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Relato de parto do Ulisses — dois meses depois

E alguns dias depois de ter publicado o relato de parto da Alice, conversamos. Ainda não havíamos falado sobre os detalhes contidos no texto e, embora soubéssemos intuitivamente os sentimentos e percepções um do outro a respeito da nossa recente experiência, eu esperava ansiosamente que ele me dissesse suas impressões.

Presenciar o nascimento de um filho não é uma banalidade. É um evento da vida, mas daqueles com um potencial transformador que acabam por jamais passar batido. Mas é que essas coisas muito intensas precisam vir à tona de forma espontânea… não se encomenda um relato de parto como se espera um relatório.

A Alice chegou de uma forma tão forte na nossa vida que tinha que vir dele elaborar e partilhar sua própria experiência. E assim ele fez. Nessa conversa sobre como estávamos surpresos com o alcance do relato que eu havia feito, surgiu um comentário sobre como é importante que também homens que pariram, no sentido emocional e espiritual do termo, falem para ajudar que outros também sejam tocados.

“Mê,você gostaria que eu escrevesse o meu relato?”

“Sim, mas só se você realmente quiser”.

“Eu quero.”

Passaram-se alguns dias. Sem aviso prévio ele me mandou um rascunho por e-mail.

Foi muito forte. Foi mais que compreender sua percepção sobre o processo todo. Foi sentir suas angústias e alegrias e ainda ser instigada a trilhar suas reflexões.

Com imensa alegria, orgulho e respeito compartilho o relato de parto do pai da Alice, do meu esposo e companheiro.

Que também sejam vocês tocadxs.

 

 

“- E [o que significa] ‘pais’? – perguntou o D.I.C..

Fez-se um silêncio embaraçado. Vários rapazes coraram. Ainda não tinham aprendido a fazer a distinção, importante mas por vezes muito sutil, entre a indecência e a ciência pura. Um deles, por fim, teve a coragem de levantar a mão.

– Os seres humanos, antigamente, eram… – Hesitou; o sangue subiu-lhe às faces. – Enfim, eram vivíparos.

– Muito bem. – O Diretor aprovou com um sinal de cabeça.

– E quando os bebês eram decantados…

– ‘Nasciam’ – corrigiu ele.”

Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo” (trad. Vidal de Oliveira). Porto Alegre, Globo: 1979. Cap. 2

 

Aldous Huxley imaginou uma sociedade em que tudo funcionasse perfeitamente. As pessoas eram felizes em cumprir seus papeis. Desde antes de nascer (ou melhor, antes de serem “decantadas”), eram condicionadas a gostarem do que fariam pelo resto da vida. Tudo era muito limpo, higiênico e organizado. O sexo era visto como algo destinado apenas ao prazer e não à reprodução, tarefa de laboratórios e incubadoras. Eventuais questionamentos eram controlados administrando-se medicamentos. Quem poderia querer algo diferente da perfeição?

 

A obra é considerada genial e visionária, porque anteviu, em 1932, a reprodução assistida, seleção de embriões, clonagem, etc. Também explorou a ideia chocante de condicionamento de seres humanos para se tornarem obedientes.

 

Mas, talvez nem sejam essas as ideias centrais. Mais do que isso, o retrato de Huxley mostra uma sociedade que, a pretexto de se tornar ideal, transforma-se aos poucos em uma distopia. A pretexto de se tornar perfeita, deixa de ser humana.

 

Quando era criança, vi os últimos meses de vida de meu avô paterno. Ele era cuidado pelos familiares em casa. Entre uma “bestemmia” e outra, entre uma lágrima e outra, mesmo que tentassem ocultar das crianças, era possível ouvir os comentários a respeito do descaso dos médicos pela saúde dele.

 

Quando eu já era adulto, meu avô materno faleceu sua em casa, vítima de um ataque cardíaco. Nunca comentei sobre isso, mas minha tia (que era Auxiliar de Enfermagem), ao chamar a ambulância, ouviu da atendente que era o fim de seu turno e não estava ali para aguentar gente histérica. Desligou antes de enviar atendimento.

