Relato de parto do Ulisses — dois meses depois

E alguns dias depois de ter publicado o relato de parto da Alice, conversamos. Ainda não havíamos falado sobre os detalhes contidos no texto e, embora soubéssemos intuitivamente os sentimentos e percepções um do outro a respeito da nossa recente experiência, eu esperava ansiosamente que ele me dissesse suas impressões.

Presenciar o nascimento de um filho não é uma banalidade. É um evento da vida, mas daqueles com um potencial transformador que acabam por jamais passar batido. Mas é que essas coisas muito intensas precisam vir à tona de forma espontânea… não se encomenda um relato de parto como se espera um relatório.

A Alice chegou de uma forma tão forte na nossa vida que tinha que vir dele elaborar e partilhar sua própria experiência. E assim ele fez. Nessa conversa sobre como estávamos surpresos com o alcance do relato que eu havia feito, surgiu um comentário sobre como é importante que também homens que pariram, no sentido emocional e espiritual do termo, falem para ajudar que outros também sejam tocados.

“Mê,você gostaria que eu escrevesse o meu relato?”

“Sim, mas só se você realmente quiser”.

“Eu quero.”

Passaram-se alguns dias. Sem aviso prévio ele me mandou um rascunho por e-mail.

Foi muito forte. Foi mais que compreender sua percepção sobre o processo todo. Foi sentir suas angústias e alegrias e ainda ser instigada a trilhar suas reflexões.

Com imensa alegria, orgulho e respeito compartilho o relato de parto do pai da Alice, do meu esposo e companheiro.

Que também sejam vocês tocadxs.

 

 

“- E [o que significa] ‘pais’? – perguntou o D.I.C..

Fez-se um silêncio embaraçado. Vários rapazes coraram. Ainda não tinham aprendido a fazer a distinção, importante mas por vezes muito sutil, entre a indecência e a ciência pura. Um deles, por fim, teve a coragem de levantar a mão.

– Os seres humanos, antigamente, eram… – Hesitou; o sangue subiu-lhe às faces. – Enfim, eram vivíparos.

– Muito bem. – O Diretor aprovou com um sinal de cabeça.

– E quando os bebês eram decantados…

– ‘Nasciam’ – corrigiu ele.”

Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo” (trad. Vidal de Oliveira). Porto Alegre, Globo: 1979. Cap. 2

 

Aldous Huxley imaginou uma sociedade em que tudo funcionasse perfeitamente. As pessoas eram felizes em cumprir seus papeis. Desde antes de nascer (ou melhor, antes de serem “decantadas”), eram condicionadas a gostarem do que fariam pelo resto da vida. Tudo era muito limpo, higiênico e organizado. O sexo era visto como algo destinado apenas ao prazer e não à reprodução, tarefa de laboratórios e incubadoras. Eventuais questionamentos eram controlados administrando-se medicamentos. Quem poderia querer algo diferente da perfeição?

 

A obra é considerada genial e visionária, porque anteviu, em 1932, a reprodução assistida, seleção de embriões, clonagem, etc. Também explorou a ideia chocante de condicionamento de seres humanos para se tornarem obedientes.

 

Mas, talvez nem sejam essas as ideias centrais. Mais do que isso, o retrato de Huxley mostra uma sociedade que, a pretexto de se tornar ideal, transforma-se aos poucos em uma distopia. A pretexto de se tornar perfeita, deixa de ser humana.

 

Quando era criança, vi os últimos meses de vida de meu avô paterno. Ele era cuidado pelos familiares em casa. Entre uma “bestemmia” e outra, entre uma lágrima e outra, mesmo que tentassem ocultar das crianças, era possível ouvir os comentários a respeito do descaso dos médicos pela saúde dele.

 

Quando eu já era adulto, meu avô materno faleceu sua em casa, vítima de um ataque cardíaco. Nunca comentei sobre isso, mas minha tia (que era Auxiliar de Enfermagem), ao chamar a ambulância, ouviu da atendente que era o fim de seu turno e não estava ali para aguentar gente histérica. Desligou antes de enviar atendimento.

 

Esses não são relatos isolados, nem incomuns. Parece haver um consenso a respeito do tema da saúde, de que os recursos são escassos, os profissionais se desiludiram, a população está conformada.

 

Sendo escassos os recursos, não é possível atender cada caso individualmente. Não há tempo, dinheiro, gente, espaço. Não sendo possível essa atenção, o horizonte das ambições profissionais vai se tornando cada vez mais curto. Não há muito o que fazer ou, usando uma metáfora mais apropriada, “o que não tem remédio, remediado está”. Sendo modestas as expectativas, o negócio é se conformar.

 

A narrativa de Huxley ilustra uma ideia que me é muito cara: a sociedade não se degenera de uma vez; é devagar, pastando aqui e ali, que a vaca vai para o brejo. Aos poucos é que se instala nas mentes a banalidade do mal, de que nos fala Hannah Arendt.

 

E, quando nada muda, o que hoje nos choca tende a se tornar o padrão da próxima geração.

 

Um dia, Melina me acordou suavemente. Já estava com 40 semanas de gestação. Sempre me acordou com muito barulho. Por isso, ao vê-la falar baixinho e pausadamente “acho que a bolsa rompeu”, pulei da cama e, tropeçando em gatos e brinquedos, juntei as coisas para levar ao hospital.

 

Era uma experiência totalmente diferente do que vivêramos com o Miguel. Parto agendado, acordamos na segunda-feira com tempo e tranquilidade. Fomos recebidos como hóspedes – mais, como hóspedes que se dignaram de fazer a reserva com antecedência. Assinamos os documentos protocolares. Vai dar tudo certo.

 

Eu, particularmente, até esperava que fosse uma experiência totalmente diferente da que vivêramos com o Miguel. Em 2012, Melina teve de brigar para não darem “complemento” (nome ridículo, como se ao leite materno faltasse algo, que precisa ser complementado), e olha que ela estava num hospital “amigo da criança”.  Amigo da “criONÇA”. Foi premiada com uma infecção grave (hospitalar, naturalmente, como tem sido frequente naquele lugar), que a levou de volta ao hospital, com uma internação longa. Miguel nasceu ictérico e não recebeu mais do que uma ou duas visitas rápidas do pediatra (o mesmo que havia dito, em uma entrevista ao jornal local, que “a pele amarelada do bebê exige atenção em dobro”).

 

“A bolsa rompeu”. Que susto! Quando me dei conta, era a Melina quem estava me acalmando. Riu sem estar nervosa. Bolsa rota não significa que o bebê vai nascer em alguns minutos, não estamos num filme. Muito menos no filme que assisti dias antes, em que um médico faz um parto no banco traseiro de um Maverick em fuga, numa gestante baleada. Fique tranquilo.

 

Eu, tranquilo?

 

Conduzir a gestação para o parto normal foi, para a Melina, tarefa de Hércules. A primeira resistência que a Melina teve de vencer foi a minha. Logo eu, que sempre tentei viver sob dois princípios básicos, como diz Neil DeGrasse Tyson; saber mais, hoje, do que sabia ontem e diminuir o sofrimento das pessoas. O parto normal era algo a ser resolvido na minha cabeça (na da Melina, já estava bem resolvido fazia tempo). Isso demandaria conhecer mais sobre o assunto. Isso redundaria em um parto menos sofrido para a Melina e para a Alice.

 

Acontece que eu já havia me habituado à ideia de que profissionais da saúde não têm como analisar calmamente cada caso, porque cada caso é como a linha que divide a água e a areia da praia. Nenhuma linha é igual a outra e, a cada instante, ela se transforma. E, com poucos recursos, no entanto, trabalha-se com médias, com o que “normalmente acontece”, com o que “dá pra fazer”.

 

O que legitimava a cesárea, na minha cabeça, era o discurso da segurança. O ambiente controlado. A intervenção da razão humana dominando uma força louca da natureza. Ver profissionais da saúde falando em participar “ativamente” do parto, usando técnicas para diminuir o risco e aliviar o sofrimento, quando eu já havia visto tanto descaso, era um argumento muito convincente.

 

É difícil resistir à tentação de tomar a pílula azul.

 

Foi com muita paciência que, aos poucos, a Melina quebrou essa minha resistência. E, aos poucos, também fui me encontrando com conceitos e ideias que, há muito, estavam esquecidos, soterrados pelo medo de que acontecesse com a Alice o que vi acontecer com crianças que tiveram partos normais danosos. Sim, eles existem. Há histórias terríveis. O que não se diz é que há cesáreas desastrosas, mais até do que partos normais.

 

Melina estava bem, o trabalho de parto estava ainda começando, fomos ao hospital. Praticamente todas as pessoas com quem lidávamos perguntaram variações do mesmo tema. “Não, não agendamos”. “Sim, vai ser normal”. “Sem analgesia, por que não?”. Foi assim até o final.

 

Fomos recebidos como um inconveniente a ser resolvido, gente arrogante que acha que as regras não se aplicam a eles. A paciente que não quer subir à maternidade numa cadeira de rodas. O acompanhante que não quer ficar preenchendo papeis enquanto a esposa sobe sozinha para sei lá onde.

 

Um Auxiliar de Enfermagem nos acompanhou, por rotina (palavra maldita!), até o andar adequado. Confidenciou que era o primeiro ou segundo parto normal do mês. Era dia 17. As estatísticas nacionais de cesáreas são modestas, perto disso aqui.

 

Eram só exames. Basicamente uma cardiotocografia que disse que estava tudo bem. O exame terminou e Melina ficou ali, sentada, seminua e com os sensores no corpo. Ninguém aparecia. Chamei alguém. “Só um minutinho”. Passaram-se dez ou quinze. Ninguém aparecia para tirar os sensores. Ninguém aparecia para trazer mais outros tantos documentos para assinar. Ninguém aparecia para “soltar” a gente. Perdi a paciência, tirei os sensores eu mesmo e vamos embora.

