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Crédito ou débito?

Conforme as crianças crescem, nos surpreenderemos muitas vezes com sua capacidade e velocidade em assimilar as coisas.
Parece que, conforme a língua destrava e a linguagem se desenvolve, um mundo todo é descortinado – para nós. Para eles, é como se fosse a oportunidade de, enfim, mostrar tudo o que já sabiam mas não conseguiam exprimir. Considero uma das partes mais legais de acompanhar o Miguel de perto: notar o quanto ele aprende e o quanto já havia aprendido embora nós ainda não tivéssemos notado.

Ontem houve uma situação engraçada. Fomos a uma loja juntos e na hora de pagar, ao tirar o cartão, ele o pegou da minha mão, entregou para a vendedora e disse: “no quédito”. Simples e rápido. Ambas ficamos nos perguntando se era aquilo mesmo e ele com cara de super naturalidade.

Foi ontem também que, nas duas vezes em que saímos rapidamente (e, portanto, sem bolsa), ele pediu “mamãe, compá água” ao invés de pedir para tomar água.

Peço licença para um parênteses. Ele vai conosco ao mercado desde poucos meses de idade. Já sabe onde ficam as coisas de que ele gosta – frutas – aprendeu que não é um passeio mas que pode ser divertido (apontamos nomes das coisas e conversamos com as pessoas – normalmente porque ele tá no sling e isso chama a atenção). Quando algo que ele quer – fruta, rs – acaba em casa, sendo o mercado a uma quadra daqui, costumamos ir juntos comprar. O resultado é que ele pede para comprar a fruta que está com vontade quando acaba (e pelo visto ele estendeu esse conceito a tudo que ele não tem em mãos),  já decorou o nome da rua de tanto ouvir o endereço de entrega aqui de casa e, pelo jeito, aprendeu que existe um negócio mágico que, além de parecer um brinquedo cheio de botões (ele chama cartão de “tutu”, por causa do barulho da maquininha), também autoriza a levar tudo aquilo para casa.

Tirada as bonitices, há pouco eu e o Ulisses nos pusemos a pensar sobre a aparente simplicidade do que aconteceu e um novo desafio que nos foi apresentado.

Nossas crianças, falo daquelas com as quais convivemos, praticamente não sabem o que é dinheiro em papel. Existe um plástico que é acionado por uma das duas alternativas – crédito ou débito – que permite trazer coisas para casa.  Se precisar daquele papel colorido, basta colocar o plástico numa máquina, apertar alguns botões e pronto!

Buscamos uma criação que não supervalorize o “ter”. Não há passeios para compras. Definitivamente, shopping ou loja não é passeio e não atribuímos esse nome às necessárias idas ao mercado e etc. Não valorizamos datas comemorativas pelo aspecto do presente – aliás, nessa semana, após uma manhã fora, chegamos com um presente para ele e ouvi “não pisente (que ele não entende o que é). Mamãe”. Não compramos algo que ele veja e queira se não for necessário. Reaproveitamos, cuidamos de ensinar por que estamos comprando determinadas coisas quando ele está junto. Mesmo assim, com um ano e oito meses ele paga “no quédito” e pede para “compá água”.

As duas situações nos descortinaram um novo momento, um novo desafio – o de incluir mais cedo do que o planejado na educação do pequeno a noção do dinheiro, do necessário, do trabalho. Isso passa por aprender como fazer, claro, porque eu não sei (aceito sugestões). Passa também por cuidar da linguagem que utilizamos – essa ferramenta poderosa que ajuda nossos filhos a criarem seus próprios mundos a partir dos nossos – para que a ideia de comprar não se fixe como um ato mágico que me traz tudo que eu não tenho mas que eu quero. Passa por ajudá-lo a compreender que a solução para a sede e para a fome de banana pode ser “tomar água” e “comer banana”. Passa, por fim, por ensiná-lo como pedir.

Nesse ponto, peço licença para um pequeno confessionário lado B: ouço minha voz de comando quando ele me pede algumas coisas. Ele ainda não sabe construir a frase “você pode me trazer um copo de água, por favor?” e nem espero isso dele tão novinho. O “por favor” , essa gentileza que deixa as relações mais gostosas, está sendo ensinado. Mas muitos dos seus pedidos tem a entonação dos comandos e ordens que ele ouve e o exemplo fala mais alto. Alguém já disse – mas eu não me lembro quem – que nós formamos a voz interior da criança e quando me escuto nele, me envergonho muitas vezes.

Eu sei que o Miguel é muito novo para compreender a complexidade da relação de consumo, trabalho, remuneração, custo, etc, etc, etc, mas é desde cedo que ensinamos, não é? Do mesmo modo que ele assimilou, de certa forma, um aspecto da relação de consumo, será possível construir a médio e longo prazo uma relação diferente.

Um novo desafio bem propício para a época mais consumista do ano.

Sou grata por poder crescer com meu quase ex-bebê. Pena que ele ainda demorará a compreender o quanto ajudou sua mãe a amadurecer.