 

Esses não são relatos isolados, nem incomuns. Parece haver um consenso a respeito do tema da saúde, de que os recursos são escassos, os profissionais se desiludiram, a população está conformada.

 

Sendo escassos os recursos, não é possível atender cada caso individualmente. Não há tempo, dinheiro, gente, espaço. Não sendo possível essa atenção, o horizonte das ambições profissionais vai se tornando cada vez mais curto. Não há muito o que fazer ou, usando uma metáfora mais apropriada, “o que não tem remédio, remediado está”. Sendo modestas as expectativas, o negócio é se conformar.

 

A narrativa de Huxley ilustra uma ideia que me é muito cara: a sociedade não se degenera de uma vez; é devagar, pastando aqui e ali, que a vaca vai para o brejo. Aos poucos é que se instala nas mentes a banalidade do mal, de que nos fala Hannah Arendt.

 

E, quando nada muda, o que hoje nos choca tende a se tornar o padrão da próxima geração.

 

Um dia, Melina me acordou suavemente. Já estava com 40 semanas de gestação. Sempre me acordou com muito barulho. Por isso, ao vê-la falar baixinho e pausadamente “acho que a bolsa rompeu”, pulei da cama e, tropeçando em gatos e brinquedos, juntei as coisas para levar ao hospital.

 

Era uma experiência totalmente diferente do que vivêramos com o Miguel. Parto agendado, acordamos na segunda-feira com tempo e tranquilidade. Fomos recebidos como hóspedes – mais, como hóspedes que se dignaram de fazer a reserva com antecedência. Assinamos os documentos protocolares. Vai dar tudo certo.

 

Eu, particularmente, até esperava que fosse uma experiência totalmente diferente da que vivêramos com o Miguel. Em 2012, Melina teve de brigar para não darem “complemento” (nome ridículo, como se ao leite materno faltasse algo, que precisa ser complementado), e olha que ela estava num hospital “amigo da criança”.  Amigo da “criONÇA”. Foi premiada com uma infecção grave (hospitalar, naturalmente, como tem sido frequente naquele lugar), que a levou de volta ao hospital, com uma internação longa. Miguel nasceu ictérico e não recebeu mais do que uma ou duas visitas rápidas do pediatra (o mesmo que havia dito, em uma entrevista ao jornal local, que “a pele amarelada do bebê exige atenção em dobro”).

 

“A bolsa rompeu”. Que susto! Quando me dei conta, era a Melina quem estava me acalmando. Riu sem estar nervosa. Bolsa rota não significa que o bebê vai nascer em alguns minutos, não estamos num filme. Muito menos no filme que assisti dias antes, em que um médico faz um parto no banco traseiro de um Maverick em fuga, numa gestante baleada. Fique tranquilo.

 

Eu, tranquilo?

 

Conduzir a gestação para o parto normal foi, para a Melina, tarefa de Hércules. A primeira resistência que a Melina teve de vencer foi a minha. Logo eu, que sempre tentei viver sob dois princípios básicos, como diz Neil DeGrasse Tyson; saber mais, hoje, do que sabia ontem e diminuir o sofrimento das pessoas. O parto normal era algo a ser resolvido na minha cabeça (na da Melina, já estava bem resolvido fazia tempo). Isso demandaria conhecer mais sobre o assunto. Isso redundaria em um parto menos sofrido para a Melina e para a Alice.

 

Acontece que eu já havia me habituado à ideia de que profissionais da saúde não têm como analisar calmamente cada caso, porque cada caso é como a linha que divide a água e a areia da praia. Nenhuma linha é igual a outra e, a cada instante, ela se transforma. E, com poucos recursos, no entanto, trabalha-se com médias, com o que “normalmente acontece”, com o que “dá pra fazer”.

 

O que legitimava a cesárea, na minha cabeça, era o discurso da segurança. O ambiente controlado. A intervenção da razão humana dominando uma força louca da natureza. Ver profissionais da saúde falando em participar “ativamente” do parto, usando técnicas para diminuir o risco e aliviar o sofrimento, quando eu já havia visto tanto descaso, era um argumento muito convincente.

 

É difícil resistir à tentação de tomar a pílula azul.