 

E fomos embora. Melina queria comer quindim, o que era muito mais importante do que esperar alguém “ter a decência” de “desamarrar” minha esposa. Mais importante que assinar documentos com declarações já prontas e de legalidade duvidosa. Muito mais importante que aquelas “cartas de alforria”, que nos entregam para apresentar na saída do hospital.

 

Fui trabalhar, levando aos colegas a notícia de que a Melina estava com a bolsa rota. Melina também teve um dia normal, aproveitando o tempo para ficar com o Miguel e curtir a expectativa da chegada da Alice.

 

Voltamos ao hospital só no começo da noite. Nova cardiotocografia. Na troca de turno, alguém avisou à enfermagem que éramos os “fujões” da manhã. O Agente Smith estava de olho.

 

Fomos para casa. Conversamos sobre as reações dos profissionais, sobre a falta de sentido das rotinas e procedimentos. Dormimos um sono entrecortado pelas contrações e eventual preocupação. Fomos novamente ao hospital, durante a madrugada. A obstetra estava começando a ficar preocupada, porque já se passaram 24 horas de bolsa rota. Nós estávamos preocupados com essa preocupação. Tudo indicava que a Melina entraria no hospital para sair só depois do parto.

 

Nova cardiotografia e estava tudo bem. Dra. Aline deu a notícia de que poderíamos ir embora. Ela genuinamente estava com a gente. Agora, como dizia o saudoso “seu” Lambari, é só não atrapalhar a natureza.

 

Conversamos sobre ir a um hotel, único lugar onde a Melina poderia controlar o nível de privacidade das próximas horas e tomar dois cafés da manhã (sim, ela comeu dois cafés da manhã, como o “second breakfast” dos Hobbits). Fiquei grande parte do tempo com ela, ajudando aqui e ali, mas assistindo ao trabalho de parto (mais do que assistindo o trabalho de parto). O mais importante: ela estava feliz.

 

No quarto, havia de tudo. Música, luz controlada, bola de pilates, guloseimas, liberdade para andar (depois, soube que ela andou pelo hotel inteiro, literalmente), subir na cama, dançar. Ter seu espaço facilitou o encontro da Melina com a própria sombra, como diz a Laura Gutman. E eu tive a honra de presenciar isso.

 

As horas se passaram e as contrações ficaram menos espaçadas. Fiz o que pude para ajudar nesse processo. Melina tomou um banho longo e eu a ouvi soluçar. Não consigo descrever o que estava sentido.

 

Próximo de 36 horas de bolsa rota, as contrações ficaram menos espaçadas e mais ritmadas. “Liga pra Aline e avisa que eu tô na Partolândia”. “Não posso ter o parto aqui, mesmo?”. Não, melhor não.

 

Fomos ao hospital. Os papeis de internação tinham declarações absurdas, previamente redigidas por alguém que claramente tinha a única intenção de evitar qualquer responsabilidade pelo que acontecesse ao paciente.

Assinando os papeis, você automaticamente concorda de antemão com todos os procedimentos que vierem a ser realizados. E querem que assine logo, sem ler mesmo. De que adianta ler, se é praticamente impossível ao acompanhante refletir sobre os efeitos de uma declaração dessa, especialmente quando um ente querido está precisando de atendimento rápido?

 

Rascunhei uma ressalva, à mão, sem pensar muito. Era algo sobre “consentimento informado”, meio tosco. Teria feito muito melhor, se não estivesse tão ocupado pensando que minha filha poderia nascer no chão, entre os arquivos do setor de internação. Entreguei o documento com a ressalva rabiscada. O funcionário que recebeu o formulário não sabia direito como reagir a ela. Fingiu que não viu.

 

O quarto não estava sequer higienizado, embora soubéssemos por outras pessoas que não só este, mas vários outros quartos estavam disponíveis havia horas. Melina esperava, com as dores das contrações, em pé, do lado de fora do quarto. Quando foi liberado, deixei a Melina com a Marília, doula, e fui colocar o Miguel para dormir. Voltei tarde ao hospital, mas levei dois lanches para compensar. Eu não sabia, mas a Dra. Aline já estava ali e ali ficou.

 

Fritjof Capra relata a experiência de ficar observando as ondas do mar por um longo tempo e, de certa forma, se conectar com aquela força da natureza. Num dado momento, pareceu-lhe que entendia a razão de tudo ao seu redor. Ali, como um observador, vi que aquelas três mulheres estavam conectadas. Elas eram forças da natureza – não descontroladas, mas em harmonia, atuando cada uma à sua maneira, para receber a Alice. Eu estava “sobrando”, de certa forma, mas era um privilégio poder ver aquilo.

 

O quarto estava cheio de uma luz azul. Já não havia música. As mulheres falavam baixo. Melina cochilou entre uma contração e outra.

 

De repente, tudo começou a acontecer. Já estava em dilatação máxima e era hora de correr.

 

Fomos andando apressadamente à sala de parto, que não estava preparada. Nervosa, uma das Enfermeiras deu uma “bronca” na Obstetra, dizendo que não sabia ou não havia sido avisada. Melina estava ali havia horas e não era segredo para ninguém. Enquanto a enfermagem tentava se isentar de responsabilidade, a Obstetra se preparava para o parto, eu e a Doula montamos a mesa (que, pelo visto, era a primeira vez que seria usada). Eu, que nunca havia visto uma mesa daquelas na vida, percebi que as Enfermeiras e Auxiliares estudavam o que estávamos fazendo. Sempre é hora de aprender.

 

Apresentei-me à Pediatra de plantão, comentei rapidamente sobre as dificuldades de amamentação no nascimento do Miguel e que queríamos que a Alice mamasse antes daquelas rotinas todas. Nem precisava falar, “isso é lei”, disse a Pediatra ao Advogado.

 

O expulsivo aconteceu rápido, mas provavelmente menos rápido do que me pareceu. Segurava as costas da Melina, usando o braço como uma trava. Falava em seu ouvido ou olhando em seus olhos. Não sabia o que fazer, mas ela tinha tudo sob controle. Quando hesitava, procurava o olhar de alguém; a Doula, a Obstetra ou eu respondíamos. A Pediatra plantonista ficou longe e se limitou a fazer comentários maldosos.

 

Melina gritou, com uma voz que veio não sei de onde, uma potência que não sabia que a voz dela alcançaria, como nunca imaginei que pudesse vê-la gritar.

 

Vi a cabecinha cabeludinha da Alice despontar. Força, força, gritos. Alice desceu suavemente às mãos da Obstetra. Chorava, mas bem menos do que eu achava que seria. A Obstetra clampeou o cordão depois de parar de pulsar, apesar da insistência da Pediatra plantonista. Alice foi direto ao peito, apesar dos protestos da Pediatra plantonista. E a “lei”?

 

Melina já estava sem forças quando a Obstetra suturou a laceração. Chorou, dessa vez de tristeza e dor. Talvez, também de solidão: Alice estava longe, nas “manobras de rotina” da Pediatra. Pediu para que a dor parasse, e eu dizia que já estava parando, mas sabia que essa era uma frase idiota a se dizer.

 

Sem saber mais o que fazer, eu puxei seu rosto e a beijei. Um beijo forte, melecado e meio desajeitado, com uma trava de metal impedindo que nos abraçássemos. Foi com choro mesmo. Ali, na sala de parto. Na frente de todo mundo. Enquanto a médica lhe suturava “as intimidades”. Pois é, eu não sabia o que fazer.

 

Alice nasceu morena e magrinha, como qualquer polinésia. Mamava com sofreguidão. Quando não estava no peito, levava a mão à boca e sugava com tanta força, que estalava. Ainda de madrugada, Melina já conseguia andar sozinha. Estava feliz.

 

A manhã chegou e tudo estava bem. Melina não parecia ter passado por um parto normal – ou melhor, parecia, sim. Eu é que não sabia. É que tudo estava sendo diferente do nascimento do Miguel, o que não diminui a experiência do nascimento do Miguel, mas o completa, de certo modo. As cicatrizes, algumas físicas, outras emocionais, precisavam ser fechadas com um material mais resistente que qualquer fio de sutura. Melina estava plena de amor e queríamos levar esse amor para nosso lar, logo.

 

Mesmo sem qualquer necessidade, o Pediatra (outro) não autorizou a saída do hospital com menos de 36 horas. Fui dialogar com ele, ouvi seus argumentos e expus, calma e respeitosamente, contra-argumentos razoáveis a cada um deles. Ao fim, a sentença: nada disso importa; “não vou dar alta porque eu não dou alta com menos de 36 horas”. Era o argumento do ego. A rotina acima da razão. O discurso da autoridade. Fim de papo.

 

Fizemos a alta a pedido. O hospital viu-se obrigado a coletar sangue para o teste do pezinho, que seria invariavelmente repetido, no teste amplo, pela Pediatra da Alice – essa sim, de nossa confiança. O Pediatra ainda disse “mas aí, a responsabilidade é de vocês”. Nenhuma novidade. Ser pai é isso aí, camarada: assumir responsabilidades pelos nossos filhos.

 

Quando finalmente conseguimos liberação para sair do hospital, a Auxiliar de Enfermagem que nos acompanhava insistiu que passássemos pelo pronto socorro, com nossa filha recém-nascida no colo. O elevador que usamos para descer dava direto na saída principal, que estava vazia e aberta. Por que deveria dar a volta no hospital e passar pelo PS lotado?

 

Porque era a rotina. Essa é a resposta-padrão. E foi o jovem Porteiro que, de forma até ingênua, usou a frase que resumiu todo o pensamento que embasava as condutas desses profissionais. Ele me “explicou” que “se essa é a rotina, é porque é segura”.

 

Desde o primeiro contato com o hospital até a saída, enfrentamos a resistência de pessoas que pensam exatamente como esse rapaz. Não faz sentido questionar uma rotina, porque se é uma rotina, é segura. Está certa. É o melhor para você.