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Eu não bato no meu filho. Dou o exemplo. – Por que escolhi criar meu filho sem violência?

Hoje, dia 19 de novembro, é dia mundial da prevenção à violência doméstica contra a criança e o adolescente. Também é dia de blogagem coletiva sobre o tema, respondendo à pergunta “Eu não bato no meu filho. Dou o exemplo. – Por que escolhi criar meus filhos sem violência?”.

Nunca participei de nenhuma postagem assim, mas ultimamente o tema “educação” vem ganhando bastante importância por aqui e esse assunto mexe comigo, inclusive pela minha trajetória profissional.

Quem acompanha o tema “ser mãe” aqui no blog talvez tenha percebido como meu modo de cuidar do Miguel foi avançando nesses quase 8 meses. Não é segredo que minha única leitura sobre criação durante a gravidez foi o Nana Neném. No nosso começo, tentei aplicar uma ou duas vezes o choro “controlado” (ou melhor, desamparado) e não consegui sustentar, nem mesmo dentro de mim, essa posição. Achei violento, não natural, cruel.

Dia-a-dia, revendo e questionando minhas atitudes para com ele, refletindo sobre o que eu desejo ensiná-lo, fui percebendo o quão próximo estávamos (eu e meu marido) do outro lado da “maternage” – a criação com apego (sobre a qual eu tinha milhares de preconceitos e quase nenhuma informação).

Nesse processo, foi inevitável me questionar sobre os limites, a disciplina e as correções e sobre o papel das palmadas e das broncas.

Apanhei. Meus irmãos apanharam. Meus pais também. Esse ciclo deve retroceder ao infinito. Mas eu decidi tentar pará-lo por aqui.

Confesso: até há poucas semanas não sentia isso amadurecido o suficiente para se tornar uma convicção, algo que me movesse para o ativismo. Ainda tentava achar uma palmada justificável, uma justificativa para a agressão. Mas hoje sim, tenho convicção de que a menor delas, mesmo o grito, são manifestações de descontrole, de quem, naquele momento ou em vários, não sabe o que fazer para solucionar um conflito. Ou seja, são agressões, é violência. Quem precisa ser educado é o autor dela.

No direito temos um conceito para uma agressão que repele outra injustificada: a legítima defesa. No mundo adulto, é a única forma de violência amparada, por assim dizer. Ainda assim, ela deve ser do tamanho da necessidade, nada mais. O exagero não tem vez.

O que dizer sobre uma criança que derruba um copo e apanha para aprender a segurar? Como justificar a palmada em uma outra que apanha e ouve gritos porque, não sabendo atravessar a rua sozinha, solta da mão dos pais? E do puxão de orelha na frente das visitas porque não ficou quieto na cadeira?

A palmada e o grito educativos costumam se justificar pelo melhor interesse das crianças. Estou convicta de que o melhor interesse é justamente o contrário – o da não agressão. O exemplo é mais. Como posso dizer para o meu filho que ele tem que resolver seus conflitos com o diálogo e com ações respeitosas, se bato nele em casa? Como pretendo que ele não confunda poder com legitimidade para agredir, se a figura de autoridade que ele conhece em casa usa da sua posição para justificar meios violentos para educá-lo? Quero o seu medo ou o seu respeito?

Decidi que não vou bater. Não vou admitir a violência contra ele nem partindo dele. Não quero continuar esse ciclo.

Um adulto que bate em uma criança o faz por autoritarismo, descontrole. Então, se não sei como resolver aquela situação, não será marcando o seu corpo ou a sua mente que chegarei a uma solução, mas buscando alternativas respeitosas, que sejam coerentes com o que desejo ensinar, coerentes com o afeto.

Quais alternativas? Aquelas que sua idade lhe permita compreender. Vale o diálogo, a reflexão conjunta, alguma ação que tenha ligação direta com o que desejamos inibir/limitar/ensinar. Realmente, não tenho receita de bolo. Espero ter sabedoria para optar pelo meio mais eficaz em cada situação. Se não souber o que fazer, paciência. Faz parte do processo aprender com os nossos filhos.

Nunca baterei? Nunca gritarei? Assim espero, do fundo do meu coração, com a mais honesta e sincera intenção. Só não posso dizer: “espero que nunca tenha necessidade”, porque de fato não acredito que meu filho um dia me imporá uma ameaça grave que me autorize uma legítima defesa. Vou criá-lo para que ele não exponha – ao menos pelo nosso exemplo – ninguém a um mal injusto. Então, a necessidade não é uma justificativa.

Cada um sabe as marcas que uma humilhação, um desamparo, um puxão de orelha, partidos de quem mais ama, lhe deixou. Somos incrivelmente resilientes para que cresçamos sem que isso defina o nosso caráter. Mas alguém arrisca dizer que mesmo a menor das surras, o mais baixo dos gritos, de algum modo não colaborou para que sejamos quem somos? E que bom seria se pudéssemos chegar na idade adulta sem a influência da cinta ou do choro desamparado na nossa formação. Por aqui, tá na hora de agir para romper esse ciclo.

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