 

Foi com muita paciência que, aos poucos, a Melina quebrou essa minha resistência. E, aos poucos, também fui me encontrando com conceitos e ideias que, há muito, estavam esquecidos, soterrados pelo medo de que acontecesse com a Alice o que vi acontecer com crianças que tiveram partos normais danosos. Sim, eles existem. Há histórias terríveis. O que não se diz é que há cesáreas desastrosas, mais até do que partos normais.

 

Melina estava bem, o trabalho de parto estava ainda começando, fomos ao hospital. Praticamente todas as pessoas com quem lidávamos perguntaram variações do mesmo tema. “Não, não agendamos”. “Sim, vai ser normal”. “Sem analgesia, por que não?”. Foi assim até o final.

 

Fomos recebidos como um inconveniente a ser resolvido, gente arrogante que acha que as regras não se aplicam a eles. A paciente que não quer subir à maternidade numa cadeira de rodas. O acompanhante que não quer ficar preenchendo papeis enquanto a esposa sobe sozinha para sei lá onde.

 

Um Auxiliar de Enfermagem nos acompanhou, por rotina (palavra maldita!), até o andar adequado. Confidenciou que era o primeiro ou segundo parto normal do mês. Era dia 17. As estatísticas nacionais de cesáreas são modestas, perto disso aqui.

 

Eram só exames. Basicamente uma cardiotocografia que disse que estava tudo bem. O exame terminou e Melina ficou ali, sentada, seminua e com os sensores no corpo. Ninguém aparecia. Chamei alguém. “Só um minutinho”. Passaram-se dez ou quinze. Ninguém aparecia para tirar os sensores. Ninguém aparecia para trazer mais outros tantos documentos para assinar. Ninguém aparecia para “soltar” a gente. Perdi a paciência, tirei os sensores eu mesmo e vamos embora.

 

E fomos embora. Melina queria comer quindim, o que era muito mais importante do que esperar alguém “ter a decência” de “desamarrar” minha esposa. Mais importante que assinar documentos com declarações já prontas e de legalidade duvidosa. Muito mais importante que aquelas “cartas de alforria”, que nos entregam para apresentar na saída do hospital.

 

Fui trabalhar, levando aos colegas a notícia de que a Melina estava com a bolsa rota. Melina também teve um dia normal, aproveitando o tempo para ficar com o Miguel e curtir a expectativa da chegada da Alice.

 

Voltamos ao hospital só no começo da noite. Nova cardiotocografia. Na troca de turno, alguém avisou à enfermagem que éramos os “fujões” da manhã. O Agente Smith estava de olho.

 

Fomos para casa. Conversamos sobre as reações dos profissionais, sobre a falta de sentido das rotinas e procedimentos. Dormimos um sono entrecortado pelas contrações e eventual preocupação. Fomos novamente ao hospital, durante a madrugada. A obstetra estava começando a ficar preocupada, porque já se passaram 24 horas de bolsa rota. Nós estávamos preocupados com essa preocupação. Tudo indicava que a Melina entraria no hospital para sair só depois do parto.

 

Nova cardiotografia e estava tudo bem. Dra. Aline deu a notícia de que poderíamos ir embora. Ela genuinamente estava com a gente. Agora, como dizia o saudoso “seu” Lambari, é só não atrapalhar a natureza.

 

Conversamos sobre ir a um hotel, único lugar onde a Melina poderia controlar o nível de privacidade das próximas horas e tomar dois cafés da manhã (sim, ela comeu dois cafés da manhã, como o “second breakfast” dos Hobbits). Fiquei grande parte do tempo com ela, ajudando aqui e ali, mas assistindo ao trabalho de parto (mais do que assistindo o trabalho de parto). O mais importante: ela estava feliz.

 

No quarto, havia de tudo. Música, luz controlada, bola de pilates, guloseimas, liberdade para andar (depois, soube que ela andou pelo hotel inteiro, literalmente), subir na cama, dançar. Ter seu espaço facilitou o encontro da Melina com a própria sombra, como diz a Laura Gutman. E eu tive a honra de presenciar isso.