 

Lá atrás, comentei de uma tia, que era Auxiliar de Enfermagem. Trabalhava na pediatria de um hospital. Desde que me entendo por gente, essa mulher batalhou o sustento de sua família, trabalhando em regime de 12×36. Era mãe e pai dos meus primos e, ainda assim, frequentemente, ficava em nossa casa para nos cuidar. Nos fins-de-semana, quando dava, ocasião em que meus pais se encontravam e tinham um pouco de tempo sozinhos. Assistíamos tevê juntos e ela me contava das coisas do hospital onde trabalhava. Nunca vi um traço de rancor nessas histórias. Ao contrário, comentava com preocupação um caso mais complicado. Contava com consternação a perda de uma criança.

 

Quando comento as condutas profissionais, não critico as pessoas. São gente como minha tia. Ela também foi vítima de violência quando, desesperada, pediu uma ambulância para socorrer o pai em parada cardiorrespiratória. Ela também teve um fim melancólico, em idas e vindas do hospital.

 

É preciso também resistir à tentação de culpar ações individuais, quando se tem todo o sistema a ser questionado. É o contexto dessas condutas que preocupa. Porque é nesse contexto que condutas assim são consideradas normais, padrões, rotinas. E essas rotinas são sedimentos se acumulando gradativamente, formando o substrato em que vai nascer e crescer a próxima geração de profissionais da saúde. É nessas bases que vão se estabelecer as relações com os pacientes.

 

Ao decidir ir adiante com o parto natural, com a opção que entendíamos ser a melhor para a Alice, sabíamos que enfrentaríamos resistência. Não se provoca um sistema sem despertar reações negativas. Não se questionam rotinas e procedimentos sem que alguém se sinta ofendido. Não se enfrenta a autoridade sem que alguém queira te reprimir. São tempos difíceis para os sonhadores, Amélie.

 

O que não sabíamos é que o sistema tem uma capilaridade tão grande. Cada formulário, cada norma/padrão/rotina, cada etapa é pensada para manter as coisas como são, para colocar o paciente (do latim, patiens, “aquele que padece”) em sua posição de submissão, e não como a pessoa a quem se destinam os cuidados e cujo bem estar é o principal. E, também, para proteger os profissionais da responsabilidade civil.

 

Os poucos profissionais que se voltam contra esses procedimentos o fazem em grande parte timidamente, porque a pressão parece maior para aqueles que dependem, inclusive financeiramente, do sistema. Por isso, é tão importante valorizar atitudes como a da Enfermeira que nos apoiou na decisão de apresentar o pedido de alta, da Obstetra que não cedeu à pressão da Pediatra plantonista, da Doula que apoiou a Melina mesmo quando o ambiente lhe foi hostil.

 

Não sei como concluir esse relato e até acredito que não está concluído. O nascimento da Alice foi uma experiência do que vem pela frente em cada etapa de sua vida e da relação que nós, pais, estabelecemos com ela e com as pessoas a quem confiaremos seu cuidado, no futuro. É uma amostra grátis de como será a adaptação da Alice ao mundo, desde a escolinha até a vida adulta.

 

Gostaria que ela pudesse entender as coisas que aconteceram para que ela viesse ao mundo naturalmente e percebesse que isso é só o começo. Estaremos lá como estivemos para ela e para o Miguel. Sempre. Espero que ela sinta a dimensão do nosso amor e que essa é nossa forma de ensinar, através do exemplo, o valor de um sonho.

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O nascimento da Alice – nosso relato de parto

37 semanas. Arte e foto: Marília Mercer

37 semanas. Arte e foto: Marília Mercer

“Não há força da natureza comparável à da maternidade“. Assim o Ulisses descreveu a primeira foto minha e da Alice após o parto que ele acompanhou, doulou, defendeu e participou.
A Alice nasceu. Foi no dia 19 de abril de 2014, sábado de Aleluia e dia do Índio. Ela veio ao mundo após 39 semanas e 4 dias de gestação, 44h45min de bolsa-rota e cerca de 4 horas de trabalho de parto ativo. Sim, ela nasceu de parto vaginal, de cócoras, no Hospital Evangélico de Londrina, acompanhado pelo pai, doulado pela Marília e pela Lorena e assistido pela médica obstetra Aline . A pediatra neonatologista que estava presente foi a plantonista Ana Paula.
Antes de mais nada, quero pontuar que decidi publicar sobre o nascimento da Alice por duas razões:
– parir minha filha foi a experiência mais intensa e feliz dos últimos anos… uma alegria que desejo compartilhar com o mundo porque, além de tudo, teve um efeito curativo sobre duas feridas anteriores, conforme compreenderão pelo relato. Parir assistida pela mesma médica foi como uma redenção pelo não-parto do Miguel, algo que só tive clareza após elaborar os dois nascimentos. Essa certeza de completude e liberdade sobre o corpo é algo que desejo a todas as mulheres, quase sempre crentes de que não são capazes e de que receber os filhos é perigoso e sofrido. Maldito sistema. Maldita cultura que nos castra e cala. Parir foi redentor. Desejo-nos respeito aos partos que sonhamos a cada uma.
– não foi um trabalho de parto comum (nenhum é, eu sei.. somos únicos neste mundo) e espero que relatar traga segurança a outras mulheres que se encontrarem em situações semelhantes, para que se sintam seguras, para que possam se valer e se apropriar dessa experiência como argumento, como exemplo, como “case” a conversar ou comparar com os profissionais que a estejam assistindo.. enfim… do mesmo modo que me vali da experiência partilhada em tantos relatos, mas especialmente nos que cito aqui, para buscar inspiração, força e argumentos em busca do meu próprio. Conforme leram na introdução, foi demorado e sabemos que muitas mulheres teriam sido conduzidas a um não-parto sob várias justificativas erradas ou questionáveis com base nos mesmos eventos, a começar pela bolsa-rota.
Com esse sentimento de gratidão e desejando ajudar, de alguma forma, a mudar a forma de nascer, segue o relato do nosso parto.
Do começo:
O Miguel nasceu por cesariana, em 26 de março de 2012. Foi uma gestação de altos e baixos, com descolamento de placenta, repouso, diabetes, bebê córmico (atravessado) que encaixou pélvico, dilatação desde 34 semanas e mais repouso. Meu contato com o mundo da maternagem se restringiu a alguns manuais e confiança acentuada na autoridade dos profissionais de saúde. Li muita coisa sobre parto normal… passei da certeza de que uma cesárea era o melhor pra uma mulher a desejar o parto normal ainda no começo, muito incentivada pela naturalidade com que uma amiga – que nunca soube o quanto me influenciava – a Liliam, falava sobre o parto normal. Foi por uma fala dela, também, que perdi o medo de amamentar. Enfim. Veio o desejo, mas não confiava muito que fosse tão natural e fisiológico nascer pela vagina. Foi assim que, apesar de saber que era possível um parto pélvico, que havia a versão externa, optei pela cesárea na véspera da 38a semana. No dia que a gestação chegou a termo, o Miguel foi nascido. Não curti em nenhum momento. Chorei a escolha antes, durante e depois. Esperei que ele virasse milagrosamente até o último minuto. Mas sim, hoje sei que elegi a cirurgia e me resignei com ela. Entrei no centro cirúrgico com medo, sentia pavor da situação em que estava, pedi carinho à anestesista, queria a mão do meu marido, senti angústia quando fiquei sozinha após o nascimento, senti saudades do meu filho, não consegui amamentar imediatamente. Apesar de tudo muito respeitoso – e foi – vivenciei por dois anos o luto pelo parto não tido. A Melina que havia concebido e gestado no dia da cirurgia não era a mesma. Não me arrependo das escolhas que fizemos baseados nas informações e experiências que tínhamos, mas certamente esperaria entrar em trabalho de parto – algo que aconteceu apenas por coincidência. Lembrem-se, eu fui ao hospital para um nascimento eletivo. Pra ajudar, vivenciamos várias das estatísticas relativas aos riscos da cesárea: infecção hospitalar e dificuldade de amamentação.
Fiquei imersa na maternidade do Miguel e cresci com ele, passando de uma mãe via acessórios e manuais a uma mãe que tenta usar os próprios recursos e estabelecer uma conexão com o filho diariamente.
Ao mesmo tempo, comecei uma busca pessoal para compreender nossa experiência. O parto da Alice se iniciou antes de sua concepção, portanto.
Após dois anos da notícia da gravidez do Miguel, veio a confirmação da gravidez da Alice.
Veio a euforia e em seguida o medo. Tinha muito medo de viver outra cesárea. Não podia suportar o sentimento de incapacidade que invadia. A gestação foi tranquila e saudável. Amamentei o Miguel até por volta do 7º mês. Em vários momentos, a gravidez seguiu no automático, já que um filho quase criança demanda muita energia. Em outros, precisei parar e cuidar de nós duas.
O parto acontecia nos meus desejos, nas minhas leituras mas o medo de não acontecer beirava o medo de falhar e, bem, bloqueei imaginar como seria. Apesar de saber que não podemos negar a existência – e os casos de necessidade – da cirurgia, eu não suportava imaginá-la. Então, acreditava que o processo natural era o que ocorreria e tentava não criar expectativas de como seria – não fantasiava o parto, não imaginava como seria, como queria, que luz, que cor, que cheiro, que sons.. imaginar o parto,  como parte da preparação, demandaria também imaginar outras formas e eu não estava aberta a elas.
Durante a gestação, nos informamos, conversei muito com o Ulisses, fomos nos afinando e crescendo juntos, sempre trabalhávamos todas as questões com a médica. Ela se mostrou aberta ao parto vaginal após cesárea – VBAC –  desde antes da gravidez e me incentivou a ele, tratando-o, inclusive, como a melhor indicação médica após uma cesárea.
Ela conduziu todo o pré-natal da melhor forma que poderíamos imaginar passar, mas ainda faltava uma presença que me deixaria segura – a de uma doula.
Além de médica e futuras-doulas, minhas amigas Marcela, Bruna (uma das pessoas que mais me inspiraram desde que o Miguel nascer a buscar formas afetuosas de parir e criar) e Anamaria aguentavam minhas divagações e medos e me sustentavam em diversos momentos  (elas são as amigas Mamadonas, um dia eu explico – ou não).
Perto do último trimestre, senti que estava me preparando para um parto e não para um filho, e acho que parte da gravidez foi isso mesmo que aconteceu. Então a Alice começou a se fazer presente. Com 30 semanas ficou cefálica e senti contrações e dores que me assustaram; a partir daí foi uma sequência de pródromos infinitos. Foram 9 semanas de contrações de treinamento, algumas intensas e ritmadas, início de dilatação, medo de parto prematuro, correria para terminar de ajeitar o ninho, preparar o irmão para as novidades, culminando com perda de tampão eterno (mais de uma semana perdendo muco), oligodramnia leve (diminuição do líquido amniótico), pico de pressão alta, Whatsapp apitando dia e noite e um trabalho de parto e parto empoderadores.
Nesse finzinho corrido, comecei a me sentir mais mãe da Alice, a sentir a separação com o Miguel, a ansiedade pelo parto e, finalmente, Ulisses e eu entramos em consenso em relação às doulas.
Dois nós que faltavam se desfizeram: com 37 semanas, as doulas entraram definitivamente na nossa vida (apesar de a Marília já vir me ouvindo há muito tempo) e eu tive uma conversa franca sobre o parto da Alice com minha mãe.
Selfie da ocitocina! Equipe de Doulas em Londrina: Rosana, Lua, Marília e Lorena

