha mãe esteve comigo enquanto pode e foi uma guerreira vencendo cansaço, dores e privação de sono para cuidar de mim e do Miguel no hospital e em casa. Não menosprezo nem diminuo os outros cuidados que tivemos e temos, mas colo de mãe é fundamental!

O Miguel continua calmo, tranquilo, está ótimo e recuperando bem seu peso. Tivemos problema com o pediatra que o recepcionou, mas agora podemos dormir tranquilos de que está novamente em boas – e atenciosas – mãos. Desse episódio aprendemos como é verdadeira a máxima de virar leões pelos filhos.

No hospital, as enfermeiras diziam que o bebê sabe quando a mãe precisa de descanso. Ouso dizer que nossa comunicação não verbal está em sintonia. Durante os dias mais difíceis da internação pensei em desistir de toda a luta para amamentar (era muito complicado e dolorido, mas quando conseguíamos era demais!)… sei que ele sentiu… simplesmente abandonou o peito. Sofri por mim e por ele e nossa família, novamente, compartilhou de tudo. Novamente a Daniela nos ajudou. Pedi muito a Deus que restaurasse tudo e nosso menino voltou a se alimentar.

Sempre brinquei que, em razão das dificuldades da gravidez, o Miguel já era nosso anjinho guerreiro. Hoje não tenho dúvidas. Em 20 dias ele viveu tanta coisa para um RN que me espanto como pode ser tão tranquilo! Agora choro de alegria com os sorrisos/espasmos, com a mão engordandinho, com os olhinhos vivos…

Quando ele faz a pega certinha, começa a derramar leite pelo canto da boca de tanto que mama, me olha procurando minha voz ou procura pelo Ulisses quando ele lhe fala, quando se acalma com o carinho que lhe ofertamos … vejo que os dias de dor e luta valeram a pena. Antes comigo do que com ele. Valem as noites mal dormidas, vale a mamada do soninho, a do conforto, o colo, vale correr pra ver quando ele chora, vale quebrar a cabeça para decifrar o choro diferente, vale atender prontamente as suas necessidades, vale a livre demanda, vale tudo, tudo, que significar amor e cuidado.

Em 20 dias não tenho muita experiência nas funções de mãe em razão de tudo que passei. Ainda preciso de cuidados por 30 dias e estamos tendo ajuda de enfermeiras para isso – a Cirene, a Regiane e a Diana (que agora está cuidando das roupinhas dele). Sou a mamãedeira oficial por enquanto, mas quero permanecer nessa função com muita alegria pelo tempo que puder!!!

Queria fazer uma lista nominal de agradecimento, mas a cabeça pode não funcionar adequadamente nessa altura do campeonato… então meu muito obrigada de coração aos nossos pais, a nossa família, aos médicos e a nossa médica, Drª Aline, que não arredou o pé um único dia (ela chegou no dia seguinte da internação e desde antes já instruía tudo), à Dani e suas mãos de fada, às enfermeiras que nos ajudaram e ajudam e aos amigos que nos deram e dão apoio. Deus, meu muito obrigada especial a Ti, que está cuidando de nós sempre e sempre. E um agradecimento mais que especial ao meu esposo que tem segurado as pontas de tudo e ainda dividido os cuidados com o Migs (sim, aqui é ele quem dá banho, troca, faz dormir etc) e comigo. Te amo muito e sou muito realizada pela família que me deu.

Bom, enquanto espero pela próxima mamada, to aqui, jogando informação na tela, atualizando as notícias e ajudando meu coração e minha cabeça a assimilarem tudo o que aconteceu, enquanto espero o Migs acordar para tomar banho e mamar (já ansiosa para isso =])

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Um adendo inesperado…

Se pudesse, ela cairia de boca numa empada de frango e depois comeria um sorvete de chocolate meio amargo para se fazer um agrado. Como não pode, ela afoga a tristeza momentânea num potinho de iogurte de soja com uma colher de granola sem açúcar. Melhor que nada.

Há uma correção que ela precisa fazer no post anterior, mas a sensação de ter perdido o controle não a permite. Essa semana, certamente, Carmela não vai adiar a terapia.

Foi atleta amadora grande parte de sua vida, sabe que é necessário saber perder, mas não gosta. Não queria que tivesse chegado a hora de levar a sério as palavras “se for pelo bem do meu filho, tudo bem fazer uma cesárea”. Pareciam tão distantes, tão não-suas. Agora são uma possibilidade real e isso a assusta.

O corpo de uma grávida não é exclusivamente seu. Não concorda com quem grita aos sete ventos que uma mulher gestante pode fazer o que quiser com seu corpo. Mas acredita que não perdeu o direito de sentir alegria ou pesar por ele. Uma cesárea nunca esteve nos seus planos porque Carmela simplesmente não queria escolher quando o outro que lhe habita veria a luz. Mas não só isso, ela queria velar pela integridade do seu corpo, já marcado por tantas cicatrizes e já acostumado desde jovem a bisturis. Não, dessa vez não. Aquela equipe, aqueles instrumentos, não sentir parte de si, saber que está sendo cortada e depois… não ter o contato imediato com seu filho, ficar sozinha se recuperando e quando pudessse finalmente estar inteira pra ele, se ver na condição de depender, sentindo dores por dias, outro corte pra cuidar, outra limitação… não, não dessa vez.

É uma cirurgia, é essa a visão e o sentimento que se apodera dela quando pensa nesse tipo de parto. Não, não dessa vez. Mas hoje ouviu pela primeira vez o que tem tentado não escutar. Sim, muito provável que dessa vez. Bebê sentado, há mais de um mês. É desse modo que ele está encaixado. E agora, mais que nunca, se torna real a máxima: tudo pelo bem estar e pela segurança do seu filho.

Não haverá discussão se a chance real se tornar uma sentença. Sem recursos, sem contra-argumentos. Saber perder, mesmo que não goste. Nesse momento, tudo que ela quer é não perder o direito de lamentar pelo seu corpo.

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