 

As horas se passaram e as contrações ficaram menos espaçadas. Fiz o que pude para ajudar nesse processo. Melina tomou um banho longo e eu a ouvi soluçar. Não consigo descrever o que estava sentido.

 

Próximo de 36 horas de bolsa rota, as contrações ficaram menos espaçadas e mais ritmadas. “Liga pra Aline e avisa que eu tô na Partolândia”. “Não posso ter o parto aqui, mesmo?”. Não, melhor não.

 

Fomos ao hospital. Os papeis de internação tinham declarações absurdas, previamente redigidas por alguém que claramente tinha a única intenção de evitar qualquer responsabilidade pelo que acontecesse ao paciente.

Assinando os papeis, você automaticamente concorda de antemão com todos os procedimentos que vierem a ser realizados. E querem que assine logo, sem ler mesmo. De que adianta ler, se é praticamente impossível ao acompanhante refletir sobre os efeitos de uma declaração dessa, especialmente quando um ente querido está precisando de atendimento rápido?

 

Rascunhei uma ressalva, à mão, sem pensar muito. Era algo sobre “consentimento informado”, meio tosco. Teria feito muito melhor, se não estivesse tão ocupado pensando que minha filha poderia nascer no chão, entre os arquivos do setor de internação. Entreguei o documento com a ressalva rabiscada. O funcionário que recebeu o formulário não sabia direito como reagir a ela. Fingiu que não viu.

 

O quarto não estava sequer higienizado, embora soubéssemos por outras pessoas que não só este, mas vários outros quartos estavam disponíveis havia horas. Melina esperava, com as dores das contrações, em pé, do lado de fora do quarto. Quando foi liberado, deixei a Melina com a Marília, doula, e fui colocar o Miguel para dormir. Voltei tarde ao hospital, mas levei dois lanches para compensar. Eu não sabia, mas a Dra. Aline já estava ali e ali ficou.

 

Fritjof Capra relata a experiência de ficar observando as ondas do mar por um longo tempo e, de certa forma, se conectar com aquela força da natureza. Num dado momento, pareceu-lhe que entendia a razão de tudo ao seu redor. Ali, como um observador, vi que aquelas três mulheres estavam conectadas. Elas eram forças da natureza – não descontroladas, mas em harmonia, atuando cada uma à sua maneira, para receber a Alice. Eu estava “sobrando”, de certa forma, mas era um privilégio poder ver aquilo.

 

O quarto estava cheio de uma luz azul. Já não havia música. As mulheres falavam baixo. Melina cochilou entre uma contração e outra.

 

De repente, tudo começou a acontecer. Já estava em dilatação máxima e era hora de correr.

 

Fomos andando apressadamente à sala de parto, que não estava preparada. Nervosa, uma das Enfermeiras deu uma “bronca” na Obstetra, dizendo que não sabia ou não havia sido avisada. Melina estava ali havia horas e não era segredo para ninguém. Enquanto a enfermagem tentava se isentar de responsabilidade, a Obstetra se preparava para o parto, eu e a Doula montamos a mesa (que, pelo visto, era a primeira vez que seria usada). Eu, que nunca havia visto uma mesa daquelas na vida, percebi que as Enfermeiras e Auxiliares estudavam o que estávamos fazendo. Sempre é hora de aprender.

 

Apresentei-me à Pediatra de plantão, comentei rapidamente sobre as dificuldades de amamentação no nascimento do Miguel e que queríamos que a Alice mamasse antes daquelas rotinas todas. Nem precisava falar, “isso é lei”, disse a Pediatra ao Advogado.

 

O expulsivo aconteceu rápido, mas provavelmente menos rápido do que me pareceu. Segurava as costas da Melina, usando o braço como uma trava. Falava em seu ouvido ou olhando em seus olhos. Não sabia o que fazer, mas ela tinha tudo sob controle. Quando hesitava, procurava o olhar de alguém; a Doula, a Obstetra ou eu respondíamos. A Pediatra plantonista ficou longe e se limitou a fazer comentários maldosos.

 

Melina gritou, com uma voz que veio não sei de onde, uma potência que não sabia que a voz dela alcançaria, como nunca imaginei que pudesse vê-la gritar.