Selfie da ocitocina! Equipe de Doulas em Londrina: Rosana, Lua, Marília e Lorena

Com 38 semanas fui presenteada pela Andrea, super mãe, educadora e artista, com um Gestando, uma vivência ímpar em que pude me conectar por meio de movimentos, toques e sons com minha filha. Foi nosso primeiro encontro a sós. A voz da Dea me instigando a dançar e a me conectar com a terra ecoou por todo o meu trabalho de parto (TP) e sempre serei grata a ela por esse presente. Sentia-me quase pronta. Finalmente, Alice podia vir!
Na terça-feira em que entrei na 39ª semana o dia foi tenso. Nas últimas semanas de gravidez o Miguel estava mais agressivo e não estávamos conectados. A noite, tive consulta e ainda na sala de espera tive um pico de pressão alta. Naquele dia, pensei que sairia do consultório com uma guia de internamento. Já vínhamos monitorando a Alice de perto em função da diminuição do líquido, mesmo sabendo que isso é normal no fim da gestação. Achei que essa junção de fatores nos levaria ao centro cirúrgico. Mas não. Definitivamente, a Aline nos respeitava. A Alice e eu estávamos bem e não havia razões para interromper a gravidez a essa altura.
Por precaução, fui orientada a monitorar a pressão por um dia e fazer um exame específico de urina que me levaria a fazer xixi num potão por 24 horas. Deveria me consultar novamente na quinta. Saí do consultório pensando que bom seria se isso tudo indicasse que a Alice havia resolvido chegar e torci para que antes de terminar os exames ela viesse. No dia seguinte fui ao laboratório, iniciei os exames. Confissão tardia: neste dia à noite, resolvi pesquisar sobre bolsa-rota, indicações reais e riscos para indução de parto por hormônios, métodos naturais de indução  nos sites da ACOG, Febrasgo e em artigos científicos pela internet, além de ler relatos de parto. Fiquei algumas horas estudando e fui dormir no início da madrugada me sentindo satisfeita. Santa intuição!
O primeiro dia:
Na madrugada de quinta-feira, dia 17 de abril, acordei para fazer xixi. Fiquei brava, estava morrendo de preguiça de ir até a geladeira e mijar no litrão, mas já estava bem apurada e sentia que ia fazer na roupa. Sentei na beira da cama e me senti molhada. Xinguei muito mentalmente. Era uó da depressão gestacional ter incontinência urinária. Então me ocorreu que poderia ser a bolsa. Olhei no relógio e eram 5h11m. Fiquei semi-eufórica e fui pro banheiro direto. Calcinha molhada, mas sem aquele aguaceiro de novela. Cheirei. Sem cheiro e sem cor. Decidi sabotar o exame, xixizar no vaso e voltar a deitar. Lembrei do relato da minha prima Mariana, que havia parido há algumas semanas: melhor descansar, caso fosse a hora.
Cerca de meia hora depois vieram as primeiras contrações leves… quase ritmadas… espaçaaaadas mas não me deixavam dormir. Ainda tinha dúvidas então decidi não avisar ninguém até que me sentisse mais segura – ou aflita. Na hora do vamos ver, sempre me sinto exagerada.
Lá pelas 7h achei melhor avisar o Ulisses no quarto ao lado com o Miguel, mas ele fez sinal para eu esperar na porta porque o Miguel estava acordando. Não falei nada.
Com uma contração a cada 10 ou 20 minutos, decidi ligar para a médica para confirmar se poderia ser perda de líquido. Resposta positiva! Trabalho de parto espontâneo, viva! Ela estava a caminho do hospital e pediu para que eu fosse até lá para me examinar e fazermos um cardiotoco e começar o trabalho de parto sabendo como tudo estava. Eu não gostei de ter que ir ao hospital logo de cara. Queria ficar em casa até perto dos finalmentes. Já não era como queria e isso me incomodou. Liguei para a Marília e a avisei. Então, fui avisar o Ulisses: “Li, então, to em trabalho de parto”. Nem terminei de falar e ele já tinha pulado da cama e estava no outro quarto começando a se arrumar para irmos ao hospital. Deixou a parturiente com o filho recém-acordado na cama e saiu apressado. Fiz o Miguel dormir, a Cida, empregada em nossa casa, chegou mais cedo, por coincidência, e fomos nos arrumar, já que o Miguel teria com quem ficar.
Já na recepção do hospital, a matrix. Fomos apenas para uma consulta de avaliação e determinados a não ficar por lá se tudo estivesse ok – e era para estar. Ainda na recepção queriam que o Ulisses ficasse assinando papelada e que eu subisse sozinha. Ele se negou a me deixar ir sozinha e eu não quis esperar sentada nem ser conduzida de cadeira de rodas. Inacreditável o quanto pedir para ficar em pé e andar – algo que me fazia muito bem – pôde contrariar tanto o pessoal do hospital. Vieram os primeiros comentários sobre protocolos e sobre o tremendo risco a que expunha a Alice por ficar em pé.
Exame de toque – 1,5 dedo de dilatação. Cardiotoco excelente. Aline nos liberou – voltar pra casa, dia normal, dali a 12 horas voltar para novo monitoramento caso não progredisse.
Ficamos lá na sala esperando tirarem os sensores e nada. Ulisses os tirou. Ficamos esperando a boa vontade da equipe de enfermagem para nos acompanhar e liberar as papeladas. Nada. Então, o Ulisses foi até a sala onde eu estava, me chamou para sair. No elevador, me pediu para tirar o crachá de paciente. Sim, estávamos “fugindo” do hospital pela primeira vez. Assim, voltamos para casa para esperar as contrações. No caminho, passamos na padaria para abastecer a casa de … quindins … e no CLAC, onde avisei a Dea😉.
Eu me sentia eufórica, muito feliz. Avisei as amigas Mamadonas, as amigas do Maternagem UEL (mamães amigas desde a faculdade, Priscila, Liliam e Lorena), avisei a família, já que era véspera de feriado prolongado e alguns poderiam viajar e precisavam se organizar.
O dia transcorreu sem maiores acontecimentos. As contrações era tão tranquilas que ainda não daria para pedir um remédio para dor caso fossem menstruais. Elas não ritmavam nem aumentavam de intensidade. Levei o dia normal. Comi (muito), brinquei com o Miguel – que ficou muuuuuito apegado e sensível nesse dia – usei a bola de pilates, tomei um trilhão de banhos quentes. A tarde, decidimos passear… quem sabe uma caminhada não ajudaria? Fomos ao shopping em família levar o Miguel para tomar smoothie e andar de escada rolante. Lá, teria espaço e banheiro à vontade. Aproveitei, comi um lanche apimentado. As contrações esboçaram um ritmo. Já passava das 17h, horário combinado de voltar ao hospital. Decidimos ligar para a médica quando chegássemos em casa e ir apenas se ela julgasse necessário após conversarmos. O líquido saia gotejando, era claro, a Alice se movimentava muito e eu me sentia muito bem. Não tinha razão para alarde e, embora eu soubesse que bolsa-rota não era indicação de nada por si só o tic tac do tempo correndo me deixava aflita. O Ulisses segurou a minha ansiedade (aliás, ele fez isso todo o tempo, preciso confessar). Eu não queria voltar ao hospital por “protocolo” mas tinha um senso de “dever” exagerado àquela altura.
Lá por 20h a Aline nos ligou para saber como eu estava – passamos o relatório e combinamos de permanecer em casa e avisá-la de tempos em tempos sobre o andamento. Nesse tempo, as doulas nos sugeriram tentar acupuntura para induzir as contrações. Às 21h minha cunhada, a Uiara, que esteve presente e ativa durante todo o nosso dia, me levou a me encontrar com a Lorena, uma das doulas, que foi quem conduziu a sessão. Uia, muito obrigada por toda presença e apoio, sempre.
Fizemos acupuntura e o ambiente e a presença da Lorena me reconfortaram muito. Lembro das cores, da calma e da acerola direto do pé. Lembro muito que as agulhas que ativariam o fígado bloquearam e que ela explicou sobre a necessária dose de agressividade para se ter um parto. Essa informação me martelou o resto do TP e foi valiosa no dia seguinte. Saí de lá motivada e voltei para esperar o TP.
Cheguei em casa, fiz o Miguel dormir, fiz uns exercícios na bola, um escalda-pés (de pijama, com toalha na cabeça, em cima da bola e com direito a uma foto ridícula) e fui tentar descansar. Estava acordada e embalada desde às 5h, após uma noite em que já havia ido dormir no início da madrugada. E ainda teria muito pela frente. Não consegui. Por volta das 2h levantei e fui para a bola de novo. A essa altura, já estava angustiada com a possibilidade de uma indução (ou de uma cesariana). Não sabia como sustentar mais de 24h de bolsa-rota em casa, se tivesse que o fazer. Comecei a me valer dos relatos inspiradores da Amanda, no site do Maternati, que havia tipo um TP com 31h de bolsa rota, e também da Lorena, 27h. Com 22h de bolsa-rota, às 3h, a Aline ligou em casa. Pediu para me ver às 5h.
Dessa vez voltei ao hospital muito desanimada (de shorts, meia de lã listrada colorida e sandália – moda-parto). Liguei para a Marília e a avisei. Eu já sabia que não era indicação de cesárea em função de bolsa-rota, mas sabia que após 24h há um aumento do risco de infecção e que alguma intervenção poderia ser sugerida em função disso. No caminho, o Ulisses foi me mantendo segura de que só ficaríamos se fosse necessário, justificado pelos exames. Não ficaríamos lá apenas por protocolo e a Alice viria no tempo dela. Ele estava muito seguro e fez toda a diferença em todo o TP.
Saí de casa com contrações a cada 20 min. Chegando no hospital, os mesmos protocolos logo na entrada – sentar, marido ficar na recepção para preencher papelada, parturiente subir sozinha de cadeira de rodas – e as mesmas negativas da nossa parte. Dessa vez, as “ameaças” de risco de morte ao feto em função de estar de pé e andando foram mais grosseiras e foi preciso esperar ligarem para a maternidade para avisarem que eu havia dispensado a cadeira de rodas antes de subir. Não, ninguém estava de fato preocupado com nosso bem-estar ou com a vitalidade da Alice. Eram apenas regras internas, aplicadas indistintamente e sem reflexão – como bem frisou a recepcionista, eles  poderiam levar bronca da enfermagem diante da minha recusa.
Subimos. Cardiotoco ok. Toque – 1,5cm ainda. A Aline nos explicou sobre o risco aumentado de infecção a partir de então, mas ressaltou que não havia justificativas para internação. Se fosse da nossa vontade, eu poderia voltar e esperar o TP progredir em casa. Contudo, ela queria repetir os exames dali a 12h caso o TP não “engrenasse”. Dessa vez, foi falada sobre a possibilidade de uma indução com ocitocina (condução, no caso) se tudo estivesse igual ao fim do dia. Com 48h de bolsa rota, a indicação médica dela seria intervir necessariamente, por indução. Esse seria seu limite.
O segundo dia:
No caminho de volta senti que deveria fazer minha primeira escolha em benefício da Alice. Senti no meu coração que, estando com o Miguel ao lado, tão sensível como estávamos, eu não conseguiria me focar. Senti que isso havia, de certa forma, bloqueado as contrações no primeiro dia. Senti que não fui inteira da Alice nem uma vez durante a gravidez, nem mesmo na iminência da sua chegada. Senti que ela precisava que meu chamado fosse mais forte, mais presente, mais seu. Senti, senti, senti e com um aperto pedi ao Ulisses que levasse o Miguel para a avó quando ele acordasse porque eu gostaria de estar em TP apenas nós três – eu, Alice e o pai.
Assim que “fiz a escolha” (não sei se é esse o termo, mas foi assim que me pareceu naquele momento), senti uma forte segurança, um alívio por ter tomado, finalmente, uma decisão ativa. Era como se eu tivesse finalmente compreendido que o TP era meu e que só eu poderia agir para que ele progredisse.. não teria doula, rotina, marido, médica, relógio, nada que pudesse sentir o que era necessário para ele deslanchar e fazer o que fosse preciso. Focar e ficar sozinha para me concentrar era apenas o primeiro passo, eu sabia. Mas havia começado.
