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Eu não bato no meu filho. Dou o exemplo. – Por que escolhi criar meu filho sem violência?

Hoje, dia 19 de novembro, é dia mundial da prevenção à violência doméstica contra a criança e o adolescente. Também é dia de blogagem coletiva sobre o tema, respondendo à pergunta “Eu não bato no meu filho. Dou o exemplo. – Por que escolhi criar meus filhos sem violência?”.

Nunca participei de nenhuma postagem assim, mas ultimamente o tema “educação” vem ganhando bastante importância por aqui e esse assunto mexe comigo, inclusive pela minha trajetória profissional.

Quem acompanha o tema “ser mãe” aqui no blog talvez tenha percebido como meu modo de cuidar do Miguel foi avançando nesses quase 8 meses. Não é segredo que minha única leitura sobre criação durante a gravidez foi o Nana Neném. No nosso começo, tentei aplicar uma ou duas vezes o choro “controlado” (ou melhor, desamparado) e não consegui sustentar, nem mesmo dentro de mim, essa posição. Achei violento, não natural, cruel.

Dia-a-dia, revendo e questionando minhas atitudes para com ele, refletindo sobre o que eu desejo ensiná-lo, fui percebendo o quão próximo estávamos (eu e meu marido) do outro lado da “maternage” – a criação com apego (sobre a qual eu tinha milhares de preconceitos e quase nenhuma informação).

Nesse processo, foi inevitável me questionar sobre os limites, a disciplina e as correções e sobre o papel das palmadas e das broncas.

Apanhei. Meus irmãos apanharam. Meus pais também. Esse ciclo deve retroceder ao infinito. Mas eu decidi tentar pará-lo por aqui.

Confesso: até há poucas semanas não sentia isso amadurecido o suficiente para se tornar uma convicção, algo que me movesse para o ativismo. Ainda tentava achar uma palmada justificável, uma justificativa para a agressão. Mas hoje sim, tenho convicção de que a menor delas, mesmo o grito, são manifestações de descontrole, de quem, naquele momento ou em vários, não sabe o que fazer para solucionar um conflito. Ou seja, são agressões, é violência. Quem precisa ser educado é o autor dela.

No direito temos um conceito para uma agressão que repele outra injustificada: a legítima defesa. No mundo adulto, é a única forma de violência amparada, por assim dizer. Ainda assim, ela deve ser do tamanho da necessidade, nada mais. O exagero não tem vez.

O que dizer sobre uma criança que derruba um copo e apanha para aprender a segurar? Como justificar a palmada em uma outra que apanha e ouve gritos porque, não sabendo atravessar a rua sozinha, solta da mão dos pais? E do puxão de orelha na frente das visitas porque não ficou quieto na cadeira?

A palmada e o grito educativos costumam se justificar pelo melhor interesse das crianças. Estou convicta de que o melhor interesse é justamente o contrário – o da não agressão. O exemplo é mais. Como posso dizer para o meu filho que ele tem que resolver seus conflitos com o diálogo e com ações respeitosas, se bato nele em casa? Como pretendo que ele não confunda poder com legitimidade para agredir, se a figura de autoridade que ele conhece em casa usa da sua posição para justificar meios violentos para educá-lo? Quero o seu medo ou o seu respeito?

Decidi que não vou bater. Não vou admitir a violência contra ele nem partindo dele. Não quero continuar esse ciclo.

Um adulto que bate em uma criança o faz por autoritarismo, descontrole. Então, se não sei como resolver aquela situação, não será marcando o seu corpo ou a sua mente que chegarei a uma solução, mas buscando alternativas respeitosas, que sejam coerentes com o que desejo ensinar, coerentes com o afeto.

Quais alternativas? Aquelas que sua idade lhe permita compreender. Vale o diálogo, a reflexão conjunta, alguma ação que tenha ligação direta com o que desejamos inibir/limitar/ensinar. Realmente, não tenho receita de bolo. Espero ter sabedoria para optar pelo meio mais eficaz em cada situação. Se não souber o que fazer, paciência. Faz parte do processo aprender com os nossos filhos.

Nunca baterei? Nunca gritarei? Assim espero, do fundo do meu coração, com a mais honesta e sincera intenção. Só não posso dizer: “espero que nunca tenha necessidade”, porque de fato não acredito que meu filho um dia me imporá uma ameaça grave que me autorize uma legítima defesa. Vou criá-lo para que ele não exponha – ao menos pelo nosso exemplo – ninguém a um mal injusto. Então, a necessidade não é uma justificativa.

Cada um sabe as marcas que uma humilhação, um desamparo, um puxão de orelha, partidos de quem mais ama, lhe deixou. Somos incrivelmente resilientes para que cresçamos sem que isso defina o nosso caráter. Mas alguém arrisca dizer que mesmo a menor das surras, o mais baixo dos gritos, de algum modo não colaborou para que sejamos quem somos? E que bom seria se pudéssemos chegar na idade adulta sem a influência da cinta ou do choro desamparado na nossa formação. Por aqui, tá na hora de agir para romper esse ciclo.

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Arquivado em Bebê, Opinião