 

Vi a cabecinha cabeludinha da Alice despontar. Força, força, gritos. Alice desceu suavemente às mãos da Obstetra. Chorava, mas bem menos do que eu achava que seria. A Obstetra clampeou o cordão depois de parar de pulsar, apesar da insistência da Pediatra plantonista. Alice foi direto ao peito, apesar dos protestos da Pediatra plantonista. E a “lei”?

 

Melina já estava sem forças quando a Obstetra suturou a laceração. Chorou, dessa vez de tristeza e dor. Talvez, também de solidão: Alice estava longe, nas “manobras de rotina” da Pediatra. Pediu para que a dor parasse, e eu dizia que já estava parando, mas sabia que essa era uma frase idiota a se dizer.

 

Sem saber mais o que fazer, eu puxei seu rosto e a beijei. Um beijo forte, melecado e meio desajeitado, com uma trava de metal impedindo que nos abraçássemos. Foi com choro mesmo. Ali, na sala de parto. Na frente de todo mundo. Enquanto a médica lhe suturava “as intimidades”. Pois é, eu não sabia o que fazer.

 

Alice nasceu morena e magrinha, como qualquer polinésia. Mamava com sofreguidão. Quando não estava no peito, levava a mão à boca e sugava com tanta força, que estalava. Ainda de madrugada, Melina já conseguia andar sozinha. Estava feliz.

 

A manhã chegou e tudo estava bem. Melina não parecia ter passado por um parto normal – ou melhor, parecia, sim. Eu é que não sabia. É que tudo estava sendo diferente do nascimento do Miguel, o que não diminui a experiência do nascimento do Miguel, mas o completa, de certo modo. As cicatrizes, algumas físicas, outras emocionais, precisavam ser fechadas com um material mais resistente que qualquer fio de sutura. Melina estava plena de amor e queríamos levar esse amor para nosso lar, logo.

 

Mesmo sem qualquer necessidade, o Pediatra (outro) não autorizou a saída do hospital com menos de 36 horas. Fui dialogar com ele, ouvi seus argumentos e expus, calma e respeitosamente, contra-argumentos razoáveis a cada um deles. Ao fim, a sentença: nada disso importa; “não vou dar alta porque eu não dou alta com menos de 36 horas”. Era o argumento do ego. A rotina acima da razão. O discurso da autoridade. Fim de papo.

 

Fizemos a alta a pedido. O hospital viu-se obrigado a coletar sangue para o teste do pezinho, que seria invariavelmente repetido, no teste amplo, pela Pediatra da Alice – essa sim, de nossa confiança. O Pediatra ainda disse “mas aí, a responsabilidade é de vocês”. Nenhuma novidade. Ser pai é isso aí, camarada: assumir responsabilidades pelos nossos filhos.

 

Quando finalmente conseguimos liberação para sair do hospital, a Auxiliar de Enfermagem que nos acompanhava insistiu que passássemos pelo pronto socorro, com nossa filha recém-nascida no colo. O elevador que usamos para descer dava direto na saída principal, que estava vazia e aberta. Por que deveria dar a volta no hospital e passar pelo PS lotado?

 

Porque era a rotina. Essa é a resposta-padrão. E foi o jovem Porteiro que, de forma até ingênua, usou a frase que resumiu todo o pensamento que embasava as condutas desses profissionais. Ele me “explicou” que “se essa é a rotina, é porque é segura”.

 

Desde o primeiro contato com o hospital até a saída, enfrentamos a resistência de pessoas que pensam exatamente como esse rapaz. Não faz sentido questionar uma rotina, porque se é uma rotina, é segura. Está certa. É o melhor para você.

 

Lá atrás, comentei de uma tia, que era Auxiliar de Enfermagem. Trabalhava na pediatria de um hospital. Desde que me entendo por gente, essa mulher batalhou o sustento de sua família, trabalhando em regime de 12×36. Era mãe e pai dos meus primos e, ainda assim, frequentemente, ficava em nossa casa para nos cuidar. Nos fins-de-semana, quando dava, ocasião em que meus pais se encontravam e tinham um pouco de tempo sozinhos. Assistíamos tevê juntos e ela me contava das coisas do hospital onde trabalhava. Nunca vi um traço de rancor nessas histórias. Ao contrário, comentava com preocupação um caso mais complicado. Contava com consternação a perda de uma criança.