O Ulisses recebeu muito bem meu pedido e foi além – sensível ao Miguel, propôs que ele permanecesse em casa, com seu dia rodeado das pessoas que ama e das atividades que gosta (Ulisses, eu te amo muito mais por não ter deixado de pensar um minuto no bem-estar do Miguel, além de tudo o que preparou para meu bem-estar e o da Alice, além de receber meus parentes e cuidar deles). Portanto, quem sairia seríamos nós. Fomos do hospital direto a um hotel.
Chegamos em boa hora, no café da manhã. Subimos, nos instalamos, descemos e comemos.
De volta ao quarto, achei que seria bom tentar dormir um pouco e fizemos uma soneca. As contrações, quando vinham, ainda eram espaçadas.
Acordamos e eu queria caminhar. Estava intencionada a parar de descansar e começar a me mover mais. Tomei banho quente, tomei outro café da manhã e fomos a uma farmácia. Era feriado de sexta-feira santa e a rua estava deserta. Quis ir a pé, mas o Ulisses preferiu ir de carro e me levar para caminhar no parque. Da farmácia, fomos ao Aterro do Lago Igapó e fiz uma caminhada leve (sempre com o aplicativo de contar contrações na mão). Nessa hora, já do meio pro fim da manhã e ainda com contrações moderadas a cada 20 minutos ou mais, a ansiedade começou a voltar e comecei a ter vontade de ver uma das doulas. Até então o contato se fazia por telefone ou Whatsapp. Mas sabia que não era hora ainda e não pedi que me visitassem no hotel.
Voltamos e comecei a ter vontade de fazer coisas esquisitas, tipo dançar. Mas eu ficava relativamente inibida com o Ulisses junto. Tomei mais banho quente, usei a bola de pilates, atualizei as coisas para as doulas e para as amigas Mamadonas, e era quase almoço. O Ulisses voltou para casa para ver o Miguel, fazê-lo dormir e recepcionar minha mãe e meu irmão. Eu teria pelo menos uma hora para ficar sozinha, portanto. No fim, o Ulisses voltou quase quatro horas depois com meu irmão, que voltaria embora e queria me ver, e com meu almoço pedido.
Esse tempo sozinha foi o tempo mais intenso do meu TP e eu não sabia o que era travar uma luta interna até então. Assim que ele saiu e levou consigo minha inibição, comecei a fazer tu-do o que meu corpo pedia. Mas antes, foi preciso compreender uma frase da minha prima, a Mariana: “o parto começa entre as orelhas“. Na minha cabeça e no meu coração, havia muito o que ser trabalhado. E então comecei. Comecei buscando uma música, dançar levemente, me envolver com o ritmo.
Essas horas não são lineares.. oscilei entre muita tranquilidade a muita ansiedade, entre estar muito segura do desfecho de tudo e temer não conseguir.
Ouvi Eddie Vedder, Guaranteed, até dizer chega. Ouvi Palavra Cantada, Meu Neném, para sussurrar pela Alice. Ouvi Eddie Vedder e Roger Waters, Comfortably Numb, para chorar. Ouvi Pearl Jam, Black, para embalar minhas dores pessoais. Ouvi Blind Guardian, The Bard’s Song, para dar ritmo ao TP. Ouvi Enya e muita música celta, para liberar meu corpo do pudor e de toda amarra  e foram as celtas que desbloquearam o feminino, o lado sexual do TP que estava trancado, que trouxeram a dose de agressividade necessária. Ao som delas, chamei Alice, falei com ela, briguei com ela, pedi perdão, visualizei sua saída, a puxei com minhas mãos… com as mulheres celtas, busquei a terra, como a Andrea, mãe de uma Alice, havia me ensinado, e nasceu a mãe desta Alice.
Dancei, rebolei, fechei os olhos, bati os pés no chão, pulei na cama, ajoelhei e orei, briguei com e clamei a Deus. Tão perto e tão longe!
Eu não sei expressar o turbilhão de sentimentos que vivi. Há alguns dias li um relato de parto feito por um pai, o parto da Tarsila. Tarsila fez nascer os irmãos mais velhos. Eu consegui compreender um pouco disso. Eu precisava elaborar o meu nascimento e com a Alice renasceria também o seu irmão – me dei conta de que tinha dois partos pela frente. Aí foi ficando cada vez mais perto.
Ainda havia escadas à minha disposição. Estava no 7º andar. Desci até abaixo do térreo. Andei na rua. Voltei e subi as rampas e escadas da recepção. Voltei de elevador até o 5º andar e subi um pouco mais de escadas. Quando parei, as pernas tremiam mas não sentia cansaço. Pulei na cama, literalmente. A camareira veio ver se eu precisava de algo, se estava tudo bem, logo após o barulho do colchão pulando. Ela deve ter se assustado quando uma grávida abriu uma fresta da porta, sozinha, tudo escuro, música estranha ao fundo..
Essas horas foram de verdadeiro arranjo interior e talvez seja por isso que sejam as horas de que mais me recordo absorvida em sentimentos e não de forma racional.
Vez ou outra eu falava pelo Whats com a Lorena e a Marília, que estavam acompanhando tudo e em prontidão. Seria a Marília quem me acompanharia. As duas me mandavam força, compartilhavam experiências (espelhada na Lorena, troquei o descanso pelo movimento) e dicas. Desliguei do relógio, segui todas.
As contrações começaram a se firmar a cada 20 min, a cada 15 min. Eu comemorava cada uma, amava aquela dor, queria outra, chamava cada uma delas. Só tinha ouvidos para a música e para o meu corpo. Torcia para o Ulisses demorar um pouco mais. Não queria parar e, de fato, só parei depois que Alice nasceu. Me envolvi num movimento que não poderei reproduzir nunca mais. Era circular e batia os pés no chão. Não havia cansaço, não havia pausa.
Umas três da tarde o Ulisses veio com meu irmão. Tive medo de o TP parar quando os recebesse, mas aproveitei para descansar. Já tinha perdido a vergonha de me soltar e mesmo com meu irmão lá continuei usando a bola de pilates, me movendo e ouvindo as músicas que queria. Nada parou, nada bloqueou. Sim, meu TP havia engrenado e não poderia parar mais. Como eu estava feliz!!! Era outra Melina que estava ali. Eu me sentia diferente. Sentia que havia feito algo pela minha filha e que ela sentia isso, ela finalmente se sentia recebida e viria.
Conversamos, rimos, comi e pus até meu irmão, o Mário, para cronometrar as contrações. Ele ficou pouco mas foi muito legal. Minha mãe estava em casa com o Miguel. Assim que ele se foi, decidi recomeçar. A essa altura só esperávamos diminuir o intervalo das contrações para avisar a médica. O Ulisses ajudou ativamente.
Perto das 17h, as contrações começaram a ser mais intensas e em intervalos menores. Ligamos para a Marília e para a médica. Aproveitei para soltar um “aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai” bem longo e audível, que era para ela não ter dúvidas de que o TP havia começado!
Eu me sentia tão segura no hotel, escondida, protegida, que quis que Alice nascesse lá, aconchegada. Quis muito mesmo. Pena ter confiado no processo fisiológico do parto tão tarde. Pena ter vencido esse preconceito só ali. Pensei: se eu engravidasse novamente, teria uma DR séria com o mundo para um parto domiciliar.
A caminho do hospital, meu único medo era de as contrações espaçarem novamente em função do ambiente, mas o Ulisses me incentivava muito e o medo foi passando.  O trajeto foi empolgado, mas como doía cada saculejada no carro.
Chegamos no hospital determinados a sair de lá apenas com nossa filha parida nos braços, o que significava que, salvo real indicação de intervenção, ela nasceria de parto vaginal natural.
No hospital:
Fim da tarde de sexta. Mais de 36h de bolsa-rota.
Vencemos os velhos protocolos na entrada. Exame de toque: 2 cm de dilatação, colo fino feito papel e Alice alta. Contrações a cada 7 ou 10 minutos, longas e intensas. Nessa hora, eu pediria um remédio para aliviar cólicas mentruais. A Aline me liberou para fazer o que quisesse: movimentar e comer e tomar líquidos.. meu corpo determinria os limites.
Aproveitei e acompanhei o Ulisses no processo de internação. Queríamos curtir tudo juntos (e assim foi até o final).
Fechei os olhos para os olhares curiosos e me deixava sentir as contrações em público sem medo. Vinham fortes mas bem suportáveis e durante elas eu me agachava. Tinha necessidade de estar em pé nos intervalos. Ficar sentada ou deitada não era muito confortável. No decorrer das horas, estar deitada era muito ruim. Se vinha uma contração, a dor beirava o insuportável. Eu já previa isso do meu comportamento em relação à dor em geral, por isso insistia em ficar de pé/agachada.
Ao final da burocracia, a Marília chegou com sua energia, suas mãos habilidosas e seus apetrechos doulindos! Como fiquei feliz quando a vi. Má, nessa hora parecia um conto de fadas, só que de parto. Eba, vou ter um parto que nem sonhei!
Já no quarto e com a Má, o Ulisses pôde ir para casa cuidar do Miguel e fazê-lo dormir. Jantamos, conversams, rimos. Novo cardiotoco, Alice tão ativa que tirou os sensores do lugar, ou seja, estava ótima. A cada meia hora vinha uma técnica ouvir os batimentos e ela se manteve sempre bem – desacelerava um pouco durante as contrações e acelerava em seguida.
Começamos alguns exercícios para ajudar a Alice a descer. As contrações seguiam numa intensidade suportável. Sim, eu ficava felizona com a dor – era minha menina chegando.
Não sei que hora era quando a Aline veio. Estava com uns 5 dedos de dilatação. Achei que me examinaria e iria embora, mas ela puxou o banquinho e assumiu a ausculta intermitente e lá ficou. Éramos três mulheres esperando pela Alice. Foi muito legal.
As conversas mudaram… rolou o maior papo “evidências x prática” entre a doula e a médica, além de maternagem, amamentação prolongada, desmame e relatos de parto de todas. Eu ficava à vontade. Recebia massagem, fazia exercícios com a Marília, comia um chocolate, um cookie, continuava tomando muita água e curtindo.
Acho que passava das 22h quando o Ulisses chegou com Lanchebom para nós. Eu já estava com saudades dele. Ele entrou empolgado,cheio de energia, exibindo os pacotes com o lanche que meu sogro fez com tanto carinho para a gente. Chegou colocando música, conversando, trazendo alegria e força. As contrações já estavam incômodas mas consegui comer.
Um tempo depois, a vontade de conversar diminuiu e eu queria ficar sozinha. Não sei com quanto estava de dilatação. Acho que foi quando entrei em TP ativo. A Marília me sugeriu um banho e aceitei. No meio dele, quis ficar a sós com o Ulisses e em silêncio. Não sei quanto tempo fiquei lá, mas as dores haviam aumentado (ou os intervalos diminuído). A água quente e corrente ajudava, mas eu precisava me agachar e vocalizar também.
É. Dói. Mas não é uma dor de sofrimento. Ela tem começo, meio e fim e dá para saber quando ela vai chegar e se concentrar/entregar. Entre cada contração eu não sentia nada, então descansava, relaxava… não temia a próxima (não durante o trabalho ativo). Acho que isso ajudou.
De lá, me pus de quatro na cama e não mudei de posição, salvo para toque. Passei por uma contração deitada e quase nauseei de dor. De quatro, eu podia movimentar a pelve quando meu corpo pedia e as contrações ficavam suportáveis. A Marília me deu a bola para apoiar o corpo e foi muito bom. Não sei quanto tempo fiquei ali. Não viajei. Ouvia e reconhecia tudo ao meu redor, mas não tinha vontade de interagir. Queria descansar entre uma e outra e quando a próxima chegava, focava em relaxar os ombros e vocalizar. Santas orientações da doula! Tenho a impressão de que cochilei uma ou algumas vezes nos intervalos. Uma certamente, porque sonhei com um quadro dos Ursinhos Carinhosos na recepção do hospital.
Nesse período, lembro de ouvir a Marília e a Aline cronometrando as contrações e comentando sobre o progressos do TP. Mas não prestava atenção. Vez ou outra via o Ulisses sentado. Já não tinha música no quarto, eu havia pedido para desligar não sei quando. O quarto tinha som de cochichos e de espera e era azul, minha cor favorita. Ninguém do hospital entrava. Absoluta intimidade e um silêncio gostoso.
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Durante o TP ativo.

Nada de dor nos intervalos, mas uma dor bem forte durante as contrações. O “aaaaaaa” já ficava mais longo e forte. Eu sabia que elas começariam alguns segundos antes, que elas não chegariam de uma vez e que teriam começo, meio e fim.. pareceriam que não acabariam mas seriam apenas alguns segundos para quem estava de fora. Lembrava disso toda hora para não desesperar no meio delas. “Vai passar”.
Entre uma e outra, quando comecei a cansar, aproveitei para tentar expressar o limiar da dor em palavras e dizia algo do tipo “agora pode ser que eu peça para tirarem a dor, mas eu não quero”; “pode ser que eu diga que não quero mais, mas eu quero” (não era bem isso, mas era próximo – ou era o que eu planejava dizer). Achava que deveria, caso eu pirasse (pelo menos todos saberiam que era só desespero durante a onda de dor e que passaria em segundos). E assim foi por um tempo que eu não soube medir. A mim pareceu coisa de uma hora ou um pouco mais. Quem sabe?
Escutei e vi de relance a Marília e a Aline conversando sobre os intervalos. “Um minuto”. Ou seriam dois? A Aline veio fazer toque, comigo ali, de quatro mesmo. Nessa hora, olhei pra baixo e vi um pouco de sangue. Não cheguei a me assustar, se fosse algo sério alguém já teria notado e feito algo. Mas fiquei confusa. As duas me acalmaram.“Melina, dilatou”. Eu achei que tivesse chegado a 7 dedos naquele momento. “7?”. “Não, total. 10. Vamos pra sala de parto”.
Eu não pude acreditar. Num instante as energias se renovaram.Eu estava preparada para mais algumas horas ali e já havia chegado à dilatação total, Para mim estava muito rápido!
Do jeito que estávamos, saímos andando mesmo em direção à sala de parto. (Durante o pré-natal, eu havia pedido para parir no quarto, mas acabamos entrando em consenso sobre ir para a sala. Além da cesárea, recente, tinha a cirurgia posterior relativa à infecção hospitalar. Na época, achei que iria ao centro cirúrgico, foi só no parto que soube que não, que era na sala de parto mesmo, similar ao próprio quarto, mas ela ficava a alguns metros do centro. Eu me senti segura com a decisão e não fiz questão do quarto. Hoje tenho clareza de que a Aline sugeriu o local em que ela se sentia mais segura também, não a julgo por isso, mas hoje eu insistiria, porque a intimidade dos quartos me ajudou muito no TP e imagino que também teria colaborado para um expulsivo mais relaxado).
No caminho, quis fazer xixi (eu ia no banheiro o tempo todo, nunca segurei nada, ainda mais com o tanto de água que bebi. Amigas que pretendem ter parto vaginal  – bebam água e vão ao banheiro. Ajuda demais). A Aline me interrogava se era xixi ou cocô, rs. Ainda era força de xixi. Os puxos não tinham começado.
Na entrada da sala de parto, havia uma técnica que barrou o Ulisses e a Marília para que eles se trocassem. A gente estava meio acelerado, rs, entrando sem avisar. Lá dentro, nada arrumado (estava internada desde o ínício da noite, o hospital sabia que havia uma parturiente lá. Ainda assim, a enfermeira cobrou a Aline por não ter avisado que estávamos indo para lá). Há poucos dias havia chegado a cama PPP, uma cama para parto que promete ajudar até em partos espaciais, mas que precisa ser preparada, ligada, sei lá o que mais. Eu nem sabia que a usaria, mas enfim, não havia nada preparado. Enquanto a médica se trocava e o Ulisses e a Marília chegavam, fiquei agachada na frente da cama, que era imensa e alta. Uma enfermeia apareceu e ficou ao meu lado, me acompanhando e acho que estava morta de medo de que eu parisse ali. Colocou uns panos embaixo. Nem precisaria. Se fosse para a Alice nascer no improviso, eu ainda estava de shorts😉.
Alguém foi procurar um banquinho para eu subir na cama. Quando chegaram com ele, eu já estava sobre ela. Aproveitei um intervalo de contração e escalei. Não sei como. Não importa. Lá em cima, fiquei de quatro. Eu não conseguia deitar e não queria. Chegaram Marília e Ulisses e mais algumas pessoas, eu não reconhecia ninguém porque estava sem óculos, rs.
Quem começou a preparar a cama e o local foram os três: médica, marido e doula. As enfermeiras pareciam só olhar. Mas eu devo estar com a memória viciada. O que eu tenho certeza é que a cama, pelo menos, quem aprendeu a montar e desmontar foram meu esposo e a minha doula. Eles que arrumaram tudo pra mim, trocaram até mesmo o bastão de lugar para eu ficar de cócoras e me apoiar.
Em algum momento chegou a pediatra plantonista – a Ana Paula. A pediatra que nos acompanharia estava doente no dia. Ela entrou reclamando de sono e manteve uma cara de poucos amigos durante todo o processo, além de ter falado coisas nada respeitosas relativas ao meu parto para a enfermeira que estava ao lado dela e para minha doula. O Ulisses tratou logo de se apresentar e avisar sobre nossas preferências e sobre o quanto a amamentação imediata era importante para nós. Ela foi pouco receptiva mas respondeu que eram todos protocolos do hospital mesmo e confiamos que ela os respeitaria. Mas não foi bem assim. Tem gente que não sabe mesmo respeitar a decisão dos outros, o momento dos outros. Me questiono porque escolheram determinadas profissões. As coisas só não foram 100% perfeitas e sem memórias ruins por causa dela.
Nesse tempo, eu sentia contrações muito doloridas. Só “aaaaaaaaaaaaa” não dava mais conta. Eu comecei a falar “AAAAAAAAAAAAAAAAA”. Em algum momento a Aline fez toque e doeu pra caramba. Minha tolerância para dor estava focada única e exclusivamente em expulsar e qualquer interferência extra era horrorosa. Não sei se foi nessa hora ou depois que ela manteve o exame durante uma contração e eu gritei para parar. O Ulisses me conhece muito bem, sabe que eu não faria isso se fosse suportável. Interveio e pediu para ela parar também. Ela parou.
A Alice estava quase coroando. Nessa hora ela comentou sobre um rebordo no colo do útero – era por isso que havia sangue no quarto.
Os puxos vinham – uma vontade louca e incontrolável de fazer força, empurrar… Num instante me pus de cócoras. Segurava numa barra e o Ulisses me apoiava nas costas e era nosso defensor. A Marília estava ao meu lado, incentivando enquanto a Aline assistia o parto e também me incentivava. A vontade de fazer força vinha mas eu sentia uma resistência contrária no períneo, era como se houvessse uma barreira. Eu fazia a força, mal conseguia respirar. O “AAA” já tinha virado grito mesmo e era outra coisa que fluía sem freios ou sem intenção.
Elas me avisavam que viam a Alice.
Em algum momento a Aline pediu autorização para romper as membranas ou algo do tipo. Eu só queria saber se doeria mais do que o que eu sentia, pela primeira vez tinha medo de dor – não da dor do parto, mas do plus. Olhei para a Marília e ela disse que não, que ajudaria. Foi feito. Não senti nada mesmo.
A vontade de fazer força era quase contínua, com intervalos ridículos, sem descanso mas davam tempo para decisões, para entender o que se passava e respirar.
Mais força e a Aline começou a sugerir como respirar e empurrar. Por uma ou duas vezes eu acho que tentei, depois busquei a Marília por olhar e me desliguei. Se foi como ela sugeriu foi coincidência. Era humanamente impossível atender a qualquer orientação diferente do que meu corpo fazia quase que de forma instintiva.
A Aline avisou que o períneo estava bem edemaciado e pediu autorização para passar um anestésico local, que poderia me ajudar a não temer a dor e relaxar. Autorizei, achei que ficaria mais relaxada sem a sensação de que minha vagina estava se rompendo. Feito. Outro puxo e nada.
Avisaram que dava para ver os cabelos da Alice. Eu só queria que ela saísse! Fazia a força mais forte que podia e parecia que nada. Então a Aline pediu para fazer uma mini episio. Não autorizei. Outra contração e nada. Ela pediu de novo, seria algo pequeno porque estava tudo já muito tensionado. Olhei para a Marília. Lembro muito de ter buscado seu olhar e sua aprovação várias vezes. Eu sabia que ela não aprovava mas ela notou que eu estava no meu limite. Pensei: se vai lacerar mesmo e tem algo que pode ser indiferente ou ajudar, que se faça. Autorizei. A anestesia local doeu. Era tudo muito rápido. Segundos mesmo. Por alguns segundos senti que tinha boicotado meu parto natural e falhado. Quis pedir desculpas à Má e às Mamadonas (era quase que um parto coletivo). Mas lembrei: minha história, meu parto, sem certo ou errado quando é livre. Naquele momento, naquelas circunstâncias, eu senti que devia fazer aquilo e fiz. Segundos… passou… elaborei isso.
Outra contração. Muita força. “Saiu a cabeça!”. “Os ombros”. E então ela deslizou e chorou. A Alice nasceu e como num passe de mágica a dor acabou.
Ela nasceu ali, na minha frente, à 1h46 do dia 19 de abril de 2014, de parto vaginal, de cócoras, com o apoio, presença,amor,  torcida e ação do seu pai, com o amparo de uma doula amiga e de muitas amigas e parentes, assistida por uma médica amiga. 
A primeira coisa que vi nela foram seus olhos abertos e ativos. “Ela é linda! Ela é grande” (e ela não era grande rs). Foi o que pensei. Meu coração se invadiu de amor instantaneamente.
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“Descoberta e encantamento”, disse o Ulisses. <3  Já no quarto, logo apó o parto.