 

Quando comento as condutas profissionais, não critico as pessoas. São gente como minha tia. Ela também foi vítima de violência quando, desesperada, pediu uma ambulância para socorrer o pai em parada cardiorrespiratória. Ela também teve um fim melancólico, em idas e vindas do hospital.

 

É preciso também resistir à tentação de culpar ações individuais, quando se tem todo o sistema a ser questionado. É o contexto dessas condutas que preocupa. Porque é nesse contexto que condutas assim são consideradas normais, padrões, rotinas. E essas rotinas são sedimentos se acumulando gradativamente, formando o substrato em que vai nascer e crescer a próxima geração de profissionais da saúde. É nessas bases que vão se estabelecer as relações com os pacientes.

 

Ao decidir ir adiante com o parto natural, com a opção que entendíamos ser a melhor para a Alice, sabíamos que enfrentaríamos resistência. Não se provoca um sistema sem despertar reações negativas. Não se questionam rotinas e procedimentos sem que alguém se sinta ofendido. Não se enfrenta a autoridade sem que alguém queira te reprimir. São tempos difíceis para os sonhadores, Amélie.

 

O que não sabíamos é que o sistema tem uma capilaridade tão grande. Cada formulário, cada norma/padrão/rotina, cada etapa é pensada para manter as coisas como são, para colocar o paciente (do latim, patiens, “aquele que padece”) em sua posição de submissão, e não como a pessoa a quem se destinam os cuidados e cujo bem estar é o principal. E, também, para proteger os profissionais da responsabilidade civil.

 

Os poucos profissionais que se voltam contra esses procedimentos o fazem em grande parte timidamente, porque a pressão parece maior para aqueles que dependem, inclusive financeiramente, do sistema. Por isso, é tão importante valorizar atitudes como a da Enfermeira que nos apoiou na decisão de apresentar o pedido de alta, da Obstetra que não cedeu à pressão da Pediatra plantonista, da Doula que apoiou a Melina mesmo quando o ambiente lhe foi hostil.

 

Não sei como concluir esse relato e até acredito que não está concluído. O nascimento da Alice foi uma experiência do que vem pela frente em cada etapa de sua vida e da relação que nós, pais, estabelecemos com ela e com as pessoas a quem confiaremos seu cuidado, no futuro. É uma amostra grátis de como será a adaptação da Alice ao mundo, desde a escolinha até a vida adulta.

 

Gostaria que ela pudesse entender as coisas que aconteceram para que ela viesse ao mundo naturalmente e percebesse que isso é só o começo. Estaremos lá como estivemos para ela e para o Miguel. Sempre. Espero que ela sinta a dimensão do nosso amor e que essa é nossa forma de ensinar, através do exemplo, o valor de um sonho.

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Mini Agenda de Férias em Londrina – Atividades para os pequenos

– Mini Agenda de férias (dezembro de 2013)!

A Loja Ciranda indicou algumas atividades que ocorrerão para os pequenos nestas férias.
* Dia 14 de dezembro –  na Loja Ciranda – apresentação da família Coisa Fina com a história “O Macaco e a Velha”

* De 09 a 20 de dezembro – Instituto Caran d’Ache – Colônia de Férias com atividades audiovisuais multimídia para  crianças de 06 a 11 anos (pintura, fotografia, desenho em moda, quadrinhos, dentre outros). Informações e valores: 43 3354-0797

* De 16-20 de dezembro – Yázigi Londrina – Colônia de Férias com atividades recreativas para crianças de 3-9 anos. Informações e valores: 43 – 3324-4886.

* De 16 a 20 de dezembro – Vila Cultural Kinoarte – Colônia Cultural de Férias dirigida a de 06 a 11 anos. Crianças menores podem estar presentes mas com acompanhante. Serão atividades recreativas, oficinas culturais, dentre outras. Taxa de Inscrição R$ 25,00. Informações 43 (43) 3025 6932/ 9806 2743.

 

Se conhecer mais alguma, corre e indica nos comentários!