Em seguida, vimos que a Aline estava clampeando o cordão pulsando. Pedi para parar, ela estava desconectada da gente e seguiu. O Ulisses também pediu e, não lembro bem como, mas soube por ele e pela Marília, ele se interpôs entre a médica e a bebê e impediu que ela cortasse antes de parar de pulsar. Mais tarde entendemos que ela estava ansiosa em função da pediatra, que queria pegar a bebê logo.
E então a quis comigo como nunca desejei nada nos meus braços antes. A pediatra também a quis. Brigamos por ela. Eu e Ulisses. Mesmo contra a vontade da pediatra, a Aline nos entregou a Alice e ela veio para o meu colo, que era o seu lugar, e mamou e ali ficou por um tempo delicioso. Pude sentir seu cheiro, sua pele, falar com ela e até cantar. Mas ela não curtiu minha voz e chorou. Depois, foi ao colo do pai, que também era seu lugar. Só depois ela foi para o colo da pediatra, que não gostou de ser preterida. Ela teve apgar 10/10, nasceu ótima e saudável, pesando 2,980kg e medindo 47cm. Não havia indicação de sair direto para as manobras de rotina, feitas indistintamente. Ela foi aspirada, não aplicaram credê e as demais manobras não se realizaram naquela hora (o hospital nos fez entender o quanto os seus protocolos, mesmo aqueles contrários ao direito do bebê e da mãe de estarem juntos imediatamente, são mais importantes, o que nos fez pedir alta antecipada, coisa para outro relato).
Ainda ficamos até perto das 3h ou 4h para suturas. Tive laceração no colo do útero e no períneo, em dois lugares, apesar da episio (que teve meio centímetro e acabou direcionando o sentido da laceração).
Assim que Alice nasceu, minha tolerância para dor foi embora. Chorei feito criança em cada agulhada de anestesia. Era uma dor medonha. Eu só queria minha filha e dormir. Quase não podia falar de cansaço. O Ulisses me sustentou nessa hora e me deu um beijo curativo e me olhou nos olhos. Nunca vou esquecer. Te amo!
Da sala de parto, a Alice foi direto ao quarto, sobre meu peito, mamando, deitada no meu colo, com vernix e coberta por cueiros mesmo. Do meu colo só saiu muito tempo depois, com o pai, para ser pesada e etc. Depois voltou, mamou e dormiu ao meu lado, algo que repetimos há mais de 30 dias e que não tem prazo para acabar. Foi maravilhoso dormir com ela, olhar seus olhinhos curiosos, ensiná-la a mamar, assim, tão de cara. Foi redentor e curou as feridas por não ter conseguido amamentar o Miguel no início.

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Primeira mamada após irmos para o quarto. “Não há força da natureza comparável à da maternidade” – palavras do Ulisses para descrever por essa foto o que ele sentiu.

Assim nasceu Alice, assim nasceu uma nova mãe e uma nova mulher, assim nasceu um novo pai, assim cresceu nossa família.
Sou grata a muitas mulheres que me apoiaram, empoderaram e incentivaram, cada uma de uma forma específica mas todas com muito carinho e confiança. Na figura das amigas Mamadonas e da Andrea, das doulas e da Aline, minha gratidão.
Sou grata e ainda mais apaixonada pelo Ulisses… seu amor e seu apoio foram e são inexplicáveis. Nossa família é linda e completa. Não teria sido possível se não estivéssemos juntos, porque o que mais precisava era ter sua mão e seu olhar ao meu alcance em todo o tempo.
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Assim que chegamos em casa – primeiro contato dos irmãos fora do hospital. Não é pra morrer de amor?

O parto trouxe minha filha, mas também me ensinou qual o Segredo, como diz a Andrea. Sim, nos sentimos poderosas, fortes, ternas, capazes quando vencemos nossos medos e uma noção incutida desde criança de que somos incapazes e imperfeitas. O segredo do feminino está em gerar, parir e nutrir.
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Selfie mamíferas, no dia da alta a pedido. Temo ter perdido a foto original.