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Meu perfil de blogueira

Não, não sou louca nem esquecida. Tem quase 6 meses que tento mudar a droga da descrição abaixo da fota fofa de perfil de margarina ali do lado. Mas o wordpress não colabora.

A descrição atualizada é essa aqui:

“Um tanto quanto abençoada por Deus! E outro tanto rabugenta. Equilibrada? Mas nem nos sonhos. Sonhadora irreparável. Escrevo porque tenho que dar descanso pros ouvidos do marido…”

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

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Fim de uma fase e começo de outra

Fiquei nessa… postar ou não postar? Aí pensei: depois de compartilhar tanto sobre nossa espera, why not?

Avistamos a linha de chegada, o final: da gestação, da contagem regressiva, da espera, da ansiedade, das semanas que passam devagar… Segunda-feira completam-se 38 semanas e inicia-se um novo ciclo!

Provavelmente os relatos diminuam ou cessem (tá bom de exposição né, rsrsrsr).  Mas foi bom pra caramba participar de coração aberto alguns dos momentos e sensações mais diversos e intensos que tenho vivido desde 03.ago.2011, quando lemos o e-mail do Laboratório Cetel (hehehehe família conectada não abre mais o resultado pelo envelope).

Obrigada a todos pelo carinho e pelas boas vibrações! Orem e torçam por nós =).

Um beijão da ainda barriguda. Mmmmmmmmmmmuac.

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Indicação: Curso de Direito Constitucional

Esse lançamento é uma excelente fonte para todos que desejam estudar ou estudam direito constitucional. Trata-se da última edição do Curso do professor Zulmar Fachin, lançado pela Forense.

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Uma lembrança especial pelo 8 de março

Boa tarde amigas, família e queridas
Sei que no dia 08 de março nossa caixa de entradas costuma lotar um pouco mais com mensagens de felicitações e parabéns pelo Dia Internacional da Mulher. Talvez algumas se sintam felizes pelo reconhecimento especial que a data traz, outras se sintam incomodadas com a tendência mercadológica que o dia ganhou. Há ainda quem simplesmente não sente nada. É tudo válido! Ainda assim, recebam meus parabéns que entrego em forma de uma mensagem muito especial que foi escrita pelo  meu esposo e que recebi  logo pela manhã.
É com as palavras do homem que amo e admiro que gostaria de felicitá-las.
Feliz dia das mulheres!
Feliz Dia Internacional da Mulher

(Créditos da foto: Braulio Delai – http://www.brauliodelai.com/)

“Colegas, amigas, mães, esposas, filhas, companheiras. Mulheres.

Parabéns pelo seu dia!
O dia 8 de março, um dos 365 (ou 366) dias da mulher, é aquele especialmente consagrado para fazermos uma reflexão.
Assim como o Natal não autoriza os cristãos a esquecerem seu salvador nos outros dias, o Yom Kippur não torna os demais dias menos especiais para os judeus e, fora do Ramadã, os muçulmanos não estão dispensados das cinco orações diárias.
As datas são, portanto, referenciais para nos lembrarmos do significado das coisas mais importantes da vida, sem esquecermos delas quando o dia termina.
Amar, compreender, solidarizar-se e estender a mão tornam as mulheres seres mais humanos; superar, resistir, renascer e dar vida são as qualidades-bases que as tornam mais divinas.
Portadoras da vida e do amor, é por meio das mulheres que a humanidade aproxima o secular e o sagrado.
Nem por isso, a igualdade e o respeito à mulher vieram ou virão espontaneamente. Ihering dizia que o direito não nasce naturalmente, como a regra gramatical do latim segundo a qual a preposição ‘cum’ rege o ablativo, mas é construído à custa de muito sacrifício.
E muito sacrifício já se fez.
O dia 8 de março é uma forma honrar o compromisso com as mulheres que, no passado, já lutaram tanto pelo seu direito e com as mulheres do futuro, que dependem que essa batalha prossiga para viverem em um mundo melhor que o nosso.
Um fraterno abraço,
Ulisses Tasqueti”

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Nada como um dia claro e lindo depois de uma noite bem dormida =).

Happy again!!!

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