Estou feliz com meu corpo, feliz com meus ciclos, é sobre esse renascimento pessoal a que me refiro.
Gerar, parir e nutrir é participar da criação. É natural. É divino. É o que desejo a todas que o desejarem e puderem.
 <3❤❤
P.S.1: vou indicar três sites para quem deseja estudar sobre gestação, parto humanizado e maternidade com apego. A partir deles, outros poderão ser puxados, além dos que já linkei ao longo do relato. Se tiver condições, participe também de um grupo sobre esses temas. No Paraná há os grupos Gesta em várias cidades.
 P.S.2: Por razões pessoais optei por não indicar o nome completo dos profissionais que nos assistiram, em especial dos que nunca fizeram parte do nosso parto, daqueles para os quais parto bom é parto feito, guiado pela conveniência, pela autoridade médica e pela passividade feminina. É necessária perfeita afinação da equipe, todos movidos pelo mesmo querer, pelo mesmo poder e pelo mesmo respeito ao nascimento para que um parto humanizado seja possível e possa receber esse título. Dizeres bonitos como “Hospital Amigo da Criança” são como placas de igreja e não garantem a salvação. Não se iludam, mas não desistam. É preciso mudar a forma de nascer para mudar o mundo, como disse Michel Odent. Estou à disposição para informar o nome completo dos profissionais que nos assistiram privativamente, a quem desejar. Meu e-mail é melinacaldani2@gmail.com.

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Quando 2 vira UM e UM vira 4

Era ele e era eu, Ulisses e Melina. Então, passamos a ser nós. E agora ao nós somam-se Miguel e Alice para completar a matemática.

Para registrar essa conta maluca e cheia de trocadilhos, nossos amigos Braulio e Sisi.

Em 2009, ele registrou nosso namoro e nosso casamento. Em 2012, ele e Sisi registraram a espera pelo Miguel, nesse ensaio lindo e cheio de significado (no mesmo caminho da chácara em que nos casamos). Há duas semanas, bem no aniversário de dois anos do Miguel, eles estiveram novamente conosco, além da minha irmã e parceira, Carol (que acompanhou o ensaio do pré-wedding), e dessa vez fotografaram nossa família que aguarda a chegada da Alice.

As fotos estão lindas e também foram feitas em um local especial. Escolhemos o parque em que levamos o Miguel para brincar desde bebê. No imenso gramado do Aterro do Lago Igapó ele descobriu o céu – e ainda me emociono com a sua emoção. No dia das fotos, acompanhou fileiras de formigas trabalhando, descobriu como é divertido apertar botões de “beijinhos” (flores) e foi ele mesmo, esquecendo de tudo para se encantar com algumas flores e folhas no chão. Será lá que o casal de irmãos ainda fará muito de seus pic nics e descobertas juntos❤.

Convido-os a clicarem aqui e conferirem!

Fotos de Braulio Delai e Sisi Terezin ==> http://brauliodelai.com/blog/2014/04/07/melina-alice-ulisses-miguel-26-03-14-londrina-pr/comment-page-1/#comment-18865

Caminhamos ao seu encontro, filha. Fotos de Braulio Delai e Sisi Terezin 

 

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Caso Torres-RS: luto por todas as mulheres

Eu tentei não ler a respeito do caso de Adelir – a parturiente de Torres-RS que foi submetida compulsoriamente a uma cesariana por ordem judicial, levada ao hospital sob escolta policial em meio ao trabalho de parto, sob alegações médicas de risco iminente de morte materna e fetal, acatadas judicialmente em um contexto e com base em provas que desconheço (salvo pelos relatos de notícias, cuja fidelidade e fontes não me atrevo a julgar) – considerando o envolvimento emocional que ocorreria, inevitavelmente, a essa altura da gravidez.

Estou à espera da Alice, literalmente, aguardando seu tempo, sua vinda, confiando na nossa natureza, no comprometimento de toda uma equipe escolhida à dedo, tamanho o medo de sermos violentadas no nosso mais elementar direito de parir/nascer – o que não é exagero, considerando que 1/4 das parturientes brasileiras relatam ter sofrido violência obstétrica, uma violação aos seus direitos humanos, à sua autonomia, uma agressão institucionalizada, relativizada, amenizada porque se veste de branco e atende por títulos de dr. em portas de consultório e hospitais. Violência. Ponto.

Enfim… nesse contexto tentei me poupar. Mas não deu. Não dá. Cada mulher gestante ou futura gestante nesse país foi violentada junto com a Adelir. Todos os nossos corpos femininos foram mutilados com essa decisão. A nossa autonomia foi roubada. Nossa liberdade foi subtraída. Todas fomos ignoradas em nosso direito de escolha.

Se os medos da médica eram fundados, não me importa. Se a juíza teve tempo e maturidade para decidir sem ouvir a parte contrária, não me importa. O resultado é o mesmo: todas nós, mulheres, fomos violentadas pelo Estado, representado neste caso, ironicamente, por mulheres.

O e-mail que colo abaixo foi em resposta a uma amiga que me mandou a notícia. Só consigo sintetizar o que sinto dessa forma.

“to tão perplexa com tudo isso que nem consigo comentar direito. eu li ontem a noite e ainda hoje fico martelando.

já fiz todas as viagens teóricas e emocionais possíveis, buscando alguma justificativa para que o Estado tenha se apoderado do corpo dessa mulher e lhe roubado a autonomia e liberdade de forma tão arbitrária.
não acho nenhuma. arbitrariedade, somente. sexismo puro, tratar a mulher como porta-bebês. tratar o nascituro como sujeito de direitos quando convém.
só lamento pela violência que essa família sofreu, irreparável.
se uma mulher resolve, por qualquer razão, fazer uma cesariana sem indicação, fato que, comprovadamente, a põe em maiores riscos de morte e morbidade, bem como a seu filho, ninguém, ninguém cogita obrigá-la judicialmente a aguardar ou passar por um trabalho de parto/parto vaginal, afinal, seu corpo, sua vontade, apesar de todos os pesares. e ela está no seu direito! para vivenciar o contrário, meu Deus, que luta… é muita maluquice para essa altura da gravidez, entende.
continuo à espera da alice🙂 terça completamos 38 semanas e ela estará a termo, finalmente🙂
vem alice, no seu tempo, mesmo que a gente tenha que brigar ;)”
Mudo, agora, o final, após refletir um pouco mais.
Vem, Alice, que uma porção de mulheres e homens que não aceita tamanho desrespeito já está brigando por você e pelo seu irmão, para que cresçam num mundo igual.
Que a seu tempo, sendo a maternidade biológica da sua vontade, todo esse absurdo seja aquele tipo de história que envergonhou e ensinou e não mais a maciça realidade.
P.S.: para ler e refletir ==> http://vilamamifera.com/orelhasdevidro/cesarianas-episiotomias-clitoridectomias/

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12/52

12/52

E ele fez dois anos…
Dois anos de amor para relatar, mas não consigo descrever.

É forte. É incondicional. É um desejo pulsante de ser cada vez melhor. É uma proibição de cair doente. É um querer que a pureza, o amor e felicidade estejam ao seu alcance. É desejar repelir todo o mal com as mãos. É querer te proteger da maldade dos homens. É orar para que Deus o faça e que o proteja mesmo dos erros de seus pais. É amar estar ao seu lado. Passar relatórios do seu desenvolvimento. Vibrar com suas conquistas. É querer logo estar obsoleta em tudo que me proponho a te ensinar. É querer que você voe. É viver aprendendo. É receber sempre o melhor que alguém pode receber de outrem. É aprender a ter autocontrole e paciência. É frear o impulso de controlar. É ler, reler, conversar, numa busca sem fim pelo modo mais correto de te cuidar e, no fim, ouvir o coração. É rever-me por dentro e reviver minha história. É separar o que foi meu do que é e será teu. É clamar por Deus e pela Mãe no desespero. É brigar com o divino quando nos acho esquecidos. É reconciliar-me com meu passado e tirar de você o peso de mudá-lo. Não criar expectativas sobre quem é e quem será Miguel. É te aceitar. Sentir falta da cara de bebê. Ansiar pelo rosto que vem. Esperar um abraço e um beijo que raramente vêm. Sorrir porque isso não é de você. Não me ofender porque não está com fome (ou porque não gostou da comida). Vestir máscara de pirata no elevador. Lermos juntos todas as histórias dos livros comidos pelos cantos. Ter coragem de dizer “não”. Sentir liberdade para dizer mais “sins”. É sentir que o tempo brinca, lento nos dias difíceis, veloz nos dias alegres, mas concluir que muito mais numerosos são os dias alegres. É não sentir cansaço antes que você durma. Engolir o próprio choro – ou não – quando está doente. Ter coragem de respeitar o tempo do seu corpo. Ter discernimento para intervir. Não ter pudor em me desculpar. Desejar braços e slings cada vez mais fortes para que jamais perca o colo que deseja(mos). É viver grata a Deus pela sua vida. É sonhar para que, no final, seu coração esteja sempre com saldo positivo de apego, afeto e amor.

É escrever tudo isso e perceber que cabe no sempre completo e singelo “EU TE AMO”.

Parabéns, meu menino, filho, meu amor,Migs, Miguelito, Amendoim, Carinha, gato da mãe, bebê, Miguel.

Foto de 26/03/2014. 24 meses. Tia Uiara e Tia Carol.

1 comentário

30/03/2014 · 22:08

11/52

11/52

Toddlerwearing + 35 weeks.

Miguel no sling, 23 meses + Alice, 35 semanas.

(Foto de celular + filtro e contraste editados pelo Photogrid)

 

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30/03/2014 · 22:07

10/52

10/52

A picture of my son once a week, every week in 2014

Porque se autoadesivar é mais divertido!
23 meses.

(Câmera celular)

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